4 de abr de 2010

Viejos

Bateu a coceirinha de vontade de escrever. E escrever sobre bonecos que contam histórias. Velhos que contam suas histórias. No início do espetáculo Viejos, o ator-manipulador-criador do El Titiritero de Banfield, Sergio Mercurio, nos lembra que os velhos não gostam de ser chamados assim, pois consideram depreciativa, essa forma de invocação. Para Sergio, ela mescla carinho e respeito.
E eles entram em cena. Seres feitos de espuma e latéx, embalados por tango e com enchimento de humanidade, humor e afetos, seja uma rabujice assumida, uma alegria contida, uma esperança que insiste em alimentar corpos já deformados pelo tempo. E são apaixonantes.
Logo no primeiro quadro, a gente se dá conta que nessas criaturas existe alma. O primeiro velho que se apresenta parece ser um retrato do nosso pai. Saudosista e autoritário, lembra ao jovem-manipulador, que no passado não tinha tanto  "maricas", como hoje. "Muito hormônio nas galinhas", justifica ele. Hilariante.
E de nada adiante o ator querer discutir o preconceito diante da opção sexual. "São todos maricas", grita o velho rabujento.
Mas o velho sabe de muita coisa. Lá pelas tantas o jovem cita uma poesia de Borges. "Poesia de Borges?", estranha o velho, enquanto coça a cabeça e pede que ele a recite. E o rapaz, que não a sabe de cor se esquiva, tentando explicar a idéia do poema. O velho se irrita. "Não quero saber da idéia, quero a poesia, declame!" O rapaz pensa conhecer Borges, mas está citando qualquer coisa que circula na internet, com a autoria do conterrâneo do velho, e é desmascarado por um conhecedor da literatura desse escritor.
E ficamos sabendo mais um pouco do universo daquele personagem trôpego e com dificuldades de respirar. Eles vão nos envolvendo, num diálogo ágil, nervoso às vezes, pontuado por tempos mudos, reflexões e tanta ternura, que provoca a compaixão.
Então, o manipulador pede ao homem, que esse lhe conte sua  história. O velho faz uma pausa, olha para longe, com aquele olhar envolto pela vacuidade, de quem já viu e viveu tanto mundo e responde, "minha história? Ontem eu estava brincando ali atrás, hoje estou aqui."
Nessa hora dá um aperto no peito e uma vontade louca, de ir lá e abraçar o velho.
Mais tarde entra Edwiges, atrás da "borboletinha", falando com seus dois anjos, um de cada lado, enquanto na platéia, ninguém os vê, para a perplexidade da velha e meiga Edwiges.
Depois vem outro e outros mais, cada um com sua história, a tocar em algum espaço do nosso ser. Sempre envoltos por silêncios, feitos de reminiscências ou esquecimentos; de breves intervalos para olhar a vida. Momentos que nos convidam a olhar para o nosso velho adormecido e lembrar, que todos o carregamos dentro de nós.
Aí vem as coisas técnicas. O ator-manipulador, Sergio Mercurio, é um escandalo de sensibilidade e precisão na interpretação dos seus personagens. Ele doa aos bonecos de espuma e latéx, aquilo que nos encanta e nos faz sonhar: mito e poesia.

É prá ver. Está no Teatro do HSBC, em Curitiba, até 11 de abril

5 comentários:

  1. Olá, Cleó! Como posso fazer contato com Sérgio? Vou buscar, pois faço trabalhos com crianças e idosos, e gostaria de unir esses dois universos! Nada melhor do que a magia dos bonecos... Arrepiei... abraço! Roberta


    obs: estou adorando seu espaço blogosférico! rsrsrs valeu!

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  2. Quem me dera... sou do Rio, mas farei contato, pode deixar! bjs

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  3. Eu assisti dia 02/04 espetaculo maravilhoso emocionante... pena q nao esta tendo divulgação da peça em Curitiba. ate pra encontrar o telefone do teatro foi dificil. Mais a Peça foi um espetaculo a parte AMEI!

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  4. Descaso: Imagina só que o fone q tem no foldder para informaçao NUNCA NINGUEM ATENDE. acho isso um descaso para com os interessados a irem ao espetaculo como com o proprio artista! Porque se vc nao consegue informaçoes da peça .. parte pra outra!! mais como eu sou muuuuito persistente fui ate la! imagina so! Achei o cumulo isso! mais tudo fazer o que neh!

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  5. Olá Roberta, fiquei sabendo que eles foram ao Rio. Viu?

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