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29 de ago. de 2011

A memória e a história, tecendo sensibilidades

Fazia frio em Francisco Beltrão no dia da formação. O grupo dos professores de literatura se esquentava com chimarrão. Essa herança da cultura sulista está presente em várias cidades do interior do Paraná. Em vez de água se toma mate. Pois é, não há frio que resista ao mate... e uma roda de histórias.

 A voz poética despertou a memória. A história de cada um reforça a identidade do sujeito narrador. Dela surgem vestígios de um passado distante, vozes ancestrais que um dia lhe contaram uma história.                                                                      
Talvez o tataravô do tataravô a tenha ouvido e, nesse momento, vestígios genéticos se agitam no íntimo do seu ser, afirmando que aquela cena já foi sua. Logo depois, outra lembrança insiste em se tornar real. Alguém... Pai, mãe, avô, avó, quem? Quem ouviu essa história primeira, deitado na cama após o chá de capim-limão? Não importa, sem dúvida. Quando se acordam essas lembranças e se compartilha com os companheiros de roda, preserva-se não só a própria história, como se fortalece os laços que unem os sujeitos. 
E foi assim, no dia chuvoso e frio. Saímos com a alma aquecida. O bom de lidar com a literatura é que o trabalho sempre tem gosto de diversão e arte.

9 de jul. de 2011

Jardim de Monet

Estive em férias por alguns dias, ainda que  não fosse o período mais apropriado para me ausentar. Preferi mantê-las, porque elas estavam marcadas há meses e também, porque tenho me proposto a fazer acontecer esses intervalos de pausa, mesmo que seja durante períodos tumultuados. Olhar de fora esses momentos é um privilégio.
Decidi visitar o espaço onde Monet morou e criou sua obra. Com um entorno tão favorável a criação devia fluir harmonicamente. Os jardins de Monet são um modelo de diversidade. Tudo se mescla, cores, formas e perfumes. Eles foram construídos, pensados, traçados, mas as flores se misturam tão espontaneamente, que se chega a pensar que nasceram e cresceram sem a intervenção humana. As espécies interagem e se aceitam como são, algumas mais feias, outras mais bonitas. Da mais comum a mais sofisticada, elas mantêm sua personalidade.
Penso nas relações humanas e na dificuldade que temos de aceitar o feio, o torto, aquilo que segundo nossos critérios, não combina com as nossas boas qualidades. Rejeitamos o que não está completo, o que se choca com os padrões de bom comportamento. Aceitamos o que foi convencionado como desejável socialmente e nos inflamos de teorias para justificar e julgar o que não é do nosso agrado.
No jardim de Monet encontro o tom da reflexão. As flores tortas e já despetaladas também têm espaço por lá.

23 de jun. de 2011

Workshop nas férias - Contar e Encantar

Que tal mergulhar na magia da arte de contar histórias?


O próximo workshop que irei ministrar será nos dias 23 de julho - sábado , das 9hs às 18hs e 24 de julho -  domingo, das 9hs às 13hs.


No programa irei abordar
 - a história como sujeito.
- a memória como espaço mítico.
- a técnica como caminho.
- o repertório como meio e
- a narração como um ato de entrega.


A inscrição dá direito ao livro Contar e encantar – pequenos segredos da narrativa, Editora Vozes.

8 de jan. de 2011

Leitor se forma lendo

No Caderno G Ideias, Gazeta do Povo, 8 de janeiro, artistas do Paraná discutem os rumos da cultura no próximo governo. Em tempos de fomento da leitura literária, um entrevistado diz que "é preciso evitar essas bienais de livro, que são caça-níqueis de empresas de fora do estado (...)", etc etc etc.
 
Não concordo com essa declaração. Considero-a xenofóbica e retrógrada. Ora, uma feira de livro serve justamente para o escritor se relacionar com seu leitor, veicular suas ideias, além de divulgar e vender seu livro. Esses espaços são necessários, ainda que venham na roupagem comercial. Não dá para dissociar cultura da dimensão econômica. Ela é apenas uma parte dessa cadeia de promoção do livro e da leitura. Temos mais é que ter uma, duas, dez feiras anuais, que promovam o livro e estimulem a sua circulação.

Essa visão provinciana mantém o livro na categoria de uma produção cultural elitista e privilégio de poucos, invés de vê-lo como um produto ao alcance de todos. Não dá para esquecer que as últimas pesquisas sobre leitura revelam que apenas metade dos brasileiros é leitor, considerando leitor o sujeito que leu ao menos um livro nos últimos três meses.

É importante que o livro – e aqui abro um parêntese para o livro literário – ocupe o imaginário das pessoas e passe a fazer parte do seu cotidiano, como faz a televisão, o rádio, o cinema. A Bienal do Livro do Paraná, em 2010, foi visitada por cerca de 10.000 crianças. Praticamente 90% delas vieram das escolas públicas e posso afirmar que 70% dessas crianças nunca tinha ido a um espaço de livros, seja uma feira ou até mesmo uma livraria.


Com certeza deve-se associar o livro à educação e criar mecanismos para sua fixação na comunidade. A política cultural deve prever ações nas bibliotecas e noutros espaços onde ele se encontra, como bate-papo com autores, círculos de leitura em voz alta (mediada por um adulto, quando se trata do público infantil), rodas de história e associar o livro à outras manifestações artísticas. Como também estabelecer ações que democratizem e facilitem sua aquisição, como o seu barateamento, a instituição de vale-livro. Aliás, o livro deveria fazer parte da cesta básica do brasileiro.

Afinal, só nos tornaremos um país de leitores se tivermos o livro em mãos, para ler. Leitor se forma lendo.

25 de out. de 2010

Eu e o personagem

      Num desses dias de primavera ensolarada de Salvador, minha anja-da-guarda baiana deixou  escorregar uma revelação pra lá de literária, “achei que Cléo Busatto não ficasse triste; que pra ela o sol não parasse de brilhar; que fosse como um dos seus personagens, quando batesse a tristeza pegava o sol e trazia sua luz pra nos fazer rir outra vez. Achei que Cléo Busatto fosse inabalável”.
       Pasma e boquiaberta diante dessa inesperada revelação nada angelical, reivindiquei minha condição de humana e mortal, passível de me jogar no chão e chorar todas as lágrimas, eu que agora nem mesmo podia ser uma personagem de mim mesma. E se naquele momento havia tristeza no peito, ela logo se transformaria numa passageira melancolia, que iria se dissolver num mergulho, quando eu caisse nas águas de Iemanjá. E ela, a anja, ainda completou “até a pouco tempo, Cléo Busatto pra mim era um livro”.
      Bom, querido leitor, estamos falando de uma conversa entre duas mulheres crescidas, esclarecidas, bem formadas (risos...), modernas, independentes, descoladas e lindas, que fazem escolhas e dão conta delas.      
     Mesmo assim, esse diálogo quase surreal, num domingo de sol de derreter os miolos da gente.
     Agora, imagina você, como é esse papo de personagem e gente de verdade, para a criança que ainda não consegue nem mesmo diferenciar a obra do criador; o escritor do escrito. Ser da condição humana passa longe do mundo dos personagens.
     Literatura não é vida de verdade e os personagens que lidam com os aspectos humanos, servem apenas pra mostrar o que nos diferencia uns dos outros e também, como eu posso me resignificar por meio da literatura, ou seja da fantasia.

25 de set. de 2010

Para ter acesso a novas formas de ver o mundo

http://www.gazetadopovo.com.br/gaz/gaznopapel/conteudo.phtml?tl=1&id=1050241&tit=Para-ter-acesso-a-novas-formas-de-ver-o-mundo
Divulgação / Cléo Busatto: a contadora de histórias estará presente todos os dias na Bienal
Cléo Busatto: a contadora de histórias estará presente todos os dias na Bienal

Cléo Busatto, catarinense radicada em Curitiba, é quase sinônimo de contação de histórias. A relação dela com o universo da leitura é tão profunda, que a organização da Bienal do Livro Paraná a convidou para ser a curadora do Espaço da Criança (Circo das Letras), que oferecerá ampla programação a leitores de 8 a 12 anos, conteúdo que também poderá ser usufruído por curiosos de todas as idades.

No dia 2 de outubro, ela participa, ao lado de Rodrigo Lacerda, da mesa-redonda Pequenos Leitores, Grandes Leitores. A mediação do encontro será do editor do GAZ+, Cristiano Luiz Freitas. A seguir, algumas ideias de Cléo:

O que uma pessoa, de qualquer idade, ganha participando da Bienal do Livro Paraná?
Ganha conhecimento, amplia sua consciência ética e estética. Frequentando espaços dessa natureza, uma pessoa entra em contato com pensamentos, pensadores, outras formas de ver o mundo. Ao visitar um evento desse gênero, saímos de uma existência autocentrada e provinciana e nos damos conta da grandeza do ser humano.

Isso quer dizer que circular em meio a livros e escritores faz bem à saúde?
Muito. A gente só tem a ganhar com um bom livro. Dia desses, uma pessoa me falou que tudo o que ela é e aprendeu, deve aos livros. Ela vem de uma família não ledora e pouco participativa. Então, foi buscar nos livros a base para a sua autoformação. Estamos sempre aprendendo a ser, criando sentidos para aquilo que vivemos e num processo continuado de aprendizagens. A literatura se encarrega de nos auxiliar nessa caminhada. Ela nos pega pela mão e diz, venha, isso é o que eu tenho a lhe mostrar, e agora você cria o sentido que melhor se encaixa na sua existência.

Cléo, é possível afirmar que o simples fato de frequentar um ambiente como o da Bienal do Livro Paraná já deixa a pessoa com vontade de ler?
Com certeza. Só o fato de frequentar ambientes onde o livro se faz presente já desperta o desejo de ler. Eu aprendi a ler sozinha, aos três anos e meio, simplesmente por crescer num lar que tinha livros, revistas por todo canto. Meu pai lia Seleções, O Cruzeiro, romances. Eu vivia com as revistinhas infantis em torno de mim. Os armários continham livros. Minha mãe era professora, seu mundo girava em torno das letras. Meu irmão foi um grande leitor. Eu li Os Miseráveis, de Victor Hugo, com oito anos. Estava lá. Bastava apenas tirar da estante. A história me envolveu, encantou, chorei com a personagem infantil, a sua dor pela perda da mãe.

20 de set. de 2010

Em BH sob o signo da letra A

Abriu-se a roda. Ledor, leitor e leituras. Soltou-se o abecedário num anseio de abarcar, abraçar essa arte que é a literatura. A atmosfera transcendia afetuosidade e alegria. Desse jeito dá para fazer bonito e ao narrar e ler histórias, acolher o outro com palavras amáveis, que acarinham, acalmam e acalentam. Havia abertura para assimilar novos olhares, aglutinar conhecimento, viver a alteridade sugerida pelo texto ficcional e ampliar o horizonte pessoal através daquilo que um bom livro nos apresenta.

Abracadabra... no instante seguinte tudo aquilo virava arte, ainda que sob uma abordagem educacional (pois predicava-se, elaborava-se conceitos, apresentava-se saberes formais, aclarava-se os informais, transformava-se conhecimento em sabedoria), afinal arte, educação, cultura são apenas fios de um mesmo tecido prenhe de sentidos, ao qual se batizou linguagem.

Tudo isso acompanhado pela atenção de um povo abençoado, que acaricia e aconchega. Aceitação e admiração. Alguém diz, é porque você é apaixonada pelo que faz. Como não ser, se a história acende faíscas de compreensão dentro de mim? Isso é o que doo aos que estão à minha volta e quando se trilha caminhos com alma, só pode-se agradecer a vida por tantos presentes. E ser grata aos acompanhantes de todas as horas, as matolinhas de biscoito de mandioca, a letra A de chocolate que surgiu na xícara de café, a paçoca com a marca Amor. Agradeço ao convite da Diretoria de Literatura e da amável equipe da BPIJBH e cada um de vocês que esteve comigo.

Diante dessas impressões, só posso afirmar que BH se fez sob o imaginário da letra A.


 

A estrela de Belém

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