12 de fev de 2014

Segredos e Encantos da Narração na Voz que cria imagens


Contar histórias é um ato que tem sua poesia, técnicas próprias, um jeito seu de ser e: fazer o tempo parar, envolver o espaço, abrir afetos, retraçar os contornos do mundo. Do mundo interior, mágico e imaginário, que todos nós possuímos. No entanto, o Fascínio por vezes nos escapa, cai em esquecimento... Atenta para as necessidades de cultivar o lúdico e as formas de encantamento, Cléo Busatto recupera fios e caminhos de sua experiência e entrega-se, generosamente, na escrita de Contar e encantar: pequenos segredos da narrativa (Vozes, 2003). Pequenos e valiosos.  

O livro é  aberto   com um    manifesto    do    contador  de histórias, uma verdadeira carta de intenções onde se antecipam os sentidos da paixão com que a autora enlaçou  seu ofício. Logo no capítulo   introdutório, Cléo Busatto fisga o leitor-professor (a quem o livro é primeiramente dedicado) em um ponto delicado de sua prática - nas confusões e diferenças por esclarecer entre o ato de ler em voz em alta e a técnica de contar histórias. Sim, são duas operações distintas e o que a arte -educadora mais quer é refrescar nossa memória, trazendo para a cena o contador arquetípico dos tempos antigos, o reencontro com a literatura oral e a arte de ouvir.
Com um texto ágil, que até mesmo parece que estamos a ouvir sua voz, a contadora de histórias e pesquisadora deslinda paisagens do saber popular, com leves apontamentos teóricos sobre os efeitos e as funções do encantamento. De um lado, a força capaz de estabelecer a coesão do grupo social; de outro, a fruição imaginativa e particular de cada pessoa que receberá a mesma história compartilhada na coletividade como se fosse única, apenas sua. Cléo Busatto investe uma viagem no tempo, recolhendo rápidas referências que vão de uma lasca de cerâmica grega, onde ainda podemos ver a face do temível Minotauro, até as imagens que se adivinham através das palavras, nos livros que a história da literatura tem guardado até nossos dias. Assim, vai mostrando com a Matriz Narrativa se multiplica nas diversas categorias de textos ou gêneros orais, como mitos, fábulas, lendas, histórias fantásticas, contos de fada, contos admonitórios -- cada um, cada um, com características próprias, mas guardando profundas raízes de parentesco.

São essas qualidades de homogeneidade e pluralidade que permitem às histórias da tradição oral conservarem o frescor, num ritmo de re-invenção constante. Morada simbólica dos sonhos humanos, nelas persistem um fundo comum que a todos convocam, trazendo essas narrativas, em igual proporção, a mirada particular das variadas culturas onde foram perpetuadas. Quando conseguimos provar de seus sabores, saberes e valores estéticos, éticos e práticos, compreendemos como a literatura oral traz, em sua essência, uma pedagogia para a sensibilidade, para a compreensão e respeito mútuo, para o silêncio de reflexão sobre as situações do cotidiano. Uma pedagogia que, se não é restritamente intencional em sua origem, será amplamente bem vinda no contexto escolar.Deste modo, a aprendizagem é compartilhada entre quem conta e quem ouve. Os segredos da narrativa integram a produção e a recepção, os conteúdos atitudinais e procedimentais. Afinal, ouvir é um fazer e fazer-se através da escuta da voz do outro, como quem conta se faz no mesmo processo de interação.

E para a interação fluir na flutuação da voz que alinhava o contato e o contexto, o contador de histórias deve conhecer e exercitar suas habilidades e a consciência sobre seus atos, sua arte de criar imagens no ar. Eis a chave de ouro. Como consegui-la e manipula-la? Exatamente, desta interrogação adiante, Cléo Busatto mostra a que veio, cumprindo as promessas registradas no percurso do livro, abrindo-se mais que generosa a todos. Exatamente assim, os pequenos segredos da narrativa tornam-se interessantes não apenas ao leitor-professor, mas a qualquer pessoa que deseja engajar-se no assunto ou tenha já iniciado um caminho solitário. Porque Cléo é solidária e didática, ao evidenciar os cuidados com a escolha do texto (o contador de histórias deve ser, acima de tudo, um bom leitor), com a história que se transformará em voz e gestos, em um galope sedutor como nos ensina um Calvino muito bem citado pela autora. Existem imagens verbais, imagens sonoras, imagens corporais... E nenhuma pode escapar à atenção.

Antes de oferecer as facilidades de um simples manual, Cléo Busatto é exigente com os futuros contadores de histórias sob sua tutela. Afinal, "narrar demanda trabalho investigativo, estudo e treino" -- em outras palavras, demanda um carinho imenso para que se consiga criar, por exemplo, a partir do texto e suas imagens, uma sedutora e sonora partitura para embalar o ouvinte... que também tem seus deveres! No entanto, enquanto ele os desconheça, caberá ao contador de histórias ensiná-lo. "Permitir qualquer comentário durante a narrativa significa romper com esta magia, com este fio invisível que lançamos ao dizer: "Era um vez..." Será muito difícil retomar a história e unir o cordão partido por um comentário fora de hora. Desconsidere a pergunta ou a observação com um olhar amoroso que significa: "Depois a gente conversa!"

Outros dois aspectos da riqueza de Contar e encantar, que ainda devemos destacar, são as possibilidades de trabalho que a autora oferece com a matéria da memória pessoal e, oportunamente, os limites que descreve entre o ato de contar e o ato de representar. Desvinculando a obrigação de ator profissional do papel do contador de histórias, além de diagnosticar problemas e preconceitos correntes, Cléo Busatto espeta e separa com argúcia a série de excessos e estereótipos teatrais, repetidos por contadores inexperientes quando interpolam caras-e-bocas-mais-cambalhotas em uma performance. Vale a pena lembrar que o encanto e a beleza se engrandecem na simplicidade.

Breves exercícios de concentração, orientações para conduta corporal e outros segredos encontram-se dispersos por entre os capítulos, convidando o leitor à ação. O livro se fecha com uma pequena antologia de oito narrativas orais muito agradáveis que nos permitem lembrar e estabelecer relações com outras histórias, viajar por outros textos-contextos... Na urgência de suscitar imagens e afetos, todo contador tem aqui um trabalho inspirado.

(publicado originalmente em dobrasdaleitura.com)
Peter O`Sagae: Mestre e Doutorando em Letras, pela Universidade São Paulo, e editor da revista eletrônica Dobras da Leitura, que em março de 2006 foi reconhecida como uma ação homologada pelo Plano Nacional do Livro e Leitura - PNLL, Eixo 3.3 - Valorização da Leitura e Comunicação.
Trabalha como leitor crítico na avaliação de originais para duas editoras em São Paulo e na orientação literária junto a escritores, além de prestar assessoria técnico-acadêmica em projetos na área do livro e leitura.

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