19 de abr. de 2012

A memória e a história

fragmentos e encaixes
puxar o fio da palavra que repousa no meu ser

A memória é história. Fonte de conhecimento, a memória certifica a sobrevivência dos saberes de diferentes grupos sociais e carrega consigo, a possibilidade de tornar o passado presente. Ela preserva a identidade individual do ser humano e, subjetivamente, garante a sua continuidade no seio de uma comunidade. Ao falar da memória, Paul Zumthor, autor que investiga a linguagem oral, nos alerta que a duração das lembranças pessoais no núcleo familiar é de duas ou três gerações.
Com o intuito de assegurar essa história, certas sociedades trataram de eleger profissionais da memória para manter o passado de muito longe. Eles foram chamados de skops, escaldos, bardos, rapsodos, griots. Nomenclatura diferenciada em cada cultura. Significado similar a todas: sujeito de memória prodigiosa que conta e canta a literatura do povo.
Quando se trabalha com a memória familiar e da comunidade, preserva-se a história e se favorece o desenvolvimento do processo de identidade cultural, bem como o exercício da cidadania, a recuperação dos valores humanos e o reconhecimento afetivo e cultural da ancestralidade enquanto origem e base do sujeito.
Ao acordar a memória, as emoções vêm juntas. São elas que ativam os sentimentos de quem ouve essas lembranças. Essa escuta atenta e sensível implica em respeito e reverência ao outro e exercita o olhar para os valores humanos.
O ato de narrar coloca os sujeitos, contador e ouvinte, um em companhia do outro. Estabelece cumplicidade ao oportunizar a mais primitiva forma de comunicação. Quem narra se sente vivo e importante, pois a memória não é qualquer coisa de morta, inerte, ao contrário, ela é atuante e motiva a vida. Estimular esse diálogo entre gerações, por meio das histórias pessoais é um ato educacional gerador da paz.

Texto integrante do livro O Fio da História, CLB Produções 

17 de abr. de 2012

Jornada de Literatura e Arte

O dia é 26 de abril. A hora é 19. O local é a Galeria de Arte Espaço 42, no Shopping Novo Batel. De 26 a 29 de abril. Quem  organiza a AEILIJ- PR, Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil sob a batuta da Marilza Conceição. 
Eu vou contar histórias. A conquista do fogo. Está no no livro Paiquerê, o paraíso dos Kaingang.
Com isso pretendemos lembrar algumas o livro infantil e prestar nossa homenagem a um dos precursores dessa literatura, Hans Christian Andersen.


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3 de abr. de 2012

Uma janela para ver Recife


A primeira vez que fui à Recife foi em 1995. Cheguei com olhar curioso, e atenta para aquele  mundo novo que se abria à minha frente, circulei pelos quatro cantos da cidade, do sertão e do litoral de Pernambuco. Um mês de andanças. Era Olinda, Brenand, Maria Farinha, Itamaracá, Itapissuna. Depois, rota do sul.  De Cabo de Santo Agostinho a Maceió. Noutros dias, caminhos do sertão: Caruaru, Alto do Moura, Mestre Galdino, Carpina... e Tracunhaém. 
Desde que atuei no espetáculo Relatório da 12ª Era, um delírio na forma de teatro que reuniu, de militante político (Rui César) a educadores (Rô Reis) e artistas (Gisela Arantes, Emmanuel Marinho, Hugo Possolo), lá pelos idos de 1980, que fiquei com a ideia fixa - Tracunhaém existe? Entre os instrumentos usados para sonorizar o espetáculo haviam dois grandes porrões de barro onde se lia, gravado em letras tortas, Tracunhaém/PE. No final do trabalho esses porrões ficaram comigo e me diziam, vai ver de onde saí.
Ciceroneada pela amiga-irmã Elza, pernambucana, contadora de história e na época parceira de contações, lá fomos nós, sertão à fora, atrás da dita cuja, que para minha surpresa, não só existia, como era um encanto feito de barro. Uma cidade oleira. Voltei carregada de pratos, panelas e moringa de argila


Pernambuco ficou na memória como um presente de Elza e dos seus pais. Elza foi morar em Israel. E eu, depois de zanzar por aí, optei por Curitiba. Sopra o vento. 2011. Recebo um convite de Camila, outra irmã da palavra, carioca com um pé em Recife. Uma linda que decidiu reunir as vozes que provocam devaneios por meio das histórias narradas. Lá vou eu pra cidade outra vez, agora em 2012,  numa viagem distinta, não mais pelas terras pernambucanas, mas pelos contos, sonoridades e sotaques evocados pelos contadores de lá. Ôxe! Pronto! É tempo de Conte outra vez

E nessa ida, com passagem pelo congresso de leitura Lercon produzido por outro lindo, o Hugo Monteiro, deixei por lá, o fogo dos Kaingang de cá. Antes me reuni com um grupo de mulheres amáveis e adoráveis, num dia de experimentos com a palavra falada. Um instante para brincar e pesquisar as possibilidades narrativas, com olhos voltados para os sentidos que as histórias deixam para nós. E nesse dia, descubro também Carol Lemos, com seus fios a bordar aconchegos.


Quanto presente a vida nos dá, quando se está aberto para recebê-los. Muitas vezes reclamamos que as coisas boas não chegam, mas esquecemos de abrir as mãos para apará-las, quando elas vêm até nós. Vê se risos dessa natureza não é um mimo para a alma? 


 Isso não foi posar na foto. Era assim o tempo todo assim. Brilho. Brisa. Vento. Maravilhamento. Alegria.


31 de mar. de 2012

Foz do Iguaçu - III Seminário Municipal da Educação - dois momentos


com as meninas da equipe
A gentileza e a cooperação dão o tom na Secretaria de Educação. Resultado: evento harmônico e com qualidade. Na ponta, na escola IDEB alto e comunidade escolar satisfeita com o ensino. 
o público está pra lá das colunas
Quando (quase) 1.000 pessoas se dispõem a ouvir de bom grado; se colocam numa postura de escuta sensível; fazem do seminário um instante pra rever sua prática, a (minha) atuação flui feito rio manso e fica a sensação e a certeza de que, quando o trabalho é também partilha, a gente não se esgota. 

16 de mar. de 2012

A alegria como condição para educar

alunas da escola Amanda Leite Cunha, Itaguaçu/ES

Ao ler no horóscopo de Oscar Quiroga, que “a alegria que você deixa de experimentar a cada dia é a medida do encurtamento da existência”, imediatamente me conectei com o significado desse sentimento na minha vida. Concordo. Sem alegria a vida encurta, porque a tristeza ofusca o bem-estar, debilita a saúde e a capacidade de criar, compromete as relações, mina os bons pensamentos e afetos. Mas não rejeito a tristeza. Ela é a condição para a alegria existir. Sei da alegria, porque um dia soube da tristeza.
Porém, posso escolher com quem ficar. Escolho a primeira. Houve um tempo que vivi no subterrâneo da alma, arranhando as paredes do buraco para conseguir sair. Mas, ao findar-se a noite desse tempo, todas as coisas retornaram à sua natureza-luz. Ao começar o novo dia desse tempo, saí da penumbra, onde permaneci banhada por gordas luas cheias e misteriosas crescentes minguantes, e me banhei na luz do sol.
Alegria não é condição do meio. Não nos tornamos mais ou menos alegres, porque em torno está tudo bem. Ao contrário, o desafio é mantê-la apesar das contrariedades que a vida apresenta. Alegria é um estado do espírito, da consciência individual. Brota no coração, se expande pelo corpo, exala pelos poros, transparece no brilho da pele, cabelos, olhos. Ela nos aproxima da natureza crística ou da natureza búdica, se preferir. É opção de vida, complexa bem sei, já que muita coisa nos leva a dar as mãos para o lamento e o desespero.
Na educação, esse é um estado essencial para fazer do nosso saber, uma força que transcende teorias e práticas, e se apresenta como um modelo para a expansão da alma. A alegria traz frescor ao ato de educar transformando-o num ato de amor. É importante que se construa um novo cenário educacional, onde seus paradigmas ultrapassem o diálogo entre as artes, ciências, tradições e filosofias. Que se integrem às diferentes dimensões da realidade. Que sejam permeados por sentimentos elevados, aqueles que brotam dos chacras superiores, por meio da meditação, por exemplo, e que nos dotam de humanidade. Se isso não acontece ficamos presos aos níveis inferiores da matéria, sujeitos as oscilações dos ânimos e emoções.
Um olhar pedagógico que pretende religar o sujeito ao seu mundo interno, afim de que ele interaja com delicadeza e respeito com o meio e as pessoas, deve abrir espaço para efetivar tal estado de alma, e mostrar caminhos para alcançá-lo. Quando o educador se apresenta como modelo de um ser consciente e harmônico, ele transmite alegria. Isso torna os educandos que o cercam, seres mais felizes e solidários, pois promove o amor por si mesmo e pelo próximo, condições que geram a paz individual e coletiva. 

6 de mar. de 2012

Mudança de forma

Era uma casa com muitos cômodos. Num deles, um homem me deseja. Num outro há mulheres que me rejeitam. Noutro, mulheres que me aceitam. A casa, a fortaleza, tem saída para o mar. Não dá mais para voltar à cidade que envolvia a casa. Não há mais cidade. Agora, nada mais que o mar. A saída é o mar. Existe um ângulo de visão por onde se vê rochas. A casa está ocupada por outros que não conheço. Quero transformar tudo aquilo, no meu espaço. Muita gente, muito entra e sai. Eu posso mudar? Não sei. Mas eu quero mudar.

A estrela de Belém

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