15 de jun de 2013

O olhar

Taquille, Peru
   Quando viajo olho para o alto. Lembro-me de uma conversa com um amigo durante uma viagem que fizemos juntos à Nova Iorque há muitos anos. Eu, espantada e encantada com cidade, enquanto ele dizia, Nova Iorque é uma cidade para se olhar pra cima.
   De fato, ao levantar os olhos, eu me dava conta da dimensão do World Trade Center,  da torre da Chrysler, do Empire State, da forma arrojada do Flatiron surgindo à minha frente naquela esquina da 5ª Avenida.
   Desde então, quando passeio por lugares que não conheço, olho para cima e quanta surpresa isso me reserva. Outros edifícios iriam me surpreender, não pelo seu tamanho, mas pela arte emoldurada nas alturas. Dragões, seres alados, gárgulas, anjos, personagens míticos pousando no topo dos prédios com seu carro divino. Poesia estampada pertinho do céu.       Descobri portais que se abriam para revelar a alma de um povo e me colocar num imaginário totalmente novo para mim.
   Ao mirar para o alto pode se ver meteoritos, sim, Marta, como o que vi na Patagônia.  Uma luz cruzava o céu ao entardecer. Pasmos diante do inusitado, tocamos em sua direção e fomos vê-lo desaparecer no horizonte, além do mar. Ao ler o jornal no dia seguinte ficamos sabendo que era um corpo celeste visitando a terra.
   É só elevar os olhos. E se for à noite dá para relembrar as caras da lua, da minguante à cheia. O céu está em verdade aberto, vamos a ele, já disse Ovídio no texto que reproduzo na abertura do meu livro Pedro e o Cruzeiro do Sul.
   Porém, a despeito do meu olhar treinado a se direcionar para cima durante as viagens, eu me esquecia deste olhar no dia a dia, na minha cidade. Quando me dei conta deste contrassenso passei a olhar para o alto, sempre, e ver belezas onde antes não via, como pé de fruta na calçada. Fruta madura ao alcance da mão no centro da cidade grande.
   Inconscientes, tornamos o dia a dia uma mesmice e passamos por ele sem perceber que o cotidiano traz em si novidades que dão alento para a alma. Agora, treino meu olhar para ver o por do sol da janela da minha casa, pelo corredor que abro com os olhos por entre os prédios. Róseos azuis dourados tingindo a sala. Deixo-me banhar pelas luzes filtradas pelas cortinas. Elas enchem de esperança o meu espaço.
   Aproprio-me desta imagem, olhar para o alto,  como uma metáfora para a ascensão da consciência individual e percebo que estamos tão acostumados a olhar para baixo, quando não para nosso próprio umbigo, que esquecemos que ao olhar para cima veremos estrelas.

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