31 de dez de 2010

E no último post do ano só me resta agradecer


O ano de 2010 me proporcionou bons presentes. Lancei três livros e um DVD-ROM. Tive um conto republicado em revista e outros publicados em jornais. Conheci gente linda nos quatro cantos do Brasil. Encontrei uma legião de anjos na Bahia. Amorosidade em Minas. Acolhimento no Rio Grande do Sul. Fui envolvida pelo sorriso das crianças no Paraná, Bahia, Rio, São Paulo. Contei história pra mais de mil. Mergulhei e me embalei na literatura. Fiquei encantada com olhinhos brilhantes e descoberta por gente que eu nunca antes tinha visto. Recebi os melhores desejos e ouvi declarações infantis (nem tão infantis assim) que disseram mais que muita fala de gente grande cheia de saber.

Amei e fui amada. Bebi vinho com amigos e celebrei os 365 dias de surpresas e bem-aventurança. Olhei pra minha alma com mais atenção e carinho. Exerci a delicadeza e a flexibilidade. Curei dores antigas e limpei o porão. Soube aceitar a mão estendida, quando titubeei perante a vida. Andei no sol e mergulhei no mar. Senti o frio roçar meu rosto. Dancei pras deusas em noite de lua. E ri e ri e ri. Também chorei e soube me acalentar para acalmar. Olhei pra armadilhas que nos mantêm no estado de desanimo e desalento e disse que tinha coisa melhor pra fazer. Fui corajosa. Olhei de frente pra sombra e tirei de lá coisas lindas que estavam escondidas, perdidas. Ritualizei e sacralizei meu Eu. Me encontrei e gostei do que vi. Me amei.

E, ao findar das luzes desse ano, chega outro presente. Vem do Norte. Dois livros de poesia e uma carta escrita à mão, com recortes de revista comentando fatos. Coisa impensável nesses tempos. Quem hoje se dá ao trabalho de fazer um presente? Sua autora, sim. Conheço seu coração, mesmo nunca a ter visto. É Giselle Ribeiro, uma encantada de Belém. http://giselle-ribeiro-aprendiz-de-poeta.blogspot.com/ 

                    É com um poema do seu livro 69, eu encerro o ano. Fica como um brinde ao amor.

Tatuagem

Cola
em meu corpo
como tecido fino
ou veludo.
Quero
o afago da tua pele,
nossas roupas no varal...

e tudo o que nos revele.

26 de dez de 2010

Rede Criança e Paz

 Rede Criança e Paz é uma rede virtual dedicada a promover os direitos das crianças garantidos pelo artigo 227 da Constituição Federal. A rede é uma organização não estruturada hierarquicamente que visa conectar pessoas comprometidas com a proteção, cuidado e educação de crianças desde a gestação, e com a difusão da cultura de paz.
Tem como premissa que a primeira infância é fundamental para o desenvolvimento humano e que o que for feito em prol da criança nesta fase da vida, tem impacto em seu desenvolvimento e na situação social e econômica do país.
Missão: Ser um espaço para conexão e reflexão e ação coletiva sobre temas relacionados à primeira infância e cultura de paz.
Visão: Ser uma referência no processo de transformação qualitativa da realidade da Primeira Infância.

http://redecriancaepaz.ning.com/

23 de dez de 2010

Meu presente de Natal para você

Era noite da Natal. Os três andavam pela estrada vazia. O pai, a mãe e a filha. Caminhavam sem rumo, de mãos dadas. Não tinham casa, seu lugar era o mundo. Paravam aqui e acolá. Comiam o que era oferecido, o que a terra lhes dava. Os três andavam esperançosos, olhos no horizonte, atentos para o lar que a qualquer hora iriam encontrar.

O pai punha a menina na garupa e a mãe cantava uma melodia antiga que falava sobre a estrela de Natal. A menina quis a estrela como presente de Natal. O pai falou que ela podia pedir ao vento, já que eram amigos. Ele sempre aparecia nessas andanças e a menina se distraia do cansaço das pernas conversando com o vento, que respondia de pronto e animava a menina a continuar.

- Sua casa está logo ali, sua casa está logo ali – soprava ele.

Ou quem sabe pedir ao céu, continuou o pai. O céu tem muitas estrelas e pode lhe dar uma de presente. Logo em frente viram um casebre simples, com chaminé que soltava fumaça. Resolveram parar, quem sabe um copo de água.

- Sejam bem-vindos, sejam bem-vindos - exclamou a mulher da casa. O homem da casa ofereceu um banco para os três e o bebê, que brincava no chão de terra batida, sorriu e estendeu os braços para a menina.

Ela abaixou-se e passou a mão na cabeça careca do bebê. Ele era lindo, tinha bochechas gordas e ria. A menina acarinhou o bebê e ele deitou-se no colo dela. Um tempinho só, mas tão confortante. Uma eternidade. Os três cearam com os outros três. Comeram raízes brancas, frutos vermelhos, sementes marrons, pão quentinho e beberam chá de ervas perfumadas. Despediram-se desejando feliz Natal e tornaram a caminhar.

Logo adiante, a mãe lembrou-se de um bichinho de pano que fizera para a filha, quando tinha a idade do bebê. Carregava o objeto na trouxa. Voltaram para entregar o presente à criança, mas a casa não estava mais lá. Nenhum vestígio do fogo, nenhum vestígio dos três. No chão batido a menina reconheceu a marca da mãozinha do bebê e ao lado dela uma estrela brilhante, a mais linda que ela já viu.

19 de dez de 2010

Aconteceu comigo no verão

Uma história de amor

Essa é uma história de amor que aconteceu no verão de 1992, em Caraíva, no Sul da Bahia.

Um mês no paraíso. No dia da chegada fomos jantar num dos dois restaurantes que havia por lá. Era noite de lua nova. Escuridão. O vilarejo não tinha luz elétrica. Voltando para casa no rastro da areia branca fomos surpreendidos por um bando de cães. Eram muitos. Latiam e nos ameaçavam. Continuamos a andar, lentamente, sem enfrentá-los e conseguimos chegar bem. Um deles se mostrou amigável. Abandonou o grupo e nos acompanhou.

Na manhã seguinte lá estava ele. Um vira-lata qualquer que passamos a chamar de Cachorro. Ele virou nosso escudeiro e companheiro de praia e caminhadas. Protegia-nos dos outros cachorros e das pessoas que ele não confiava. Após 20 dias fomos visitar a aldeia dos Pataxós. Cachorro foi atrás. Ao cruzarmos o portal da aldeia, um menino correu ao nosso encontro fazendo festa pro Cachorro. Ele era seu cachorro e tinha se perdido no vilarejo. Foi lindo de ver os dois. Cachorro balançava o rabo de felicidade. O indiozinho acarinhava o animal e logo tratou de prendê-lo.

Ao pegar a trilha de volta, após caminhar uns 15 minutos, ouvimos barulho de bicho correndo atrás de nós. Era ele, Cachorro, vindo em na nossa direção e o menino atrás, gritando para que ele parasse. Mas ele só parou ao nos encontrar. Veio se despedir e retornou para a aldeia junto com seu amiguinho, o menino Pataxó.


http://www.gazetadopovo.com.br/viverbem/conteudo.phtml?tl=1&id=1079093&tit=Aconteceu-comigo-no-verao

14 de dez de 2010

Natal, o presente é o sentido que o livro traz


Pesquisas recentes confirmam que o brasileiro está lendo mais, até mesmo por viver numa sociedade letrada, que exige do sujeito uma continuidade de leituras como condição básica para estar no mundo. A leitura favorece o acesso aos conhecimentos necessários para execução de ações cotidianas e promove o exercício da cidadania.

Saber ler, significa fazer parte de um grupo de pessoas que detém o poder, ao se apropriar de saberes e ideias legitimadas e reconhecidas pela sociedade. Por isso a importância em democratizar a leitura e pensá-la como prática social - trocar impressões sobre o que lê, discutir, trocar, agregar; e pensá-la como prática cultural - ao ler, se compartilha pensamentos, sentimentos, visões e crenças de outros sujeitos, de outras épocas, raças e histórias.

Democratizar a leitura também quer dizer facilitar o acesso aos espaços que contêm livros, como bibliotecas, salas de leitura, livrarias. Implica em alimentar o imaginário das pessoas para a importância do livro literário e do seu poder simbólico de alcançar o mundo interno do sujeito e promover transformações. A literatura é a via da subjetividade e por ela se chega à alma do mundo e se cria o sentido de pertencimento à raça humana.

Que bom presente é o livro, ele não se acaba, porque fala à interioridade do leitor, atua silencioso e, se toca o sujeito, permanece vivo mesmo depois de não existir em sua forma material.

7 de dez de 2010

A cara de Salvador é Ian.

Carequinha, bochechas generosas, sorriso fácil. Esse é Ian. Essa foi a cara de Salvador, dessa vez. Ele é a imagem que criei da formação do Proinfantil, Salvador, 2010. Ian é um bebê de seis meses, daqueles que logo se vai adjetivando como uma criança fácil. Dado e manso. Participativo e perceptivo. Amor à primeira vista, desde que o vi dormindo com a bunda voltada para o céu. Dali em diante foram apenas algumas horas juntos, mas com gosto de eternidade, partilhada com afeto e leveza. Ian pede cantando. Adorável.

Eu sei que nem todas as crianças são assim. Conheci bebês que choravam o tempo todo. No prédio onde moro, vive uma menina de três anos, que chora todas as noites, histericamente, das 21h às 23h. E sua mãe grita. E ela chora.

No encontro se discutiu a autonomia, desejos e descobertas das crianças. Eu propus a reflexão sobre as histórias na formação dos pequenos. Que histórias contar? Qual o sentido de contar histórias para crianças?

Depois dessa imersão é compreensível que meu foco recaia sobre os pequenos... e seus pais. Acredito que ao olhar os pais se entende os filhos. Nascemos molinhos e receptivos e vamos sendo moldados pelo outro, pelo meio. E o outro pode nos ver como sujeito ou como objeto. Esse olhar contribui para definir uma vida, mais, ou menos harmônica; mais, ou menos feliz. Não seria o caso de rever alguns tópicos do currículo do curso de Educação?

Sou grata pela acolhida da equipe FACED/UFBA. Pelo aconchego da Licinha; a alegria da Mary; o cuidado da Monica; a companhia da Karina e do Ian; a atenção carinhosa do Cleverson e à amorosidade de todos os participantes.

A delicadeza e o riso deixam uma marca indelével na alma das pessoas.



29 de nov de 2010

Formosos Monstros - Octopés

Octopés adorável monstrinho da nossa terra. Seria um quadrúpede se não fosse as outras quatro patas que tem nas costas. Quando cansa de andar com suas quatro patas de baixo, dá um giro com a cabeça e se apoia no chão com as outras quatro, que estavam voltadas para cima. É ágil e seu salto pode alcançar três metros de altura.

Octopés é uma criatura pequena, do tamanho de um gato, com o corpo coberto de pelos vermelhos e brancos, que formam bolotas. Os olhos azuis são graciosos, quase dóceis. Tem uma boca que sempre ri e um rabo comprido que se dirige para o alto, em espiral. Poderia ser lindo e gracioso, não fosse seu hálito pestilento, que transforma as pessoas num montinho de pó.

Para neutralizar esse poder, só mesmo dando-lhe de comer um punhadinho de hortelã. Mas aí está o desafio: quem se arrisca a enfiar hortelã naquela bocarra fedorenta?

Octopés é minha criação e habita o Planalto Central do Brasil

13 de nov de 2010

Cidade educadora, Sesc e Transdisciplinaridade

Gostaria de compartilhar algumas impressões sobre minhas andanças por espaços e cidades educadoras. Uma cidade educadora tem cidadão comprometido com o que faz. Têm sujeitos que se apropriam do objeto artístico, para se relacionar consigo mesmo, com o outro e com seu meio. Cidadão educador tem espírito transdisciplinar e transita livremente entre a arte e a ciência. Promove um saudável diálogo entre os diferentes níveis de realidade. Interage com eles, transforma e se transforma ampliando os níveis de compreensão. Um sujeito com atitude transD, inventa, se inventa, se reinventa, está em constante processo criativo e afetivo.
Olhares atentos percebem que o Sesc se avizinha do pensamento transD, à medida que proporciona à comunidade, uma pluralidade de manifestações culturais e facilita o trânsito entre os diferentes níveis de percepção. Sesc SP: Pinheiros e Santos. No primeiro, estive com espaço para promover os saberes da humanidade, por intermédio da tecnologia digital e pelo encantamento que as histórias do espetáculo de narração oral, Formosos Monstros, oferecem. O grau de concentração, busca do conhecimento e satisfação dos participantes no tempo presente, atesta o mergulho nas diferentes dimensões do sujeito.

Já no Sesc Santos, que numa parceria com a Secretaria de Educação, sediou o XXII Encontro de Educação Paulo Freire – Cidade Educadora: saberes em todos os cantos, a minha conversa foi com o professor. O silêncio na plateia era pleno de significados, algumas vezes rompidos pelo riso, outras pela contemplação..





















Posteriormente isso se traduziu em alguns presentes, como a revelação do projeto que a professora Claudia Marczak desenvolve com alunos de 9 e 10 anos. Um trabalho com mandalas “visando melhorar a capacidade de concentração, a resolução de conflitos e o contato com o belo”.
Luana e Gabriela
Mandala (que quer dizer círculo) é uma imagem que favorece a meditação e conduz à iluminação.

Camila
Enquanto representação simbólica da inteireza da psique (C. G. Jung), ela mantém e restabelece a ordem psíquica e proporciona o sentimento de que a vida reencontrou a sua ordem.

Thayná

Vinicius
Agradeço aos professore presentes, a Lygia Barbieri e equipe da SEFORM, a Marise e ao Alexandre, das unidades Sesc Santos e Pinheiros, por fazerem desses espaços, um lugar  para despertar os sentidos.

30 de out de 2010

Um olhar transdisciplinar para a arte de contar histórias

Contar histórias é uma arte antiga, originária no imaginário de um povo e antecede a linguagem e a cognição. Considero aqui o papel do imaginário, pois ele se apresenta como condição para o conhecimento, unindo as diferentes dimensões da realidade e refletindo esse homem inteiro. Seguindo o raciocínio de que contar histórias precede a linguagem verbal, logo me vem à mente a imagem do homem pré-histórico, que ao pintar um bisão na parede da caverna, contava e deixava ao mundo a sua história. Sim, porque é possível contar histórias se apropriando de diversas linguagens, ou antes, diversos suportes. Assim, a literatura escrita ou falada narra uma história, bem como a música, a dança, o cinema, as artes visuais e as novas tecnologias digitais.
Porém, meu foco recai sobre a narração oral e o conto narrado. O contador de histórias surgiu da necessidade de perpetuar o imaginário individual ou coletivo e, nesse contexto desempenhou um papel especial. Ele é a ponte que liga o mundo de fora ao mundo de dentro. Em várias civilizações e tradições, o narrador é o mantenedor do sistema mítico e dos valores da sua comunidade, como também um instrumento que operacionaliza o acesso aos diferentes níveis de realidade.
Se o narrador é a ponte que liga um lado ao outro, o conto é o que escorre nesse vão. A história é a expressão do pensamento mítico do ser humano e uma via ao mundo imaginal, ou seja, “o mundo no qual se espiritualizam os corpos e se corporificam os espíritos”, segundo definição de H.Corbin. O contador de histórias liga as diferentes dimensões. Cria imagens no ar materializando o verbo e transformando-se ele próprio nesta matéria fluída que é a palavra. Empresta seu corpo, sua voz e seus afetos ao texto que ele narra e o texto deixa de ser signo, para se tornar significado. Ele nos faz sonhar, porque consegue parar o tempo apresentando um novo tempo, que se avizinha com o continuo aprender e tem como mediador kairós. Ao congelar cronos, essa dimensão passível de ser medida e seguida, abre-se para a dimensão de kairós, essa relacionada com a possibilidade de se estar presente no presente. Por essa via entra-se num estado de escuta flutuante. Esse conceito é uma alusão à atenção flutuante, de Freud. Por escuta flutuante entendo o se entregar ao que é narrado, sem avaliação e julgamentos, deixar-se levar por um estado de concentração, que liga o ouvinte ao emissor. Ao contrário da atenção flutuante que se opõe à contemplação, a metáfora da escuta flutuante só se completa numa perspicaz contemplação.
Para isso deve-se considerar a qualidade do conto narrado. Ao ouvir uma história atemporal, significativa, cuja arquitetura estruturou-se a partir de símbolos reconhecidos pelo nosso ser interno, somos sugados do nível prático e lançados na dimensão do sonho. Ali, podemos transcender os limites do nosso mundo pessoal fundado em dores e alegrias e nos introduzir na universalidade das vivências e dos sentimentos humanos. Por meio dessas histórias descobrimos que amor e egoísmo, angústia e contentamento, covardia e coragem, crueldade e compaixão, não são privilégios de uma época ou cultura, nem benção tampouco maldição. Elas nos recordam que a busca por uma vida de paz, livre de conflitos e sofrimentos, não é prerrogativa de poucos, mas se estende à condição humana. Essas histórias tem o poder de aproximar o que está longe e reintegrar o que está fragmentado. Histórias dessa natureza ativam o imaginário, provocam o devaneio, nos arrancam de um estado racional para nos aproximar de níveis mais refinados, como o plano do mistério e do sagrado.
Por meio dessas reflexões digo que contar histórias implica numa abordagem e numa atitude transdisciplinar, porque coloca o ouvinte em contato com diferentes níveis de realidades, a partir de onde são ativadas diferentes dimensões do nosso ser. Na dimensão do prático e gestual que se processa por meio dos sentidos, ouvimos, vemos e sentimos o narrador que com seu corpo, voz e afetos nos oferece sensações indescritíveis. Por meio dessa dimensão definimos se uma história é agradável ou não para nós. Mobilizamos também a dimensão lógica e epistêmica, orientada pelo pensamento que se encarrega de produzir conceitos, fazer leituras para a história ouvida. Teorizamos a prática do contador, buscamos uma hermenêutica que justifique a história e o imaginário do povo que deu origem ao conto. Contextualizamos e conceituamos esse conto.
Ao nos permitirmos àquela escuta flutuante ascenderemos à dimensão do mítico e do simbólico que é orientado pela percepção intuitiva. Experimentamos nossas representações e os sentidos que escorrem por elas, resignificamos nossa história a partir da história narrada e ampliamos nossa consciência superior. Ouvir uma história por meio dessa dimensão possibilita a criação de novas conexões com o nosso inteiror, tornando-nos mais despertos e possibilitando a subida a escalas superiores, em direção a dimensão do mistério, do indizível e inexplicável. Por meio desse nível, orientado pelo sagrado, cessam as diferenças ao unificar-se objeto e sujeito, pensamento à experiência, efetivo ao afetivo. Nessa religação entre o que estava fragmentado ocorre a transcendência, a restauração da inteireza do nosso ser e a vivência do pertencimento a algo maior.
Contar histórias ativa essas dimensões, esquecidas por não serem experienciadas e da qual fomos desconectamos, talvez sem saber, e lançados nas brumas do tempo com venda nos olhos. Essa vivência nos proporciona um contato com o vazio que tudo contém, com o silêncio que traz significações. Podemos dizer que ela nos coloca em contato com o Tao, Self, Deus. Seja qual for o conceito que atribuímos a ela, essa viagem interior nos religa ao todo e faz com que nos sintamos parte integrante do universo. Proporciona um alento para o espírito e traz uma confortável sensação de se estar em paz.
Ao refletir sobre esse aspecto da narração de histórias podemos ver o contador como uma espécie de xamã, que ao manipular forças invisíveis por meio do narrado, atua muito próximo da essência, onde tudo é imaterial e por meio do qual chegamos àquele canto da mente, onde tudo é silêncio, onde sou minha própria consciência. E o contador de histórias, ciente da sua função, ao lançar mão do seu corpo, voz, afetos, coração e significações pessoais, pode provocar poderosas alterações no seu ouvinte. Pode restaurar o riso esquecido, a autoestima perdida, a autoconfiança, fé e esperança na vida. Mas, se o contador não tiver sido tocado por essas luzes, se não fizer soar as histórias que podem nos conduzir a níveis superiores de consciência, sua narrativa será mais um passatempos, esvaziado de sentido, como os tantos entretenimentos oferecidos pela cultura dominante.
Então, que venham as boas histórias e um contador sensível e comprometido com ela. Que venham os contos, cantos e os encantos, para embalar nosso coração e restituir a esperança de que viver bem, sob quaisquer circunstâncias é possível para todos.

25 de out de 2010

Eu e o personagem

      Num desses dias de primavera ensolarada de Salvador, minha anja-da-guarda baiana deixou  escorregar uma revelação pra lá de literária, “achei que Cléo Busatto não ficasse triste; que pra ela o sol não parasse de brilhar; que fosse como um dos seus personagens, quando batesse a tristeza pegava o sol e trazia sua luz pra nos fazer rir outra vez. Achei que Cléo Busatto fosse inabalável”.
       Pasma e boquiaberta diante dessa inesperada revelação nada angelical, reivindiquei minha condição de humana e mortal, passível de me jogar no chão e chorar todas as lágrimas, eu que agora nem mesmo podia ser uma personagem de mim mesma. E se naquele momento havia tristeza no peito, ela logo se transformaria numa passageira melancolia, que iria se dissolver num mergulho, quando eu caisse nas águas de Iemanjá. E ela, a anja, ainda completou “até a pouco tempo, Cléo Busatto pra mim era um livro”.
      Bom, querido leitor, estamos falando de uma conversa entre duas mulheres crescidas, esclarecidas, bem formadas (risos...), modernas, independentes, descoladas e lindas, que fazem escolhas e dão conta delas.      
     Mesmo assim, esse diálogo quase surreal, num domingo de sol de derreter os miolos da gente.
     Agora, imagina você, como é esse papo de personagem e gente de verdade, para a criança que ainda não consegue nem mesmo diferenciar a obra do criador; o escritor do escrito. Ser da condição humana passa longe do mundo dos personagens.
     Literatura não é vida de verdade e os personagens que lidam com os aspectos humanos, servem apenas pra mostrar o que nos diferencia uns dos outros e também, como eu posso me resignificar por meio da literatura, ou seja da fantasia.

8 de out de 2010

Três momentos na Bienal do Paraná

No Circo das Letras com o Formosos Monstros. Curadoria do espaço e apresentação diária. A conversa com os pequenos gira sobre, monstro existe ou não existe? Com os maiores dá pra discutir o processo de feitura dos vídeos do CD-ROM. Muita atenção e surpresa ao saber que dá tanto trabalho.
A menininha pergunta "isso é prá chamar o unicórnio?" 
instrumento para atrair unicórnios
No Café Literário a conversa foi pequenos leitores, grandes leitores, com Rodrigo Lacerda e mediação do editor do Gaz+, Cristiano Freitas. Vivemos um momento especial na recepção do livro literário no Brasil. Nunca se falou tanto em leitura e do texto ficcional. Jovem lê. Lê aquilo com que se identifica.

Um grupo me cerca. Participantes de uma oficina literária da escola onde estudam. Muita pergunta e a certeza de que iriam levar novidades pra casa, minha mãe que se prepare para ouvir.
Fórum sobre qualidade na literatura para crianças e jovens. É importante ouvir o jovem, dialogar com ele, saber o que ele deseja ler. Impor uma leitura só mantêm as coisas como vem sendo há décadas. A escola precisa ficar atenta pra isso ou permanece no seu papel autoritário de dizer o que é bom pra mim.

E assim foi !

4 de out de 2010

O florista e a gata no Sagrado

Ana Cristina, professora das crianças, revelou, estavam ansiosos. Aqui está o grupinho. Terceiro ano do Colégio Sagrado. Ora, ser leitor também é uma escolha. Alguns preferem jogar bola; outros ver filmes; outros ainda, ouvir música. Há os que preferem ler. Agora, cá pra nós, criança sensiblizada por uma boa história, que encontra um bom mediador pelo caminho, que convive com o livro, esse dificilmente vai deixar de ser leitor quando crescer.
 Mil perguntas, curiosidade. Revelo que só a idéia não faz um livro. Depois temos um trabalho intenso e minucioso pela frente, para dar forma a essa idéia. Falo da busca das palavras certas e uma aluna logo concorda, "precisa ver se não repete muito a mesma palavra, porque não fica bom". Usa a palavra gata como exemplo. Aliás, os gatos renderam um bom papo.
Ana Cristina puxa o fio, eu vou atrás. A conversa é sobre os sentidos da leitura literária. Conto minha história de leitora e o significado de uma história primeira, aquela que descobriu a Cléo escritora. E eles se põem a predicar. Uma beleza. 
"É como se a gente sentisse os sentimentos dos personagens e vivesse dentro da historia", conclui Lilibeth. "Quando a gente lê um livro parece que a gente está vendo o que acontece com a história", diz Rodrigo. "A gente sente as emoções, parece que está dentro do livro e sente aquilo que os personagens estão sentindo", acrescenta Pedro.
Sim, crianças, é tudo isso e muito mais. As histórias nos despertam, tocam aquele cantinho escondido do nosso ser e às vezes, depois dela, até trocamos lágrimas por sorrisos.
O meu beijo pra vocês. Obrigada Ana Cristina, Luiza e Sagrado. Até a próxima história.

28 de set de 2010

Salvador, intensa e afetuosa


livraria LDM, gentileza e cuidado

Com quantos fios se tece um caminho? Essa história começou com um email que foi parar na caixa de spam. Era o Boletim Maio 2009 - Novas tecnologias: o confronto entre o tradicional e o contemporâneo.  Quem recupera o email e me responde é Luciene, professora de EAD e aluna do doutorado na UFBA. O livro Arte de contar histórias no século XXI faz parte da bibliografia da sua pesquisa. Ela solta uma fala despretensiosa, algo como ir à Bahia e a trama começa a se formar, fluida e contínua, com interrupções para reflexão e tempo de descanso. Palestra no departamento de Educação da UFBA. Entrevista virtual para os alunos da FTC-EAD. Narração de histórias na rede.

oficina na escola Arco-Íris
Luciene chama Lena. Lena junta seus delicados fios e vamos parar na Arco-Íris (ou seria no arco-íris?). Um ponto a mais, o lançamento de O florista e a gata. Outro nó, oficina de narração oral. Ações se desdobram. Possibilidades se abrem. Lena chama Thereza. Thereza junta-se a nós, outros fios, cores, texturas. Mais uma fala, agora aos professores dos CREAs. Doação. O foco? Para mim difundir saberes, promover trocas, ampliar relações pessoais. E nesse imaginário embarco para Salvador. 
uma princesa nesse caminho

Já no primeiro dia esse tecido se ampliou. Chega Daday e me carrega para o IAT. Conjunção feliz, minha presença, Práticas de oralidade na sala de aula, participantes do projeto Gestar em formação na cidade. Lá vou eu. Atravesso a cidade quente e encontro ainda mais calor. Esse povo vive sob bençãos divinas. Tudo é cheiro, abraço com vontade e sorriso. Olha o que o sol faz com a gente!

 olhinhos

Afeto se manifesta na relação. Criança sabe disso. Eles chegam pro bate-papo, participam. Ao ler Dorminhoco e falar sobre os sonhos do Bernardo, um pequeno dispara uma observação de gente grande, "e não dá pra controlar os nossos sonhos". Outro se anima e acrescenta "às vezes se acorda assustado, é que foi um pesadelo". Leitura dos livros. Com quantos tic tac se faz um som? Nós fizemos.


Uma pausa para arranjos.

Na UFBA sensibilidade transpassando saberes. Apresentação com cara de tempo presente. Tic tac tic tac... a casa era toda tic tac... a casa era o próprio tempo. Lá, suspendemos o tempo e a narrativa revelou a dimensão que é permeada pelo simbólico. A gente vive se reinventando. Lembrei minha história de leitora. Existe história fundante, sim. Não se dá conta de imediato. Mas um dia resignificamos nosso momento e a encontramos lá no fundo, quietinha e silenciosa, aguardando o instante pra se revelar e dizer, sim, eu fui a sua história primeira, seja bem vinda, ao mundo, menina, agora você pode escrever histórias.

  
noite de lançamento de O florista e a gata

... entre um autógrafo, uma fala, uma dúvida, um passeio (e foram tantos!) olhares se perpetuam. 
Salvador pode ser isso


ou isso.


Também assim

 

e assim!


Salvador e seu povo é. E eu, gratidão.

25 de set de 2010

Para ter acesso a novas formas de ver o mundo

http://www.gazetadopovo.com.br/gaz/gaznopapel/conteudo.phtml?tl=1&id=1050241&tit=Para-ter-acesso-a-novas-formas-de-ver-o-mundo
Divulgação / Cléo Busatto: a contadora de histórias estará presente todos os dias na Bienal
Cléo Busatto: a contadora de histórias estará presente todos os dias na Bienal

Cléo Busatto, catarinense radicada em Curitiba, é quase sinônimo de contação de histórias. A relação dela com o universo da leitura é tão profunda, que a organização da Bienal do Livro Paraná a convidou para ser a curadora do Espaço da Criança (Circo das Letras), que oferecerá ampla programação a leitores de 8 a 12 anos, conteúdo que também poderá ser usufruído por curiosos de todas as idades.

No dia 2 de outubro, ela participa, ao lado de Rodrigo Lacerda, da mesa-redonda Pequenos Leitores, Grandes Leitores. A mediação do encontro será do editor do GAZ+, Cristiano Luiz Freitas. A seguir, algumas ideias de Cléo:

O que uma pessoa, de qualquer idade, ganha participando da Bienal do Livro Paraná?
Ganha conhecimento, amplia sua consciência ética e estética. Frequentando espaços dessa natureza, uma pessoa entra em contato com pensamentos, pensadores, outras formas de ver o mundo. Ao visitar um evento desse gênero, saímos de uma existência autocentrada e provinciana e nos damos conta da grandeza do ser humano.

Isso quer dizer que circular em meio a livros e escritores faz bem à saúde?
Muito. A gente só tem a ganhar com um bom livro. Dia desses, uma pessoa me falou que tudo o que ela é e aprendeu, deve aos livros. Ela vem de uma família não ledora e pouco participativa. Então, foi buscar nos livros a base para a sua autoformação. Estamos sempre aprendendo a ser, criando sentidos para aquilo que vivemos e num processo continuado de aprendizagens. A literatura se encarrega de nos auxiliar nessa caminhada. Ela nos pega pela mão e diz, venha, isso é o que eu tenho a lhe mostrar, e agora você cria o sentido que melhor se encaixa na sua existência.

Cléo, é possível afirmar que o simples fato de frequentar um ambiente como o da Bienal do Livro Paraná já deixa a pessoa com vontade de ler?
Com certeza. Só o fato de frequentar ambientes onde o livro se faz presente já desperta o desejo de ler. Eu aprendi a ler sozinha, aos três anos e meio, simplesmente por crescer num lar que tinha livros, revistas por todo canto. Meu pai lia Seleções, O Cruzeiro, romances. Eu vivia com as revistinhas infantis em torno de mim. Os armários continham livros. Minha mãe era professora, seu mundo girava em torno das letras. Meu irmão foi um grande leitor. Eu li Os Miseráveis, de Victor Hugo, com oito anos. Estava lá. Bastava apenas tirar da estante. A história me envolveu, encantou, chorei com a personagem infantil, a sua dor pela perda da mãe.

22 de set de 2010

Salvador, dia 22, escola Arco-Íris promove a literatura

A Arco-Íris estava lotada na sessão de autógrafos realizada agora à noite. Pais e filhos em torno do livro literário.
Amanhã vou conversar com as crianças, apresentar os CD-ROMs, falar de coisas que eles gostam, monstros, aventuras, bichos.
A gente vai se encontrando nas identificações. Compartilhamos pequenos segredos, enquanto faço o autógrafo. Pergunto para uma, o que quer que eu escreva como dedicatória do seu livro?  Ela pensa um pouco e responde, eu também gosto de flores.
Pronto, criou-se o laço.



À tarde o papo foi com professores da rede municipal e pela manhã entrevista para os alunos de Pedagogia do ensino a distância da FTC-EAD. Amanhã tem mais.
Meus anjos em Salvador: Luciene, Lena, Thereza.
Que trio abençoado pelos Orixás.
Some-se a elas, o carinho do pessoal da LDM e da Arco-Íris e o sol de Salvador.                                                           

20 de set de 2010

Em BH sob o signo da letra A

Abriu-se a roda. Ledor, leitor e leituras. Soltou-se o abecedário num anseio de abarcar, abraçar essa arte que é a literatura. A atmosfera transcendia afetuosidade e alegria. Desse jeito dá para fazer bonito e ao narrar e ler histórias, acolher o outro com palavras amáveis, que acarinham, acalmam e acalentam. Havia abertura para assimilar novos olhares, aglutinar conhecimento, viver a alteridade sugerida pelo texto ficcional e ampliar o horizonte pessoal através daquilo que um bom livro nos apresenta.

Abracadabra... no instante seguinte tudo aquilo virava arte, ainda que sob uma abordagem educacional (pois predicava-se, elaborava-se conceitos, apresentava-se saberes formais, aclarava-se os informais, transformava-se conhecimento em sabedoria), afinal arte, educação, cultura são apenas fios de um mesmo tecido prenhe de sentidos, ao qual se batizou linguagem.

Tudo isso acompanhado pela atenção de um povo abençoado, que acaricia e aconchega. Aceitação e admiração. Alguém diz, é porque você é apaixonada pelo que faz. Como não ser, se a história acende faíscas de compreensão dentro de mim? Isso é o que doo aos que estão à minha volta e quando se trilha caminhos com alma, só pode-se agradecer a vida por tantos presentes. E ser grata aos acompanhantes de todas as horas, as matolinhas de biscoito de mandioca, a letra A de chocolate que surgiu na xícara de café, a paçoca com a marca Amor. Agradeço ao convite da Diretoria de Literatura e da amável equipe da BPIJBH e cada um de vocês que esteve comigo.

Diante dessas impressões, só posso afirmar que BH se fez sob o imaginário da letra A.


 

17 de set de 2010

Curitiba será palco da festa da Literatura

Cléo Busatto comanda a atividade Formosos Monstros, um dos destaques do Circo das Letras

Mundo de fantasia para as crianças

É uma unanimidade entre educadores: gostar de ler deve ser estimulado na infância. De olho nisso, a 1.ª Bienal do Livro Paraná preparou uma programação caprichada para as crianças. Todos os dias haverá apresentações de música, contação de histórias e atividades interativas com os pequeninos (a partir de 5 anos), no chamado Circo das Letras. A ideia é mostrar a Literatura de um jeito diferente – ainda mais divertida e atraente.
A curadoria do Espaço da Criança fica por conta da escritora e mestre em Teoria Literária Cléo Busatto. “O pensamento da criança é simbólico. É por meio dessas mensagens de fantasia que ela se identifica. Quando centramos um determinado assunto no fantasioso, no mágico, ela capta com mais facilidade”, explica.
Em um dos espetáculos, “Entrelinhas melódicas”, a compositora e professora de canto Edith de Camargo irá, com acordeão e xilofone, interpretar canções infantis e textos lidos por ela e pelas crianças da plateia. Em outro, “Onde nascem as histórias?”, as crianças irão acompanhar a personagem Beatriz em sua busca sobre o que é necessário para escrever um bom livro. A atividade será encenada pela Cia. Mínima de Teatro.

Fórum juvenil

Além dessas atividades, a Bienal terá o Fórum de Literatura Infantil e Juvenil – em que professores e demais participantes realizarão um bate-papo com escritores, ilustradores, cineastas e pesquisadores de educação. Nesta edição, o tema será “O que é qualidade na produção artística e literária para crianças e jovens?”. Nos dias 5 e 6 de outubro, a pesquisadora e escritora Ieda de Oliveira comanda a discussão, com participação de Cléo Busatto, da escritora Heloisa Prieto, da ilustradora e artista plástica Márcia Széliga, do cineasta Paulo Munhoz e dos professores doutores Alice Áurea Penteado e João Luis Ceccantini.

http://www.gazetadopovo.com.br/ensino/conteudo.phtml?tl=1&id=1046680&tit=Curitiba-sera-palco-da-festa-da-Literatura

11 de set de 2010

Tem de quinze? ou a história do leitor montando sua biblioteca.

    A conversa rolava solta com as crianças. Eram pequenas, entre seis e nove anos. Eu oferecia histórias. Algumas inventadas por mim, outras de verdade. Tinha também histórias dos outros, criadas em idos tempos. Elas saboreavam o instante, com aquele jeito assombrado, único das crianças que estão a descobrir coisa nova, e estampavam o olhar maravilhado de quem está se deleitando com a descoberta. Sentadas na beirada das cadeiras, pezinhos balançando, olhos estateladamente brilhantes sobre mim. Uma mão brinca com partes da roupa, agarra-se nas cadeiras quando bate o medo, porque tem disso, conversa para ser boa deve vir recheada de todos os tons: os que fazem rir e chorar; os que despertam o medo, a ternura e a compaixão. Perdidos num tempo mágico, eu e eles, compartilhávamos uma única emoção – aquela que vem com as histórias. E que bom estava sendo. Eu ria com suas carinhas e eles riam da minha. Intenções diferentes movidas pelos mesmos temas.

     Lá pelas tantas o comentário animado de um pequeno, “eu tenho cinco mil livros”... uia... é história pra lá de mil e uma noites. Então vamos. Como nascem as histórias? Como surgiu a história de Pedro e seu recém-inventado Cruzeiro do Sul, com aquela estrelinha a mais, no meio da constelação? E a aventura de Lidia-gata e sua patinha macia roçando o olho, seu pulo elegante ganhando a noite alumiada pelo prata da lua gorducha pendurada no céu? Como se desdobram as noites do também pequeno Bernardo, com seus sonhos coloridos pela coragem e companhia do leão de estimação? Quanta história pra contar! E a minha história de menina construindo mundos inverossímeis acarinhada por mim mesma, na cadeira de balanço da varanda perfumada pelas gloxinias de mamãe?

     Papo vai, papo vem, papo acaba e eu digo, quem tiver livro e quiser autógrafo pode chegar aqui. Abraços, beijos e a voz de um deles. “Quanto custam os livros?” “Ah, cada um tem um preço”, respondo. “Tem de quinze?”, pergunta ele sem titubear. Penso rápido e invento preço para viabilizar o desejo do menino. “Sim, o CD dos monstros custa quinze”. “Então eu quero um”. Entrego o CD para ele e ele me dá duas moedas, uma de dez e outra de cinco. Ele pega suas histórias. Satisfeito abre o sorriso. Afinal serão mais 32 que se juntarão às cinco mil que ele já tem. Olho para as moedas e meus olhos se enchem de lágrimas. Meu pequeno leitor, criança mágica, verdadeira e encantada! As histórias têm seu preço, mas o preço real é a vontade do leitor em estar com elas.

28 de ago de 2010

Pais e filhos na escola

Falar sobre literatura para crianças e jovens e a presença das histórias na formação do ser humano.
Esse foi o tema do encontro com os alunos e seus pais nos dias 26 e 27 de setembro,
no CTAM, em Santo Antonioda Platina - PR.

abrindo o dia... plinnn!!
 Pequenos detalhes fazem a diferença e revelam a alma da escola. O mural na entrada, o cantinho da leitura, as flores, a toalha e o tapete, o sorriso e a gentileza da equipe.
O jovem músico tocando seu instrumento no recreio.


Grande e pequenos.  Presentificação do momento. Educação também se faz com princípios e modelos.

  

Os pais carregando o melhor presente que podem dar aos seus filhos - livros de literatura!
Criança que é alimentada com fantasia, desde pequenina, se torna um adulto mais feliz. Boas histórias promovem o amadurecimento emocional. Assim é possível dar conta da dimensão do prático e racional e com isso, reconhecer e vivenciar o simbólico e o mistério que atravessa a vida.

Com Samuel, o protagonista de uma história especial, que será narrada em outra ocasião e parte da equipe.


Estes escolheram Pedro e o Cruzeiro do Sul  e Dorminhoco...


Esses, O florista e a gata ...


Platéia dos pais, calor, noite de lua cheia, sensiblidade e afeto no ar.


Obrigada Tia Ana Maria.

Obrigada.

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