27 de dez. de 2011

O livro que fechou o ano

Noites do canto e do conto - os mais belos causos e contos do povo itaguaçuense.

Quando fui convidada para a Feira Literária e para a Semana de Formação dos Educadores, eu fui espiar Itaguaçu na rede. Logo que abri o site, duas imagens atraíram meu olhar. Seu entorno e um grupo de senhores tocadores. Ao lado estava escrito, Noite de Contos de Santo Antonio. Logo meu santo de coração. Naquele momento pensei, que gostaria de ter vivido com eles aqueles instantes de magia. Sou uma mulher que respira a oralidade, pensa a oralidade e oraliza seus afetos. Que presente seria estar presente. E não é que a magia se realizou? Sou convidada pela Secretária de Educação, Cultura, Esporte e Turismo, Sonia, uma mulher com jeito de fada-madrinha, para organizar esse livro, e apresentar Itaguaçu aos itaguaçuenses. Veja só, que responsabilidade. Organizar as histórias que soaram nas noites dos cantos e encantos.
É mesmo um orgulho para Itaguaçu e seus moradores saber que suas histórias fizeram diferença no panorama cultural do Brasil. Os relatos registrados na Noite do Canto e do Conto, antes de ser uma manifestação regional e particular, revelam a alma do povo brasileiro. São histórias de amor, coragem, conquista, susto, esperança, ousadia, confiança na vida e no ser humano. Registrar a história através da voz dos sujeitos que a constroem é um caminho seguro para uma cultura de paz.
O projeto Noite do Canto e do Conto foi classificado em 3º lugar, na Categoria Gestor Público, da 3ª edição do Prêmio Cultura Viva, do Ministério da Cultura, destinado a estimular e dar visibilidade às iniciativas desenvolvidas no âmbito da articulação entre cultura e comunicação. Uma das histórias

por Florizete Luzia Gabler Thomazini
Moradora do Laranjal, lavradora, nascida 21/08/1965.

O meu bisavô Francisco Dalprá, é natural da Itália. Ele veio de lá com treze anos. Era uma criança muito levada. Após seis meses embarcado num navio, chegou à Vitória. De lá, seguiu para Santa Teresa. Nesse dia aconteceria o batizado de Ida. No caminho para a igreja, Francisco segurou a criança no colo. O pequeno bebê fez xixi em Francisco. Neste instante, o garoto retirou do bolso um lenço e enxugou o bebê dizendo que aquela criança seria a sua esposa. Passaram-se treze anos e a fala se concretizou. Ida casou-se com Francisco. Na época ele estava com vinte e seis anos. Desta união, muitos filhos nasceram e somente a morte os separou.

22 de dez. de 2011

O Menino e sua Luz


Domingo, 18. Animada com o sol que apareceu por aqui fui andar. Ainda não havia escrito o boletim de dezembro, e a Carla perguntando, não vai enviar? Cheguei mesmo a pensar que não enviaria. Eu me via com pouco tempo pra pensar nele. Tempo de fora e tempo de dentro. Mas logo esse? E as pessoas que gostam do que escrevo? Eu não lhes deixaria meu presente? Não lhes desejaria feliz Natal?
Confesso que o apelo comercial de final de ano me desagrada. Esse tal de compra compra compra ... corre corre corre ... me tira do eixo. Esforço-me pra manter a harmonia, pois as energias do entorno tentam demover-me do centro, pra colocar-me no movimento periférico do coletivo. É um momento de fragilidade, muito por que aniversario no início do ano. Digo que estou fechada pra balanço. Ainda assim me misturei e tudo estava turvo.
Hoje o sol mostrou o caminho. Pedi luz e minha alma acendeu-se, tocada pela estrela de Belém, e ela disse, fale sobre o nascimento do Menino e seu significado. Quando jovem fiz uma escolha, nada fácil, mas a verdadeira naquele instante da minha vida. Abdiquei de ser mãe. Mesmo que a sociedade me cobrasse pela maternidade, como se só ela validasse a condição do meu feminino, mantive-me fiel ao meu espírito, com a sapiência, ainda que frágil, que eu poderia exercer a amorosidade e o acolhimento, qualidades do maternal, em diversas situações, embora não fosse gerando um filho no meu ventre. E foram vários nascimentos.
E agora, que o Menino está pra chegar, Ele me lembra de que nasceu em mim muitas vezes, e nasce sempre que crio uma história e a ofereço pros tantos meninos espalhados pela terra. Nasce, cada vez que um deles sorri e me abraça. Quando comungo com os mistérios de todos os nascimentos, seja de uma flor, seja de uma criança. E a cada ano, nessa data, Ele renasce ao me lembrar de que o amor é o caminho que me leva pra casa e que a Luz sempre retorna.

1 de dez. de 2011

Ecos da obra


Certa vez ouvi um leitor perguntar a um escritor, quando ele se deu conta de que era de fato escritor. O cara riu, pensou e disse, que apesar de já ter publicado vários livros, a constatação veio no dia que foi contemplado com um reconhecido prêmio. Naquele momento me questionei, e eu, quando me descobri escritora? Respondi a mim mesma que foi no instante que peguei na mão, o primeiro exemplar do meu primeiro livro, Dorminhoco, sentada no degrau da portaria do prédio onde morava, ansiosa que estava por abrir o pacote que acabara de chegar pelo correio. Olhei pro Dorminhoco e disse, sou uma escritora.
Recentemente revi essa afirmação. Nessas andanças de caixeira-literária tenho me encontrado com os leitores em eventos de escolas, feiras, salões, e em cada um, uma boa surpresa ao sentir o eco da minha produção. Muitos (geralmente crianças e jovens leitores) traduzem os livros através de atividades na área das artes plásticas, alguns com resultados surpreendentes. Dia desses uma turma apresentou A história da dona Cotinha, Tom e Gato Joca, numa versão cinematográfica artesanal. Eu me tornei mais criança que eles e pulava de alegria.
Porém, perceber como O florista e a gata entusiasmou um dos grupos, a ponto de eles pensarem sua realidade pelo viés da arte, me levou às lágrimas. Nesse instante, eu resignifiquei minha prática e me senti uma autora de fato, pois o livro se tornou obra, coisa viva e pulsante, sujeito com alma, um “fazedor de vínculos”. Ele não só foi aberto e lido, como chegou ao universo do leitor e repercutiu na sua vida sugerindo novas formas de olhar, indagações, deduções. Ainda que, teoricamente eu soubesse dos efeitos da literatura na vida das pessoas, por conta da leitura dos tantos textos críticos que nos mostram as ligações afetivas e as transformações que ela sugere, talvez, nunca antes isso tivesse feito tanto sentido.
Naquele instante, percebi as crianças realizando uma operação complexa, holística, que unia os conceitos, às vivências e percepções. Ao dar corpo aos seus sentimentos, por meio das relações significativas estabelecidas com a  leitura do livro, elas chegaram, ainda que sem saber, a importância da dimensão da estética nas suas vidas. Lindo. Eu agradeci e chorei.   

24 de nov. de 2011

Contando Histórias...em Dourados

23/11/2011 13h00


Contando Histórias...
Cléo Busatto traz a Dourados a magia da arte de contar histórias e encantar todos os públicos

Do Progresso

Conduzir o público pelos caminhos do encantamento, dos sonhos,de uma viagem a qualquer lugar sem sair de lugar algum... Assim é o cotidiano da escritora e contadora de histórias Cléo Busatto, que está em Dourados para participar da programação dos 40 anos do curso de Letras da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD). Ontem ela esteve na abertura do evento proferindo a palestra “A Leitura Literária – promoção e formação de mediadores”.

Escritora e contadora de histórias Cléo Busatto
(Foto: Divulgação)

Hoje e amanhã, nos períodos matutino e vespertino, Cléo vai ministrar na Faculdade de Comunicação de Artes e Letras (Facale), unidade II da UFGD, o minicurso “Contar e Encantar: A Arte de Contar e Ouvir Histórias”. As inscrições já estão encerradas. O objetivo é propor uma reflexão sobre os caminhos da arte de contar histórias, a partir da ideia de que alguns contos são educativos, pois ao abordar uma realidade simbólica atuam sob diferentes dimensões e fornecem múltiplas leituras e compreensão.
Na sexta-feira, Cléo fará a partir das 19h30, com entrada franca, no anfiteatro da unidade II, a palestra “Contar e Encantar - Pequenos Segredos da Narrativa”. Este também é o título de um dos seus quatro livros que abordam o tema narração oral e oralidade.
No próximo sábado, ás 8h, Cléo Busatto estará oferecendo uma oficina de Contação de Histórias, no Cine auditório da UFGD, unidade I. As inscrições são gratuitas e podem ser realizadas na Coordenadoria de Cultura da Universidade e na Secretaria Municipal de Educação de Dourados (Semed).
Estão sendo oferecidas 10 vagas para a comunidade e 20 vagas para professores da Rede Municipal. A oficina terá duração de oito horas. É uma promoção do Ponto de Cultura Todas as Idades/Instituto para o Desenvolvimento da Arte e da Cultura (Idac), em parceria com a UFGD e Semed. Informações podem ser obtidas na Coordenadoria, rua João Rosa Gões, 1761, Vila Progresso, telefone (67) 3410-2877.
Emoções
Cléo Busatto é escritora e contadora de histórias. Mestre em Teoria Literária pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Pesquisadora transdisciplinar formada pelo Cetrans. Como mediadora em projetos sobre oralidade, capacitou cerca de 50.000 pessoas e suas histórias já foram ouvidas por mais de 75.000. É autora de 19 obras, entre livros e CD-Roms.
Em 2002, publicou seu primeiro livro infantil “Dorminhoco”; “Contos e Encantos dos 4 Cantos do Mundo” (2003); “Coleção Criança Segura, 3 Volumes (2004); “Pedro e o Cruzeiro do Sul (2006); “Paiquerê, o Paraíso dos Kaingang (2009); “O Florista e a Gata” (2010); “Histórias de Quem Conta Histórias” (2010). Suas obras fazem parte de programas de leitura e catálogos internacionais, como o Bologna Children’s Book Fair.
Tem quatro obras técnicas sobre o tema: “Contar e Encantar – Pequenos Segredos da Narrativa” (2003); “A Arte de Contar Histórias no Século XXI – Tradição e Ciberespaço” (2006); “Práticas de Oralidade na Sala de Aula” (2010) e “O Fio da História (2011). Produziu quatro CD-Roms: “Contos e Encantos dos 4 Cantos do Mundo” (2001); “Lendas Brasileiras (2005); “Nos Campos do Paiquerê (2006) e “Formosos Monstros” (2010).
Cléo trabalha em suas oficinas e minicursos, três eixos que considera fundamentais para que a narrativa envolva o ouvinte: ritmo, intenção e imagens.
“Contar histórias implica em disponibilidade e generosidade por parte do narrador. A narrativa bem conduzida abre a possibilidade do espectador criar sua própria história, a partir dos elementos que lhe são oferecidos. Por isto que é importante se valer de alguns critérios, como a escolha de textos de reconhecido valor literário, que priorizem as imagens, propõem acordos ficcionais e poéticos, ampliem o universo do leitor e possibilitem o contato com seu mundo interior”, argumenta, observando que estudos psicológicos comprovam que o ato das mães contarem histórias desde a gestação passando pela tenra idade, estabelece vínculos para que o crescimento seja saudável na formação educacional, psíquica e cidadã do indivíduo.

19 de nov. de 2011

Palmas do Tocantins



Palmas, coração do Brasil. Cerrado virando floresta. É quente. Torra os miolos, amolece o juízo. É Norte. Dimensiona nossa pequenez. 
Negra índia mameluco. Tem sabor de fruta ardida, pequi. É ampla. Tem a imensidão do universo contida numa corriqueira flor amarela. Ela faz diferença.
Aqui o II Festival de Causos e Poesia Declamada, promovido pelo SESC Palmas. Na semi-final, cinco representantes de cada categoria concorrem no dia 19 a etapa final. Eu estarei no juri para selecionar os vencedores. Uia! Que responsabilidade.
Logo eu que treino meu olhar para ver o que cada um carrega de mais precioso. Afinal, somos todos portadores de beleza. 

Agostinho Seringueiro, finalista na categoria Poema.

14 de nov. de 2011

Titicaca, um mestre


O Titicaca encanta e desconcerta. Viver sobre um chão de totora trançada sob um lago de 200 metros de profundidade não é pra qualquer espírito. É preciso desapego e amor pelas águas e por Mamma Kotta, a mamma del lago, a divindade que os protege, naquela imensidão de água doce. Os povos do lago sabem disso.
- Nossos avós já sabiam que há muitos mistérios em Uros e que não se pode viver ali. Por isso agradecemos a Mamma Kotta, pedimos proteção e permissão para viver nela. Temos muito respeito por Mamma Kotta.

Assim fala Rita, uma moça linda de olhos negros e brilhantes, sorriso aberto e com muitas histórias pra contar, tal como seus avós, os contadores de histórias do seu povo. Ela veio a mim como um presente da deusa. Rita é uma das moradoras das ilhas flutuantes de Uros. Na sua comunidade, Chantati, vivem seis famílias. Ela ocupa a função de regidora, a representante das mulheres de Uros.

Rita fala com entusiasmo da sua casa, as plataformas de junco do Titicaca, onde nasceu e pretende ficar. Como está acostumada com o pisar macio da esteira flutuante, andar na terra lhe cansa muito. Contou que numa ocasião foi visitar Taquile, outra ilha do lago, porém de terra e, que após atravessar dois montes já não tinha forças. Estranhou o lugar e tinha necessidade de ver a água de perto e tocar as totoras, o junco que lhes serve de chão, matéria prima da casa e dos barcos que os conduzem a outros sítios, nessa região inóspita e de ar rarefeito, a quase 4.000 metros acima do nível do mar. Saudade de tocar a totora, sua comida e combustível pro fogo.

- O lago nos dá força e energia. Eu não poderia viver na terra. Para mim é uma graça, meus pais terem me dado à luz em meio ao lago. É uma emoção única dormir e despertar com as aves, vendo as estrelas, o céu azul, acordar com o sol.  Para mim é o paraíso.

E as crianças? Elas brincam nesse pedacinho de chão dourado e quando se trata de estudar são iguais às outras crianças do mundo, deixam as tarefas escolares pra última hora e muitas vezes resolvem isso no caminho, ou seja, no barco que as leva até a escola, também no lago. Pequeninas e já enfrentado o Titicaca. Há que se ter coragem para vicejar no Titicaca. 

A estrela de Belém

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