9 de dez de 2014

Intervalos


ilustração heliana grudzien
(1)  mulher pássaro
Ela banhou-se em mel e salpicou sementes pelo corpo.
Vieram os pássaros e pousaram nos seus ombros, braços, cabelos, ancas.
E eram tantos. Bateram asas e ela voou.

(2) mulher árvore
     Ela enterrou seus pés na terra. Criou raízes. Veio o sol, veio a chuva.
Brotaram galhos e folhas nas suas mãos.
Logo, ela era toda galhos e folhas. Vieram os pássaros, fizeram ninho.
Veio a primavera, surgiram as flores.
No verão, os frutos amadureceram.
Ela alimentou os pássaros pousados nos seus ombros e galhos.

(3) mulher flor
Ela esperou por ele, sentada na pedra, na encruzilhada.
Veio o sol, veio a lua, veio a chuva, veio o vento.
Seus pés enraizaram. Lenta metamorfose.
Brotou uma flor azul.

                                                (4) estar com
Ela sabia que para estar com, era preciso encontrar um intervalo entre as coisas que a afastavam de si. Sabia que precisava criar espaços de fazer nada, instantes onde tudo é silêncio. 
Que precisava de coisas que a levassem de volta ao centro e gerassem entusiasmo.
Sabia que entusiasmo é andar com Deus na alma. 
Que andar com Deus na alma traz inspiração e a bem-aventurança. 
Que bem-aventurança é estar com o outro. 
Sabia também que só uma presença real definiria o estar com outro.
Sabia que para estar com o outro era preciso descansar no outro. 
Para descansar no outro era preciso viver as qualidades do estar com. 
O olhar, as vozes, as cores, os cheiros. Rituais de aproximação. Os tempos da palavra. 
O tempo do movimento e o tempo da quietude.
Ela sabia tantas coisas. 
Mas não criava intervalos. Não andava com entusiasmo. 
Não descansava no outro. Não vivia as qualidades do estar com. 
Pois é. Então, ela fez silêncio, banhou-se no mel. Criou raízes. 
Colheu uma flor azul. Descobriu-se de bem consigo. 
Já podia estar com.

7 de dez de 2014

Perto de nada, longe de tudo




   Estive no sertão nordestino duas vezes. Na primeira, apenas uma passagem, sem tempo para interagir com seu povo. Na segunda, do jeito que gosto, parando, olhando, sentindo, conversando, fotografando e aberta para a aceitação do desconhecido e do inesperado.
   Não li Os sertões, do Euclides da Cunha, nem Grande Sertão: Veredas, do Guimarães Rosa. Tudo bem. Uma lacuna a ser preenchida. Os livros estão aqui. Todos os dias olham para mim e perguntam, e aí, quando você vai nos revelar para si?
   Logo, não tenho nenhuma visão poética e literária do sertão, a não ser as impressões que esta segunda viagem, ao sertão do Rio Grande do Norte, para o vilarejo de Água Nova, deixou em mim. Quando falo vilarejo, quero dizer, sua comunidade, que é quem faz a cidade.
   E imediatamente surge uma imagem, que contrapõe àquela mostrada pela mídia, do sertanejo como um homem árido, tosco e duro, ainda que valente. Para mim o sertanejo é um homem de coração macio. Autentico. Um sujeito acolhedor, risonho e falante, ainda que num primeiro momento possa se mostrar rude. Acho que o sol, que surge brilhante às 5 da manhã, dissolve as durezas. É o calor do sertão afetando o sujeito.
   Viver no sertão é conviver com o imprevisível e fazer dele o caminho. Nunca se sabe se amanhã vai ter água para beber, ainda que saiba que o sol vai estar lá. Viver no sertão me lembrou os olhares de alguns filósofos existencialistas, que veem o ser do homem, como algo em construção. Na quietude necessária do corpo (por conta do calor), a existência humana vai se construindo, instante a instante, perto do nada, longe de tudo.

                                                               O que vi no sertão 
                              
Eu vi 430 km contando histórias. Eu vi o sol nascer e se por.


Eu vi açudes quase secos. Vi cactos e florestas de carnaúbas. 

                                              Eu vi o vulcão do sertão tirando uma soneca.


Eu vi carneiros e fiquei sabendo que quando o bichinho nasce, o macho se chama burrego, e a fêmea burrega.  Quando cresce muda de nome. A fêmea passa a se chamar marrã e o macho carneiro. E, depois que a marrã ganha filhotes se torna ovelha.


Eu vi o sertão.


Eu vi Água Nova, sua arquitetura


e o jeito de ser do seu povo.


                                         Eu vi um Ponto de Leitura que funciona com amor.  


 Eu vi crianças encantadas e uma menina de 5 anos narrar com graça e com alma, 
A formiguinha e a neve. 




 Eu vi crianças mareando meus olhos ao fazer uma apresentação inspirada no meu
Livro dos números, bichos e flores. 


Eu vi uma Orquestra de Cordas, da Fundação Educacional Lica Claudino, do município de Uiraúna PB, a 470 km de João Pessoa, tocarem clássicos sertanejos, como Luiz Gonzaga, com arranjo erudito, misturando as sofisticadas cordas com o popular acordeão. Arrepiou.
Eu vi um grupo de alunos da cidade de Tenente Ananias, RN, ali, pertinho de Água Nova, soprando flautas e tocando tambores. Lindo. Eu vi colegas tocar, recitar, cantar e palestrar para um público ávido por cultura.


Eu vi um grupo de militantes pela causa literária, realizando a III Feira Literária de Água Nova, RN, município, que fica a 433 km de Natal. Encabeçados por Sedima Ferreira França e Keutre Soares Bezerra, quase 40 voluntários passam o ano arrecadando dinheiro com bingos, rifas, festas, cursos;  conseguem apoios da comunidade e recursos da prefeitura, para viabilizar a vinda de artistas de todo o Brasil e fazer a festa. É pouco? Quantas cidades grandes, com recursos, que não fazem sequer um evento literário. 


Eu vi a casa vermelha e daqui, reverencio e saúdo Água Nova e esses mediadores, sensíveis,
e sabedores do poder transformador da arte literária.

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