26 de dez de 2012

Há um japão na minha vida



Senhor (futuro) prefeito Gustavo Fruet, escrevo de improviso e motivada pela paixão, para lhe pedir um presente de Natal: mantenha a Praça do Japão como ela é.

O senhor é um homem sensível e creio, muitos dos eleitores que votaram no senhor foram motivados justamente por isso. O senhor sabe que uma cidade se faz não apenas de ônibus e estações; vias e canaletas para articulados; estações de metrô e prédios. Uma cidade se faz com cerejeiras; bancos protegidos pelas sombras das suas flores rosadas; jardim; lagos com peixes; gramados; gente tomando sol; crianças brincando; jovens pedalando; casais namorando. A Praça do Japão é isso, tem isso e mais. Tem turistas fotografando-a, já que é um dos cartões postais da cidade; tem feira dos orgânicos (olha que bacana! Na nossa cidade tem feira de produtos orgânicos em várias praças. Quantas capitais têm esse privilégio?)

Ao mesmo tempo, eu vejo Curitiba correndo o risco de se transformar numa cidade desumana e eficiente. Vejo Curitiba perder sua história e o que lhe faz ser original e única, para se tornar próspera e grande; com milhares de moradores que vão morar mal, com muito barulho, pouco ar puro, por que estamos derrubando árvores, logo espantando pássaros, logo espantando flores... Vejo Curitiba perder sua história para vir a ser uma metrópole, afinal, uma metrópole é tudo de bom. Mentira. Não é. A cidade não precisa ser grande no tamanho, mas na sua humanidade. A cidade do futuro deve ter o tamanho que seus moradores precisam para habitá-la com bem-estar. Ser autossustentável e não autofágica. Não precisamos de uma nova São Paulo. Aliás, essa já se mostrou um equívoco.

Senhor prefeito, não altere a geografia da Praça do Japão por conta de um “azulão”. Há tantas soluções. Seus secretários sabem disso. Aliás, o senhor elegeu uma equipe tão inteligente, a começar pela sua irmã, a senhora Eleonora Fruet, que merece a função que lhe foi dada e, na minha pequena opinião, não importa se é sua irmã ou não, ela é competente, sensível e honesta, sabemos o que ela fez pela Educação da cidade. O que me assusta é quando os dirigentes elegem para cargos que podem definir a vida de muita gente, pessoas tacanhas, com pensamento estreito, que se movem apenas no plano do material e justificam todas as suas ações equivocadas em nome do progresso. Ora, esse é um conceito do século passado. Sabemos que um dos piores enganos que o mito contemporâneo do progresso suscitou na sociedade foi achar que a saída para os problemas era seguir pelo mesmo caminho, apenas mais rápido. O século XXI pede um novo olhar e pessoas comprometidas com a razão sensível, que pensam as soluções para a cidade de olho na qualidade de vida dos seus moradores.

Não sou uma especialista em meio ambiente, nem em projetos urbanistas, apenas uma frequentadora da Praça do Japão, e posso lhe dizer que eu, bem como as outras pessoas que passam pela praça e usufruem seu espaço, sabem como é importante um pedaço de terra para descarregar as tensões do cotidiano, um jardim pra meditar e depois poder pensar melhor, fazer nosso trabalho melhor. Ao alterarem a configuração da praça para que os ônibus manobrem logo ali, a equipe gestora da cidade vai atestar um olhar retrógrado e caduco. Por favor, mantenham as coisas boas da nossa cidade. Mantenham nossos patrimônios históricos, materiais e imateriais. Preservem nossa história e ficaremos na história. Sejamos criativos, isso é o que faz a cidade ser única.

17 de dez de 2012

Lendo o suprassenso




Dia desses, eu postei no Facebook o texto “ando assim, quanto mais me encontro mais me desconheço”. Uma moça compartilhou o post no seu perfil e acrescentou o comentário, “ou seja tô perdidaça”. Não sei quem é essa moça para poder entender esta observação. Meu perfil na rede tem caráter profissional e sempre aceitei todos que pediram para serem adicionados, afinal, não sou eu que escolho o leitor, ele vem a mim.
Enquanto pessoa que trabalha com leituras, num primeiro instante eu questionei esse olhar linear lançado para meu texto, mas logo me dei conta que essa é a forma com que as pessoas leem o mundo e o que está à sua volta. Talvez nunca tenham se encontrado com Guimarães Rosa, para lhes dizer que “a vida também é para ser lida, não literalmente, mas em seu suprassenso”.
Ora, é só ir além das palavras para dar-se conta que eu falo do processo de autoconhecimento e das constantes descobertas que vamos fazendo ao longo da caminhada. Viver é ir ao encontro do desconhecido. Novamente me dou conta que esse é o movimento de poucos, pois exige disponibilidade para ficar em silêncio e viver a solitude. E não é o que pede a sociedade contemporânea! Essa nos obriga a ocupar todos os espaços e com excessos, seja de barulho, imagens, coisas, gente, emoções, opiniões, e não permite que sejamos únicos e diferentes da maioria.
Dias atrás, eu vi um vídeo sobre a chamada era de cristal, este novo ciclo que se inicia. Fala-se sobre a transição do planeta e as modificações energéticas que vão incidir sobre a consciência individual e coletiva da humanidade. Está ocorrendo a ativação e mudança da kundalini da terra, ou seja, uma alteração do seu eixo, que se fixará em algum ponto da América do Sul, entre a terceira semana de dezembro e a terceira semana de fevereiro.
Ora, se isso pode parecer esotérico demais para as mentes pragmáticas, parafraseio Guimarães Rosa e digo-lhes, hora de ir além do suprassenso. Muito do que é dito no vídeo fez eco em mim. C.G.Jung nomeou isso como inconsciente coletivo. Segundo a apresentadora, uma das consequências desse evento é a mudança da estrutura energética do ser humano. Passaremos a atuar do nível do cardíaco (energia do amor) para o coronário (espiritualidade). Até então nossa energia circulava entre o chacra da raiz (materialidade) e plexo solar (poder).
Em 2003 quando escrevi Contar e encantar – pequenos segredos da narrativa, eu dizia que ao contar histórias lançamos um fio de prata que sai do plexo e envolve os presentes. Há alguns anos mudei meu olhar e passei a dizer que ao narrar histórias projetamos um fio de ouro do cardíaco, que enlaça ouvintes e narrador num único espaço. É a energia do amor que nos une e essa é a tônica da era de cristal. A onda do medo, agressividade, autoritarismo, controle e manipulação, já era. Agora a vibe é outra.
Então, que venha esse novo tempo (ufa, enfim!) que vai nos confrontar com o desconhecido para inaugurar um novo ser. Agradeço sua companhia nesse desafiador 2012 e desejo-lhe boas festas e inicio de ciclo. O meu inicia dia 5 de janeiro. Até lá, olharei para mim e me perguntarei todos os dias, o que está mudando à minha volta? E espero poder responder: 
- Eu!

4 de dez de 2012

À caminho do sertão



A linguagem, ato do suprassensível,  a casa do ser (como quer Heidegger) me aproxima do sertão. Essa ideia provoca em mim reflexões sobre o homem andarilho que desvenda os duplos e os limites do ilimitado. Sertão. Silêncio. Andarilho. Mensageiro. Quietude. A literatura me leva e  revela em mim o desconhecido. Eu vou. 
Pau dos Ferros. No seu início uma trilha criada por vaqueiros e viajantes que vinham do Rio Grande do Norte em direção à província do Ceará. A trilha aberta entre duas serras margeava um riacho, que aliviava o calor e deixava as caminhadas mais amenas, para os homens e o gado que era conduzido para a venda.



28 de nov de 2012

Fim ou começo?



2012 está sendo um ano único, de confrontos, reestruturações, desapegos. Ele me pede para encarar o viver de acordo com que acredito e habitar poeticamente o mundo; contemplar a transcendência para me aproximar da dimensão espiritual. Tempo do fim de um tempo ou começo de um novo tempo? Não sei. O que sei é que faço o caminho de volta, me avizinhando das origens. Meses atrás estive na terra dos avós paternos, borrando os olhos de emoção ao encontrar os muros de pedras das nossas casas, estruturas familiares que me sustentam - olha a metáfora me organizando. E há algumas semanas cheguei perto da terra dos bisavós. Mais alguns passos e estaria em Veranópolis, aonde eles chegaram há um século e algumas décadas abrindo caminho na serra à facão. Mas não era o momento. Naquele, eu deveria estar com as crianças que me esperavam na Feira do Livro de Farroupilha.
Tudo me leva ao passado para significar o presente Será indicação da morte? Dizem que quando ela se aproxima, a gente começa a rever nossa história. Ao escrever isso, rio. Ela não me assusta. Morro a cada milésimo de segundo que vivo. Na hora que vier será bem recebida, como se acolhe uma amiga, certa de que passei bem por aqui. Não farei o papel do homem que barganhou com Morte (da história apresentada no livro Pedro e o Cruzeiro do Sul). O sujeito foi logo pedindo um bônus. A Morte concedeu um tempo a mais e marcou dia e hora pra voltar. Mas no dia combinado, o homem decidiu que não iria acompanhá-la. Disfarçou-se de velho e foi se esconder na festa de um amigo. A Morte chegou à sua casa e ficou sabendo que ele foi à festa. Lá não encontrou o desejado, mas viu um velho atrás de uma porta e pra não perder a viagem, pensou, já que não encontro quem vim buscar levarei esse velho comigo, assim não perco viagem.
Como diz o pai, personagem desse mesmo livro, “este é o segredo, meu filho. Tudo no mundo nasce, cresce e morre. Agora, fique tranquilo. Veja as estrelas. Elas também morrem. Um dia, viram pó. Somos todos pó de estrela. Viemos do espaço e para lá vamos voltar”.
Pois então, que passe 2012 e nos traga um tempo novo, com a consciência ampliada, o coração mais amoroso e muitas histórias pra contar.

24 de nov de 2012

Mérito Fernando Amaro

Recebendo a distinção honorífica Mérito Fernando Amaro pelo destaque alcançado com a produção literária, por indiciação da vereadora Julieta Reis, na noite de 22 de novembro de 2012, na Câmara Municipal de Curitiba.















Uma indicação como essa é um reconhecimento da nossa caminhada e isso é prazeroso, nos ajuda a olhar com bons olhos aquilo que a gente faz, Algumas vezes, as coisas e as circunstâncias nos fazem duvidar do nosso valor. Uma premiação sempre vem dizer continue, o que você faz provoca eco e é bom para o outro. E assim voltamos um olhar generoso para nós mesmos.
O melhor da noite, foi a vereadora sussurrar no meu ouvido, você merece, Cléo Busatto, você merece. Obrigada, Julieta Reis.



10 de nov de 2012

58ª Feira do Livro de Porto Alegre



SEXTA, 09 DE NOVEMBRO

A RARA CLEO BUSATO

Descontraída e confiante é como a paranaense Cleo Busato, especialista em literatura oral e infanto-juvenil, se define. E é aí que está o segredo de seu sucesso. Com 20 obras publicadas, a autora tenta ensinar que o mais importante é ter a dimensão da particularidade de cada um. Foi isso que ela fez hoje durante a participação na Feira do Livro, quando conversou com várias contadoras de história, apresentou o seu trabalho e revelou alguns truques para o encantamento do público infantil.
Mas não são apenas as crianças que ficam fascinadas com a forma com que Cleo executa a atividade. No olhar das aprendizes, presentes no encontro, dava para perceber o poder de sedução contido na jeito como a escritora conta as histórias – caracterizada por uma voz firme, empolgada e que reproduz sons a todo momento, colocando o público dentro da narrativa.
E para seguir os seus passos é preciso não se descuidar da maneira como ocorre a narração e a criação de um cenário. Segundo ela, estes elementos são extremamente necessários. “Se a história não vier permeada por essa alma do mundo, não vai encantar, por mais habilidoso que seja o contador”, ressaltou.
A escritora, que busca tornar o livro presente no imaginário e uma constante na vida das pessoas, diz que a contação de histórias é um eficiente instrumento para se alcançar este objetivo. “É uma forma riquíssima, que serve de link para formar leitores”, acrescentou.
Estimulada por este desafio, Cleo segue se superando, conquistando cada vez mais fãs e deixando um legado literário e reflexivo, que ecoa pelo mundo e ajuda na construção de uma sociedade melhor.

28 de out de 2012

Eu, leitora





Eu e as palavras sempre andamos de mãos dadas. Um caso que se iniciou nos primeiros três anos de vida. Nasci num povoado no interior de SC. Ainda pequena seguia os passos da minha mãe, que ia lecionar acompanhada de um periquito que cantava o Hino Nacional com os alunos. Ela lecionava na escola multisseriada do vilarejo. Poucas crianças, suficiente para encher a única sala.
Minha mãe era um sujeito transdisciplinar antes mesmo de Piaget cunhar o termo. Cruzava conhecimentos e afetos;  misturava português e matemática com teatro; praticava literatura na coroação de Nossa Senhora; ensinava história ao nos fazer bordar colchas maiores que nós. Ensinava a gente a viver bem naquele mundo pequeno, ainda que gigante nas oportunidades. Ali nos descobrirmos vivos e felizes com o que tínhamos. À noite, eu a ajudava a criar o material pedagógico para suas aulas: recortava, colava, folheava revistas, criava. Desse universo para a leitura foi um pulo.
Nasci numa família leitora. Era uma menina rica, tinha dois armários de livros. O primeiro, grande e amarelo, no quarto de trabalho da mãe, com seu material da escola, meus gibis, as revistas Seleções e Almanaque Pensamento do pai. O segundo, menor, ficava na sala. Dentro dele morava Victor Hugo e seu Os miseráveis que li aos 8 anos e me fez chorar. Robson Crusoé, que instigou meu espírito aventureiro; enciclopédias com mitos de povos distantes, contos de fadas e princesas, que eu lia sentada na cadeira de balanço da varanda. E sonhava. Eu podia ser tudo. Uma menina que morava num castelo nas nuvens. A heroína perdida na selva. A artista de cinema.
Um dia a mãe escreveu um texto no quadro-negro e pediu a um aluno que lesse. Eu li. Tinha 3 anos e meio. Aos 4 fui visitar minha irmã no colégio onde ela estudava, na cidade vizinha. A mãe contou à madre diretora que eu lia. A mulher me levou à sala dos professores, tirou um livro da estante de madeira escura e disse, leia. Ao abrir o livro me encantei com as gravuras e mergulhei na história. No instante seguinte, já não estava diante da autoridade que testava minha capacidade leitora, e sim no alto do cinamomo que havia atrás da janela da cozinha da casa onde eu morava. Estava na copa da árvore com a galinha dos ovos de ouro embaixo do braço. Para fugir do ogro descia rapidamente e me escondia no quarto.
Lia João e o pé de feijão. Só mais tarde, ao ressignificar minha história, eu fui me dar conta que o tesouro conquistado era a leitura e a condição que a literatura nos oferece de transcender os limites do provável, para entrar no campo das possibilidades infinitas. Naquele momento nascia a escritora, a narradora de histórias (ainda que eu não tivesse essa consciência). E, nessa trajetória de vir a ser o que sou, segui o chamado, a vocação. Ouvi a voz do coração. A palavra falada e escrita foram as pedrinhas de brilhantes que coloquei no caminho por onde passa o meu amor.

12 de out de 2012

De mãos dadas com a literatura



Jonathan Campos
Jonathan Campos / Cléo BusattoCléo Busatto
DEPOIMENTO

De mãos dadas com a literatura

Cléo Busatto, escritora e contadora de histórias

8
12/10/2012 | 03:00 | DEPOIMENTO A DIEGO ANTONELLI
“Eu e as palavras sempre andamos de mãos dadas. Um caso que se iniciou nos primeiros três anos de vida. Eu nasci num povoado no interior de Santa Catarina, no Vale do Rio do Peixe, ao lado dos trilhos dos trens da RFFSA (Rede Ferroviária Federal Sociedade Anônima). Ainda pequena, seguia os passos da minha mãe, que ia lecionar acompanhada de um periquito que cantava o “Hino Nacional” com os alunos. Ela era lotada na escola do vilarejo. Escola multisseriada, poucas crianças, o suficiente para encher a única sala da escola.
Minha mãe era um sujeito transdisciplinar antes mesmo de Piaget cunhar esse termo. Cruzava conhecimentos e saberes; transcendia os padrões educacionais da época; misturava português e matemática com teatro; literatura com coroação de Nossa Senhora, na qual crianças-anjos lançavam chuva de pétalas de rosas sobre a santa.
Retrato 3 X 4
Cléo Busatto é escritora com obras literárias para crianças. Também produz e narra histórias em CD-Rooms. Possui mestrado em Teoria Literária pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e é mediadora em projetos sobre oralidade, leitura e literatura infantojuvenil. Publicou livros teóricos sobre oralidade. Cléo também é contadora de histórias. Suas histórias já foram ouvidas por mais de 75 mil pessoas no Brasil e exterior.
Ensinava a gente a viver bem naquele mundo pequeno, ainda que gigante nas oportunidades. Ali nos descobrirmos vivos e felizes com o que tínhamos. À noite, eu a ajudava a criar o material pedagógico para suas aulas, recortava, colava, folheava revistas, criava. Desse universo para a leitura foi um pulo.
Nasci numa família leitora. Era uma menina muito rica, porque tinha dois armários de livros. O primeiro, grande e amarelo, no quarto de trabalho da mãe, com seu material da escola, as revistas Seleções e Almanaque Pensamento, do pai; vidros com purpurina, formas de ferro para fazer flores de pano e outras coisas quase nunca utilizadas, ainda que despertassem minha curiosidade.
Já o segundo armário ficava na sala de jantar. Era menor e com duas portas de vidro. Dentro dele morava Victor Hugo e seu Os miseráveis, que li aos 8 anos e me fez chorar. Robson Crusoé, que instigou meu espírito aventureiro; e enciclopédias com mitos de povos distantes, contos de fadas e princesas, que eu lia sentada na cadeira de balanço da varanda perfumada pelas flores cultivadas pela mãe. E sonhava.
Eu podia ser tudo. Uma menina que morava num castelo nas nuvens. Uma heroína perdida na selva. Uma artista de cinema.
Um dia, aos 3,5 anos, minha mãe escreveu um texto no quadro-negro e pediu a um aluno que lesse. Eu é quem li. Tempo depois, já com 4 anos fui visitar minha irmã no colégio das freiras, no qual ela estudava, na cidade vizinha. A mãe contou à madre diretora que eu lia. A mulher me levou para a sala dos professores. Ali, enormes estantes de madeira escura com portas envidraçadas e repletas de livros. Tirou um deles, entregou-me e disse ‘leia’. Ao abrir o livro me encantei com as gravuras e mergulhei na história.
No instante seguinte, já não estava naquela sala, diante de uma autoridade que testava minha capacidade leitora, e sim no alto de um cinamomo que havia atrás da janela da cozinha da casa onde eu morava. Nos últimos galhos da copa, com a galinha e seus ovos de ouro embaixo do braço. Depois, eu descia rapidamente para fugir do ogro devorador de gente. Entrava pela janela, pulava sobre a pia da cozinha e dali para meu quarto, a salvo, com o tesouro que havia conquistado.
Eu lia João e o pé de feijão. E só fui me dar conta, anos mais tarde, ao ressignificar minha história, que o tesouro que eu havia conquistado era a leitura e a condição que a literatura nos oferece de transcender os limites do provável, para entrar no campo das possibilidades infinitas. Naquele momento nascia a escritora e narradora de histórias (ainda que eu não tivesse essa consciência).
Nessa trajetória, de vir a ser o que sou, segui o chamado. Isso é o que quer dizer vocação, não é? A palavra falada e escrita foram as pedrinhas de brilhante que coloquei no meu caminho. Daí, para me tornar também uma agente do reencantamento, um pulo. Explico. Para mim, o bom mediador de leitura é aquele capaz de despertar um olhar diferenciado para o mundo. Que ler é condição básica para o exercício da cidadania, ninguém questiona.
Mas reconhecer a importância da subjetividade e da fantasia na formação do ser humano; compreender que a literatura apresenta uma linguagem simbólica e intangível, e que por meio dela se revelam as diferentes dimensões do sujeito, ainda não é entendimento da maioria. Acho que as boas histórias, aquelas permeadas pela alma do mundo provocam a sensação de fazer parte de algo maior, como ser perpassado pelo mistério da vida.
Elas nos levam à transcendência dos limites do mundo pessoal marcado por dores e alegrias, para nos introduzir na universalidade da experiência humana. Essa sensação de pertencimento sugerida pela literatura faz toda a diferença. Facilita a experiência com o sagrado que se revela a partir do aguçamento da percepção e que pode ser sentida como a mudança do nível de consciência. Para isso existem as histórias. Para isso existe a literatura. Portanto, cabe a nós, leitores e mediadores de leitura, dimensionar e revelar os efeitos e afetos da literatura na nossa vida e na vida daqueles com os quais atuamos.
Pensando nisso, criei o projeto ‘De Caso com a Palavra’*, que foi abraçado pela Biblioteca Pública do Paraná. Um evento literário em duas ações: na primeira, a formação de mediadores de leitura que atuam nas bibliotecas públicas do Paraná através de 17 oficinas. A segunda, três fóruns com convidados na área. É uma ação necessária, já que a biblioteca não se constitui como espaço formador se não tiver um agente sensível e sensibilizado pela leitura, mais ainda a do texto literário. E nessa caminhada pelo estado vamos descobrindo que se fazem mais ações literárias do que se imagina, mas ainda pouco para que a literatura e o livro se estabeleçam no imaginário da comunidade e sejam vistos com bons olhos. É um longo caminho e ele está apenas começando.”
*‘De Caso com a Palavra’ é um projeto aprovado pela Lei Rouanet, com o aval da Secretaria de Cultura do Estado e patrocinado pela Copel.

11 de out de 2012


É sempre um prazer poder falar de acontecimentos como o que houve no encontro de mediação de leitura De caso com a palavra, com uma metodologia farta, que envolveu todos os sentidos. A autora Cléo mostra que cada um é uma peça de extrema importância e de potencial imenso. Fui surpreendida por capacidades que eu imaginei não possuir. Durante o encontro cria se uma atmosfera de intimidade que deixa a todos encantados e redescobrimos que na simplicidade das ações estão seus verdadeiros sentidos. 

Cléo Busatto é a personificação da simplicidade. Usa toda a sua criatividade para que cada um possa ver suas potencialidades. Eu, por instantes fui uma fábrica de história e posso apostar que meus amigos também alcançaram situações que se viram como autores de uma nova história para nossas bibliotecas e claro, para as nossas vidas. Não se passa por um encontro como esse e continua a mesma pessoa. Espero rever a autora Cléo Busatto, que gosto de dizer que é minha mais nova amiga de infância, poderia falar a respeito de evento por horas, mas seria desperdício de encanto.


Grata, com carinho
Rosana Maria, Biblioteca Cidadã, Assaí

5 de out de 2012



Foi um privilégio participar de um curso de alto nível cultural e com uma ministrante com tamanha capacidade de instigar a sensibilidade nos participantes. Comprovei o quanto é importante pessoas mediadoras de leitura literária serem sensíveis. Me senti virada no avesso, mesmo porque as técnicas apresentadas e os exercícios me possibilitaram isto. Fui sacudida e estimulada a me apossar das palavras. Reaprendi através do curso que a literatura é um caminho possível para o autoconhecimento. Sensação de que você pegou em minha mão, me preparou e no final do curso e como que dissesse siga em frente... Amei!!! Parabéns pelo bom trabalho e muito obrigada pela sua amorosidade. Beijos...


Um abraço,

Gilda Lopes Carreira
Bibliotecária Responsável pela Biblioteca do Mandacaru
Maringá - PR

19 de set de 2012

Agentes de reencantamento (ou De caso com a palavra*)


Domingo, 16 de setembro. Estou na Costa do Sauípe, na Bahia. Pela manhã falei aos participantes do II Seminário Internacional de Educação Infantil. Comecei a palestra sugerindo aos participantes que fossem mais que mediadores de leitura. Propus que se tornassem agentes de reencantamento. Sim. Contagie o aluno com as histórias e humanize o mundo.
Ora, que ler é condição básica para o exercício da cidadania, isso ninguém duvida. Mas reconhecer a importância da subjetividade e da fantasia na formação do ser humano; compreender que a literatura apresenta uma linguagem simbólica, intangível e que por meio dela se revelam as diferentes dimensões do sujeito; que ela nutre o imaginário e favorece o acesso ao mundo interno e suas representações; que abre intervalos para o reencantamento do mundo e à dimensão do sensível, elemento fundamental para o ato do conhecimento, ainda não é entendimento da maioria. Portanto, cabe a nós, leitores e mediadores de leitura, dimensionar e revelar os efeitos e afetos da literatura na nossa vida e na das pessoas com quem atuamos.
Essa ação que se inicia na sensibilização para a escolha do livro literário, dificilmente ocorre sem o papel de um mediador, seja em casa, na escola, na biblioteca e noutros espaços leitores. Promover a leitura desse livro é tarefa para um profissional já sensibilizado por ela. Ele é quem vai indicar caminhos; compartilhar o prazer em ler; vibrar com as descobertas do leitor e validar a importância da literatura.
Formar leitores não é uma tarefa fácil. Exige do sujeito-leitor um trabalho contínuo e dedicado, a fim de desvendar os meandros do texto nessa vertiginosa escalada em busca dos significados, seja do mais simples ao mais complexo escrito ficcional. Para essa tarefa pede-se a intervenção de um sujeito-promotor-construtor-de-vivências com a literatura, capaz de colaborar para a formação de outro, o sujeito-leitor-crítico-e-atuante. Para isso precisamos de boas histórias. Para isso existe a literatura.

(*) Texto integrante da reflexão sugerida no projeto De caso com a palavra, evento literário concebido e desenvolvido pela escritora Cléo Busatto. Realização do MinC e patrocínio da Copel. Apoio da Secretaria de Cultura e Biblioteca Pública do Paraná. Sua ação estende-se por 16 cidades do estado e prevê a formação de bibliotecários, atendentes e mediadores de leitura das bibliotecas públicas, além de fóruns sobre leitura e literatura.

22 de ago de 2012

Laranjas, geleia e literatura




No mais longo e mais frio inverno que tenho lembrança, minha alma endureceu e as palavras congelaram nos meus lábios. Eu as descongelei a beira do fogo cozinhando geleia de laranja e adocei a alma, para que ela amolecesse outra vez.
Uma coisa que me agrada no inverno é laranja e bergamota.  Memória olfativa que trago da infância. Chupava as frutas pendurada na árvore, ou sentada nos muros de pedra embaixo das bergamoteiras.  Ao visitar o pomar do lugar onde nasci, colhi laranja de umbigo da árvore que minha mãe plantou anos e anos atrás. Estava carregada de frutas. Virei menina-moleque. Subi na árvore e desci com elas. Presentes da terra.
De volta à minha casa e com mais laranja do que poderia consumir, resolvi fazer geleia. Enquanto mexia o caldo grosso e perfumado, numa alquimia que transformava líquido em sólido, chegou um pensamento intrometido: se eu não desse certo na literatura iria morar no mato (quem sabe lá, na minha origem!) e venderia geleia de laranja. Em seguida outro pensamento, mais generoso e positivo me lembrou que com literatura não existe isso de dar certo ou não dar certo.  Se escrevo, se recebi o dom de me comunicar pelas palavras, já deu certo.
Para um pensamento primário,  dar certo, pode querer dizer vender milhares de livros, ser assediada pelos fãs, se tornar celebridade, etc etc etc. Essas coisas que dizem pra gente e que aceitamos como verdade, sem ao menos refletir sobre elas. Como nas relações íntimas. Tendemos a achar que um relacionamento só dá certo, quando se fica junto por dezenas de anos, ainda que sejam longos, intermináveis e doídos anos. Juntos, mesmo que não haja mais identificação, nem respeito, nem carinho, e se contabilize apenas o que é material nessa construção conjunta. Mas deu certo. Viveram sob o mesmo teto por 50 anos, dizem.
Bobagem. Quando abstraio esse lugar comum do “dar certo”, me dou conta que em literatura, assim como no exercício das outras artes, e nas relações afetivas, dar certo, é se respeitar no processo criativo, seja da linguagem que se escolheu como forma de expressão, seja na partilha com o outro (o que não deixa de ser um ato criativo,  pois promove transformação). Dar certo é habitar poeticamente o mundo, respeitando nossa verdade e reconhecendo o simbólico da vida, que é dar, receber, largar. É na ação de criar - movimento interno que pede um ser pleno e presente na ação - que é gerado o prazer e a harmonia, condições essenciais para viver bem. Isso é dar certo. Vender muito livro ou contabilizar os anos que se mora junto é outra coisa.
Enquanto as ideias passeavam livremente pela minha mente, a geleia ficou pronta.  E, penso que o melhor de tudo, seja mesmo ficar com as duas, mexer a literatura, enquanto se amadurece uma geleia de laranja. Amando, é claro.

19 de ago de 2012

História coletiva




Construção de história coletiva pelos participantes da oficina em Cascavel

Era uma vez uma casa onde moravam um gato e uma lebre, num lugar com muito sol. Ali vivia uma menina que gostava de leitura. Ela pegou seu livro, uma garrafa de água e foi ao parque para ler. No caminho encontrou um professor com um papagaio no ombro. Ele disse que tinha uma estante cheia de livros onde pousava um passarinho. Disse também que gostava de cavalo e que tinha muitos alunos. De repente, tropeçou numa pedra, caiu, olhou para o céu e viu uma borboleta. 
Nesse momento uma formiga picou seu pé e ele percebeu que estava sujo como um tatu. Olhou pra frente e não conseguiu nem ver a placa da sua casa. Sentou numa cadeira, bebeu um copo de água e ouviu o galo cantando. Logo em seguida, o professor viu seu cachorro brincando e observando uma galinha que botava ovo nas nuvens. Pronto.


(atividade proposta no livro Práticas de Oralidade na Sala de Aula, Cortez, p.31)

8 de ago de 2012

Livro dos números bichos e flores





Livro selecionado para o PLND 2013 - Obras complementares. Arte minha, da Claudia Ribeiro Mesquita, Graziela Costa Pinto e Flávio Fargas. Viva eu, viva tu, viva... (com licença Roberto Freire) o girassol que despertou no nosso jardim!

4 de ago de 2012

Curitiba Velha de Guerra

Era o ano de 1978 passando para 79. Antonio Carlos Kraide, talentoso diretor de teatro em Curitiba, junta um grupo dos bons, Ariel Coelho, Betinha Destefani, Carmem Hoffmann, Carlos Daitschman Cléo Busatto, Fernando Marés, Ivone Hofmann, Juba Machado, Luiz Melo, Paulo Maia, mais  Paulo Vitola e Marinho Galera fazendo a música e cantando " ... é nas mesas dos bares, que a cidade se conta.."
Tinha mais gente. Era uma trupe que se revezava em diversos papéis para fazer a festa, e cantar e contar Curitiba olhando de dentro dos seus bares, que é por onde a cidade se revelava. Um sucesso. A peça circulou pelo Brasil no projeto Mambembão e eu acabei ficando em São Paulo por 19 anos. Uma história.

25 de jul de 2012

De Caso com a Palavra



De Caso com a Palavra será realizado em 16 municípios do Estado com o intuito de incentivar a leitura e a literatura


Para dar continuidade às ações de incentivo à leitura, a Secretaria da Cultura do Paraná (SEEC) lança o programa De Caso com a Palavra, destinado à atendentes, bibliotecários e mediadores de leitura de bibliotecas públicas do Estado. Serão realizados cursos em 16 municípios para que os participantes possam atualizar conhecimentos e transformar o espaço em que trabalham em um ambiente ainda mais atrativo. As inscrições podem ser realizadas no site www.cultura.pr.gov.br.

O curso é gratuito e ocorre em Cascavel, Foz do Iguaçu, Francisco Beltrão, Maringá, Londrina, Jacarezinho, Campo Mourão, Umuarama, Paranavaí, Ivaiporã, Piraí do Sul, Laranjeiras, Guarapuava, Ponta Grossa, União da Vitória e Curitiba. Cada participante deve participar do aperfeiçoamento no município indicado, de acordo com a cidade onde atua. O mapa indicativo das regiões está disponível no site da SEEC. A escritora, contadora de histórias e especialista em leitura e literatura, Cléo Busatto criou o projeto e irá ministrar as aulas.

O projeto De Caso com a Palavra vem colaborar na formação de mediadores de leitura, visto que as ações desses agentes são fundamentais para a promoção da leitura e a formação de leitores. Os participantes irão refletir sobre o texto literário e aprender como a palavra falada pode servir de elo para interagir com as diversas áreas de conhecimento, além de despertar o interesse pela leitura.

A formação dos mediadores faz parte do fortalecimento do Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas do Paraná, cumprindo uma das metas do Plano Estadual do Livro, Leitura e Literatura (PELLL), sugerido pela SEEC. “O trabalho visa tornar a biblioteca um espaço acessível e desejado pela população, além de apresentar o mediador de leitura como um profissional consciente de seu papel formador e transformador”, explica Cléo Busatto. 

http://www.cultura.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=1167

Pedro e o Cruzeiro do Sul



Cruzeiro do Sul! Minha família, o meu Cruzeiro. Meu pai é o norte, meu rumo, meu caminho de ida. Minha mãe o sul, cantinho quente e luminoso. Meu avô, o leste, onde tudo começou, como o sol acordando para iniciar um novo dia. Minha avó, o sossego e aconchego do oeste, como o silêncio do pôr-do-sol . 
E eu? Talvez seja uma estrela pequenina, bem no meio do Cruzeiro do Sul. Acho que acabei de inventar outra constelação...

20 de jul de 2012

Dorminhoco, agora no teatro





"Sabe , dona Lucia, o último sonho que tive me lembrou de uma coisa que a senhora falou outro dia, sobre a força e a coragem, que meu pai vive falando também. Ele costuma dizer: "meu filho, meu filhote de urso!". A senhora sabia que Bernardo quer dizer, forte como um urso? O meu pai diz que a força é uma coisa que mora lá dentro da gente, num lugar ecreto, quente e silencioso. Ela não vem de fora, não! E a gente fica cada vez mais forte quando sabe que elea existe e se torna amigo dela. Acho que estou começando a entender essas coisas."


Essa é uma fala do personagem Bernardo, do livro Dorminhoco (Scipione) que inspirou a Cia Do Abração, de Curitiba, na montagem do espetáculo que estréia dia 28.

16 de jul de 2012

Era uma vez... e ainda é!









Alguém aí falou em teatro de objetos? Em 2007, Cléo Busatto apresentava esse espetáculo, com recursos do Fundo de Cultura da Fundação Cultural de Curitiba, que falava dos contos de fadas. Utilizava três bonecas de pano, artesanato de Caruaru, PE, para contar histórias de vilãs,feiticeiras e fadas, heróis e heroínas de outros tempos. O espetáculo seguia a linha da contação de histórias com animação de objetos. Foi bastante criticada pelos profissionais do teatro de bonecos, que não reconheciam e aceitavam essa forma de animar. Nesse ano de 2012, Curitiba recebeu um festival só de teatro de objetos. Ali se usava ferramentas, bonecos de plástico e etc etc etc para contar uma história. Vê como é !

14 de jul de 2012

Histórias da Cléo, Livraria Navegadores

sábado de sol, 14 de julho, Fiietó alçando voo

              narrando Paiqurê, o paraíso dos Kaingang

lendo O Florista e a Gata

lendo Pedro e o Cruzeiro do Sul

7 de jul de 2012

Aquilo que se encontra no caminho

ABZ do Ziraldo, 2011
Encontrar Ziraldo é sempre motivo para muita conversa. O mais divertido da gravação foi antes da gravação. Lembramos do espetáculo que eu dirigi no Rio, em 1991, O Menino Maluquinho, musicado pelo Antonio Pinto. O espetáculo foi um arraso. Uma montagem que mesclava a linguagem do gibi, com teatro negro. Iniciava com a imagem do menino se formando nessa técnica de animação. As crianças deliravam.  
Depois rimos muito ao lembrar a montagem de O Menino Quadradinho que realizei em São Paulo, em 1992. Esse espetáculo foi testar limites, tanto de linguagem como de paciência...ufa! Era bárbaro. Os personagens apareciam em todos os cantos do teatro, nas galerias, balcões, descendo por cordas no meio da platéia, surpreendendo a todos que ficavam atentos para ver de onde surgiria outro super-herói
Ziraldo acompanhou minhas crises durante as montagens, dizia que isso era por conta da minha exigência e me estimulava a ir adiante. Numa dessas vezes me apresentou Seis propostas para o próximo milênio, de Ítalo Calvino, leitura que redefiniu minha criação.


5 de jul de 2012

Adélia e Fiorello

as camélias da nonna

Tudo indicava chuva. Mas ela se manteve além do céu e nos deixou compartilhar um domingo inesquecível. Só chegou na hora de ir embora, cúmplice das nossas águas, tantas lágrimas somadas, emoção do reencontro, de rever a história e encontrar o mesmo sangue.
Barra do Pinheiro, quase meio século depois da morte dos nossos nonnos, mantém marcas de uma história deixada por lá, por esse casal e seus 13 filhos. Permanece o poço e o muro de pedra do porão da casa deles. Ainda maior e mais bela está a árvore de camélias, a branca e  a vermelha, que a nonna plantou um século atrás. O pé de caqui permanece lá também, ainda que agora seja apenas uma estrutura seca, mesmo assim belo.
Impossível não ser tocada ao entrar na mesma igreja, ver a mesma imagem do anjo da guarda que me acompanhou tantas vezes ao Rio do Peixe ou no alto dos pés de caqui, bergamota e laranja do pomar dos nonnos.
E se a memória dos dois permanece viva na nossa alma, para mim, que cresci ao lado deles, que morei em frente a casa onde eles moravam foi emoção elevada a milésima potência. Eu lavei os cabelos da minha nonna com a água morna do seu fogão à lenha. Eram compridos, finos e perfumados. Fantasiei-me com suas sandálias de plataforma a la Carmem Miranda; enfeitei-me com seus broches de ametista; rezei diante do seu altar.
Da varanda da minha casa, eu via o nonninho sentado na cadeira de balanço, como o olhar distante, como um gato, traço herdado pelo meu pai. O que buscavam eles quando lançavam o olhar no nada? Nunca saberemos. Minha casa da infância! O peito se enche de lágrimas. Os muros de pedra que sustentavam a casa estão lá também. A escada de pedra, o poço, o pé de figo, resistindo ao tempo, meia dúzia de folhinhas verdes ainda penduradas nos seus ramos secos. A laranjeira que minha mãe plantou antes de sair da Barra estava lotada de laranja doce, e o pé de bergamota que rodeava o muro, onde eu me sentava nas tardes de sol, estava  carregado.
Nossa festa foi mais que um encontro com a família, tias queridas e primos que eu nem conhecia. Foi um encontro com a memória. Encontro com Adélia, Fiorello, meu pai e todos os meus tios e tias que já se foram desse mundo. Foi o encontro com a alegria e com a certeza de que a memória e a história constroem e construíram, o que hoje eu sou.

Cléo Busatto, filha de Victorino e Lydia

29 de jun de 2012

Oralidade é expressão do povo


Estou em Olinda. Vim para falar sobre oralidade e sou presenteada com dois momentos da mais pura oralidade. O nordeste tem tradição oral. É só lembrarmos a pesquisa transdisciplinar de Câmara Cascudo que registrou as histórias contadas pelo povo daqui, em dezenas de livros. Hoje, do papel de ensinante passei para o lugar do aprendiz.
O primeiro foi na Sé. Dois repentistas me encantaram com a capacidade de improviso, criatividade e o  conhecimento sobre o Paraná. Repente é literatura oral cantada. O segundo momento foi por conta de São Pedro, que saiu do Convento de São Francisco e foi carregado em procissão pela beira-mar, até a associação dos pescadores, com banda e cantoria. Manifestação popular pura. Festa sacro-profana. Depois dos cantos religiosos entraram em cena os tambores e os ritmos dançantes. 
A música pro santo diz  “Tu, sabes bem que em meu barco, eu não tenho nem ouro nem espadas, somente redes e o meu trabalho. Lá na praia, eu larguei o meu braço, e junto a Ti buscarei outro mar.”
É isso. O povo criando seu texto e transmitindo oralmente às novas gerações. A oralidade está mais viva que nunca. 

26 de jun de 2012

A palavra bem dita, bendita palavra


Como narradora oral de histórias sei que a força criadora da palavra reside naquele que a profere. Quando se pronuncia com alma, falar se  torna um exercício de afetividade e ternura. Para começar, eu diria, conte histórias na sala de aula e fora dela; no pátio, embaixo das árvores, em cima das árvores, no balanço. 
Conte muitas histórias. Conte para despertar, para acalmar. Conte porque você está com vontade ou conte porque seu aluno quer ouvir. Conte em pé, sentado, dançando, cantando. Mas conte. Conte por contar. Conte para instigar. 
Depois, convide seu aluno a contar, seja uma história que ouviu, leu ou inventou. Uma ficção ou uma história de verdade. Estimule a fala estética e a prática do discurso oral. O exercício da linguagem organiza o pensamento, no diz Vygotsky. 
A oralidade, como recurso pedagógico, faz a ponte entre as diversas áreas do conhecimento.

Arquivo do blog