15 de dez de 2013

A estrela de Belém 2

mandala-estrela construída para a procissão de Corpus Christi
Antonina, PR, 2007
De tempos em tempos me aproprio de algumas palavras-força para me guiarem na caminhada (e percebo temas recorrentes na minha escrita, como caminho e caminhar). As eleitas nesse momento são vontade, amor, sabedoria e atividade. Vontade, enquanto o impulso para criar. Amor, como o alimento da sabedoria. Sabedoria, enquanto entendimento sobre o uso da vontade e atividade, como a ação exercida em todos os planos, com a intenção de empurrar o universo para frente e alterar a minha própria história.
Depois de uma estação sombria onde essas quatro palavras correram o risco de perder sua força, recupero o influxo da energia da vontade, do amor, da sabedoria e da atividade. Vou me reencontrar junto à natureza. Ela continua sendo para mim, a cura. Vou me purificar ouvindo o silêncio, pisando na terra e me banhando nas fontes. Vou arrancar do meu corpo e do meu espírito os venenos que minam a vida, como emoções, pensamentos e relacionamentos tóxicos. Vou fechar os olhos de fora e silenciar a voz da autoridade que vem do externo.
Vou olhar com os olhos de dentro, com gratidão e amor, a caminhada que fiz e reconhecê-la como expressão da sabedoria. Olhar a minha alma com olhos generosos e dizer sim para a vida. Vou celebrar o sim, e repeti-lo com entusiasmo, tantas vezes for preciso para conseguir dizê-lo com a autoridade que vem de dentro. Sim. Sim. Sim. Vou me permitir morrer, me transformar, e aceitar com alegria aquilo que virei a ser. Não discutirei com os ritos do mundo inferior. Reaprenderei sobre o sentido da entrega e farei das palavras de são João da Cruz, as minhas, “se alguém quer estar certo do caminho que percorre, deve cerrar os olhos e caminhar no escuro”.
Voltarei a habitar a casa de dentro onde mora a fé e ouvirei com gosto a melodia harmônica do meu coração. Vou olhar com compaixão para a minha criação e escrever aquilo que minha alma quer expressar. Vou fazer da minha vida um corpo de vontade, amor, sabedoria e atividade. O mundo está em mim. Isso tudo, para mim, é o sentido do Natal e coincide com a virada do meu ciclo pessoal. Seguirei a estrela de Belém que acena para mim no fundo do horizonte escuro, reencontrarei o Menino Deus e renascerei na véspera do dia dos Reis. Até lá, estarei me gestando.

                                      Feliz Natal e obrigada pela companhia durante ano.

1 de dez de 2013

A estrela de Belém


Era véspera de Natal. Os três andavam pela estrada vazia. O pai, a mãe e a filha. Caminhavam sem rumo, mãos dadas. Não tinham casa, seu lugar era o mundo. Paravam aqui e acolá. Comiam o que lhes ofereciam. Comiam aquilo que a terra lhes dava. Os três andavam esperançosos, olhos no horizonte, atentos para o lar que poderiam encontrar.
O pai punha a menina na garupa e a mãe cantava uma canção antiga que falava sobre a estrela de Belém. A menina quis a estrela como presente. O pai falou, peça ao vento, seu amigo. O vento sempre aparecia nas andanças e a menina se distraia do cansaço das pernas conversando com ele. O vento animava a menina a continuar.
- Sua casa está logo ali, sua casa está logo ali - soprava ele, e a menina sorria e avançava na caminhada.
- Ou quem sabe você pede ao céu, continuou o pai. - O céu tem muitas estrelas e pode lhe dar uma de presente.
Continuaram andando e avistaram um casebre simples. A chaminé soltava fumaça. Resolveram parar, quem sabe beber um copo de água.
- Sejam bem-vindos, sejam bem-vindos! - exclamou a mulher da casa. 
O homem da casa ofereceu um banco para os três. O bebê que brincava no chão de terra batida, sorriu e estendeu os bracinhos para a menina. Ela abaixou-se e passou a mão na cabeça careca do bebê. Ele era lindo, tinha bochechas gordas e ria. A menina acarinhou o bebê que se deitou no colo dela. Um tempinho só, mas tão confortante. Uma eternidade. 
Os três cearam com os outros três. Comeram raízes brancas, frutos vermelhos, sementes marrons, pão quentinho e beberam chá de ervas perfumadas. Despediram-se desejando feliz Natal e tornaram a caminhar.
Logo adiante, a menina lembrou-se de um bichinho de pano que a mãe fizera para ela, quando tinha a idade do bebê. Carregava o objeto na mochila. Resolveu dá-lo de presente à criança. Voltaram, mas a casa não estava mais lá. Nenhum vestígio do fogo, nenhum vestígio dos três. 
No chão, onde antes estava sentada a casa, a menina reconheceu a marca da mãozinha do bebê e ao lado dela uma estrela brilhante, a mais linda que ela já viu.



Cléo Busatto gosta de gatos, é escritora, mediadora em projetos de oralidade, leitura e literatura infanto-juvenil, contadora de histórias, mestre em Teoria Literária pela (UFSC) e pesquisadora transdisciplinar formada pelo Cetrans.


Publicado em NOVEMBRO 2011,

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