6 de fev de 2013

Desonra




Acabei de ler Desonra, de J.M.Coetzee. Li compulsivamente durante a última viagem. O autor construiu uma narrativa fluída, envolvente e os personagens são complexos, têm alma. Coetzee ganhou Nobel de literatura em 2003. Li no caminho que levava ao aeroporto; li na sala de espera me desviando dos lugares onde havia passageiros ruidosos; li durante o voo e li sob um calor infernal, digno do cenário do livro, no interminável trajeto até a minha casa. Hoje, após o café da manhã acabei o livro esperando que ele apontasse alguma mudança no curso da vida dos personagens.
O título original é Disgrace, mas para mim Desonra poderia se chamar Desolação, palavra que inclui o significado de desgraça, mas também carrega o sentido de solidão, abandono, infortúnio. Enquanto lia me dava conta que estava sendo tomada por uma sensação desagradável e subitamente, meu estado de espírito leve e alegre se tornou sombrio e angustiado. Não entendia o que se passava comigo, afinal, tinha feito uma boa viagem; o trabalho foi uma sucessão de sincronicidades felizes que o levarão a um bom desfecho. Ainda assim meu coração se comprimia a cada página que eu virava.
“Deve ser esse calor abafado e ardido que entra pelo vidro do carro. Estou à meia hora parada nesse congestionamento”, pensava. No dia seguinte percebi que a alteração do ânimo se deu por algo externo a mim, por uma ficção que não me pertencia, mas sim, a David Lurie e sua vida desgraçada, que ele mesmo escolheu e traçou, a cada frase que pronunciou, a cada princípio que defendeu. À sua filha Lucy e suas escolhas, sua teimosia em se manter numa terra de homens violentos, preconceituosos e incultos.
Aí estava a literatura me arrancando de uma vida segura e confortável para me lançar em algum lugar da África do Sul, onde impera a violência, ameaça, submissão. Ao me confrontar com essa realidade sou colocada do lado de fora da minha e passo a vê-la com olhos críticos. O que eu quero pra mim? Que escolhas fiz e faço pra minha vida? Qual a minha vontade e como construo essa vontade? Que princípios eu defendo e se defendo por que o faço? Como honrar o que sou e o que acredito? Faço o que é melhor pra mim ou aquilo que dizem que devo fazer, ainda que assim aja como os personagens do livro, que ficaram presos na armadilha da dominação de outros, seja pela chantagem ou pelo medo?
Esse é um dos efeitos da literatura, nos mostrar outras vidas para que a gente possa olhar pra nossa e decidir o que é melhor pra nós.

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