19 de mar de 2013

Vida e Cidadania



Terça-feira, 19/03/2013
Pedestre por convicção, a escritora Cléo Busatto aposentou a carteira de motorista e hoje observa detalhes de Curitiba, 
Daniel Castellano/ Gazeta do Povo
Publicado em 19/03/2013 | FERNANDA TRISOTTO

Andar a pé por grandes cidades está em desuso
Maior utilização de carros e queda no número de pedestres nas grandes capitais faz a população ter relação superficial com o lugar onde vive.

Por uma confraria de caminhantes
Há alguns anos, a escritora Cléo Busatto aposentou sua carteira de motorista. Mas isso não a impede de circular livremente por Curitiba, caminhando. Depois da decisão, Cléo diz que não se estressa com o trânsito, colabora com o planeta, faz exercício e entende o ato de caminhar como “um deleite.” “Mesmo que eu tenha opção de ir para algum lugar de outra forma, prefiro andar porque assim eu vejo a cidade”, diz.

Para ela, caminhar pela cidade significa olhar aquilo que parece invisível. “Quem sabe que nas ruas do Centro antigo têm pitangueiras ou que a [Avenida] Visconde de Guarapuava tem goiabeiras carregadas?”, indaga. Apesar da opção por não ter carro, a escritora não é radical: quando precisa ir até um lugar mais longe, usa táxi e transporte coletivo.

Além de economizar, ela leva vantagem também na conexão com outras pessoas. “Há uma pré-disposição de quem está andando em te olhar. É como se você criasse uma confraria de pessoas que andam.”

Desculpas
A escritora acredita que as pessoas dão muitas desculpas para não usar outros tipos de meios de transporte que não o carro – chegar suado no destino é um deles. “Lógico que segurança é importante e Curitiba precisa, sim, olhar com atenção para essa questão, mas as pessoas são extremamente preguiçosas para andar”, argumenta.


http://www.gazetadopovo.com.br/vidaecidadania/conteudo.phtml?tl=1&id=1354892&tit=Andar-a-pe-por-grandes-cidades-esta-em-desuso

11 de mar de 2013

O menino que limpava o mundo



O menino catava o lixo do mundo.
O menino puxava o carrinho.
O cachorro ia atrás.
Menino juntava garrafa de plástico. Cachorro, bola furada.
O menino não tinha pai, não tinha mãe, nem madrinha ele tinha.
Por isso se dizia afilhado da noite e do dia.
O menino andava sob o sol. O menino andava sob a lua.
O dia e a noite perguntaram ao menino:
- Quer andar na claridade ou na escuridão?
Ele respondeu, guloso:
- Ora na claridade, ora na escuridão.
O dia e a noite protegia o menino.
O menino catava carrinho quebrado largado no caminho.
Catava papelão e com ele fazia avião.
O menino e o cachorro passeavam pelas nuvens. O cachorro catava osso de bicho morto. Mas não dava pra comer. Então, entregava para a terra e ela devolvia margarida.
O menino e cachorro limpavam a sujeira do mundo.
O menino era pequeno. O cachorro era pequeno.
O carrinho era enorme.
O cachorro, ora passeava sobre o carrinho; ora puxava o carrinho com o menino dentro dele.  
Encontraram a ovelha com pé quebrado. Foi para o carrinho.
Encontraram a pomba de asa torta. Voou para o carrinho.
Cobra sem rabo. Subiu no carrinho.
O menino encontrou o relógio de um ponteiro só. Apontava o doze.
Para o menino, o cachorro, ovelha, pomba e a cobra sem rabo era sempre meio-dia.
Era sempre meia-noite naquele caminho sem fim.
Eles passeavam e limpavam o mundo.


Conto publicado na revista Crescer 232 Março 2013

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