Mostrando postagens com marcador transdisciplinaridade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador transdisciplinaridade. Mostrar todas as postagens

26 de jun. de 2012

A palavra bem dita, bendita palavra


Como narradora oral de histórias sei que a força criadora da palavra reside naquele que a profere. Quando se pronuncia com alma, falar se  torna um exercício de afetividade e ternura. Para começar, eu diria, conte histórias na sala de aula e fora dela; no pátio, embaixo das árvores, em cima das árvores, no balanço. 
Conte muitas histórias. Conte para despertar, para acalmar. Conte porque você está com vontade ou conte porque seu aluno quer ouvir. Conte em pé, sentado, dançando, cantando. Mas conte. Conte por contar. Conte para instigar. 
Depois, convide seu aluno a contar, seja uma história que ouviu, leu ou inventou. Uma ficção ou uma história de verdade. Estimule a fala estética e a prática do discurso oral. O exercício da linguagem organiza o pensamento, no diz Vygotsky. 
A oralidade, como recurso pedagógico, faz a ponte entre as diversas áreas do conhecimento.

2 de jun. de 2012

I Meeting Nacional de Educação Tecnologia


"Se a educação sozinha não pode transformar a sociedade, tampouco sem ela a sociedade muda (Paulo Freire, 2000). 
I Meeting Nacional de Educação é um evento que busca trazer à discussão temas de grande relevância, bem como, relembrar e aprofundar conhecimentos e ampliar a troca de experiências entre os congressistas das várias Instituições e níveis de ensino.
Entendemos a necessidade da transformação que no que tange à estruturação dos sistemas educativos e à construção de práticas educacionais que atendam à diversidade. Por meio dos diálogos com teorias científicas pertinentes, políticas públicas, práticas pedagógicas e pesquisas realizadas na área, para que possam contribuir para um aprofundamento sobre as relações entre inclusão e educação, igualdade e diferença, na sua complexidade e multidimensionalidade, e instrumentalizar os educadores para o exercício de seu papel como agentes da inclusão sociocultural."



14 de nov. de 2011

Titicaca, um mestre


O Titicaca encanta e desconcerta. Viver sobre um chão de totora trançada sob um lago de 200 metros de profundidade não é pra qualquer espírito. É preciso desapego e amor pelas águas e por Mamma Kotta, a mamma del lago, a divindade que os protege, naquela imensidão de água doce. Os povos do lago sabem disso.
- Nossos avós já sabiam que há muitos mistérios em Uros e que não se pode viver ali. Por isso agradecemos a Mamma Kotta, pedimos proteção e permissão para viver nela. Temos muito respeito por Mamma Kotta.

Assim fala Rita, uma moça linda de olhos negros e brilhantes, sorriso aberto e com muitas histórias pra contar, tal como seus avós, os contadores de histórias do seu povo. Ela veio a mim como um presente da deusa. Rita é uma das moradoras das ilhas flutuantes de Uros. Na sua comunidade, Chantati, vivem seis famílias. Ela ocupa a função de regidora, a representante das mulheres de Uros.

Rita fala com entusiasmo da sua casa, as plataformas de junco do Titicaca, onde nasceu e pretende ficar. Como está acostumada com o pisar macio da esteira flutuante, andar na terra lhe cansa muito. Contou que numa ocasião foi visitar Taquile, outra ilha do lago, porém de terra e, que após atravessar dois montes já não tinha forças. Estranhou o lugar e tinha necessidade de ver a água de perto e tocar as totoras, o junco que lhes serve de chão, matéria prima da casa e dos barcos que os conduzem a outros sítios, nessa região inóspita e de ar rarefeito, a quase 4.000 metros acima do nível do mar. Saudade de tocar a totora, sua comida e combustível pro fogo.

- O lago nos dá força e energia. Eu não poderia viver na terra. Para mim é uma graça, meus pais terem me dado à luz em meio ao lago. É uma emoção única dormir e despertar com as aves, vendo as estrelas, o céu azul, acordar com o sol.  Para mim é o paraíso.

E as crianças? Elas brincam nesse pedacinho de chão dourado e quando se trata de estudar são iguais às outras crianças do mundo, deixam as tarefas escolares pra última hora e muitas vezes resolvem isso no caminho, ou seja, no barco que as leva até a escola, também no lago. Pequeninas e já enfrentado o Titicaca. Há que se ter coragem para vicejar no Titicaca. 

12 de out. de 2011

Ecos do Passaporte da Leitura



O menino trouxe flores, margaridas e outras, miúdas e lilases, embrulhadas numa folha de caderno, onde se lia, pra Cléo com um beijo. A menina, a gatinha branca. Os dois, entusiasmo e esperança. São os efeitos da literatura na alma da criança. 
Isso aconteceu na 27º Feira do Livro de Caxias do Sul, no 7º Passaporte da Leitura, onde as escolas recebem livros do PPEL - Programa Permanente de Estímulo à Leitura, e olham para a obra do escritor com cuidado e inteligência. Um dos livros selecionados foi O Florista e a Gata

Os maiores aproveitaram para refletir o trabalho infantil e concluíram, "criança não trabalha, criança dá trabalho". Se as repercussões da leitura tiveram esses desdobramentos é porque havia um mediador sensível e disponível para olhar a obra com carinho. Obrigada. Para mim, perceber que meu texto proporcionou essa deliciosa aventura, como eles a qualificaram, é o maior presente que posso receber no dia da criança.

29 de set. de 2011

Itapiranga e o rio - De caso com a letra I, parte 3

O município de Itapiranga fica no final de Santa Catarina, do ladinho da Argentina, na esquina do Rio Grande do Sul, ao lado do rio Uruguai. O Uruguai não é um rio qualquer. Tem alguma coisa de mítica boiando nele. Às margens do Uruguai, eu contei histórias de outros rios despertando nas pessoas o imaginário da água. Água evoca vida, purificação, regeneração. Os personagens enfeitiçados dos contos de fadas banham-se na água, e recuperam a forma inicial. Rio sugere a imagem da fertilidade e da fluidez. Se deixar levar. Foi uma passagem meteórica abaixo de chuva, mas o suficiente para ser tocada pelo rio e mexida pelas emoções despertadas pela água. Fico imaginando como deve ser estudar numa escola com uma vista como aquela. Falei sobre leituras e leitura literária, e como as histórias podem resignificar nossas vidas. Na plateia, seiscentos educadores que nem piscavam, feito criança sendo levada pela fantasia.
    Antes, eu é que fui seduzida pela apresentação artística dos pequenos. Uma turminha de três anos brincou de encenar a história da Branca de Neve e seus anões. Lá eram anões pra mais de dez. Deixaram-se levar pelo faz de conta, embalados e conduzidos pela narrativa envolvente da professora. Um encanto. São projetos dessa natureza, com profissionais assim comprometidos, que reafirmam que a educação ali vai bem.
O convite que partiu da Coordenação dos Cursos de Licenciatura, da Faculdade de Itapiranga possibilitou a continuação do me caso com a letra I.
 Depois de Itaguaçu e Ibirama, Itapiranga. Sempre que embarco para essas regiões distantes, me sinto uma caixeira das letras, como sugeriu um amigo, quando falei que parecíamos caixeiros-viajantes. Gosto desse movimento. Ainda que o cansaço se manifeste, por conta dos deslocamentos, inúmeras esperas nos aeroportos, trechos por terra, quando concluo o trabalho e acolho os retornos dos participantes, sinto-me recompensada.
Percebo-me útil e cumprindo meu papel social, afinal é isso que deixo para o mundo, é pra isso que estou aqui, pra compartilhar meus saberes, e o que volta pra mim dinamiza minha produção e compreensão de mundo, de vida e das relações. E a roda gira. Outra vez eu vou, doo alegria (e lembro-me das palavras de Bachelard, a imaginação trabalha mais onde vai uma alegria!), recebo amor, produzo novas histórias e me sinto bem.

22 de set. de 2011

O tempo da primavera em nós

Para saudar a primavera tratei as plantas. Cortei os galhos secos. Revirei a terra e acrescentei húmus. Lavei as folhas, retirei a poeira. No inverno não é bom mexer com elas. Preferem ficar quietinhas e recolhidas.  A energia se volta para dentro. Por fora parecem feias e sem vida. Mas lá, no interior escuro, algo se processa. É tempo de preparar um novo galho, que expandirá seu brilho na forma de uma nova folha, flor, fruto. Quando chega a primavera, a natureza sabe que é tempo de vir para fora em toda a sua plenitude, mostrar a beleza que carrega em si, construída lentamente, num processo silencioso e continuo. 
 O mito nos conta, que  a deusa Perséfone, quando jovem, foi raptada por Hades. Deméter, sua mãe e senhora da terra e das colheitas, fez um trato com o deus do mundo subterrâneo. Eles acordam que durante seis meses a jovem ficaria com ele, no mundo de dentro e depois, por outros seis meses, permaneceria na companhia da mãe, no mundo de fora. Quando ela chega à superfície, tudo floresce e madura. Quando ela volta para Hades, a natureza se contrai e se volta para o interior.
Cuidar do jardim metaforiza o ato me cuidar, para fazer a primavera acontecer em  mim. No meu inverno, tempo de recolhimento, calada eu gero, o que potencialmente já existe. Quando a primavera se aproxima, eu também devo limpar minhas sujeiras que impedem o livre respirar, cortar o galho que não tem mais seiva, me adubar com terra boa e nutrientes, renovar a consciência dos ciclos da natureza. Tudo nasce, cresce e morre. Até um pensamento, uma forma de se olhar.
Primavera é tempo de se florir, deixar surgir novas ideias, novas formas de se lidar com as coisas, de desapegar e permitir que o belo que nos habita se espalhe na superfície. Tempo de se maravilhar com a vida, que explode em cores e perfumes, se deixar tocar pelo sonho que origina o movimento para o novo. É tempo de ver as coisas com os olhos da alma, e se assombrar com o que poderá se enxergar.

29 de ago. de 2011

A memória e a história, tecendo sensibilidades

Fazia frio em Francisco Beltrão no dia da formação. O grupo dos professores de literatura se esquentava com chimarrão. Essa herança da cultura sulista está presente em várias cidades do interior do Paraná. Em vez de água se toma mate. Pois é, não há frio que resista ao mate... e uma roda de histórias.

 A voz poética despertou a memória. A história de cada um reforça a identidade do sujeito narrador. Dela surgem vestígios de um passado distante, vozes ancestrais que um dia lhe contaram uma história.                                                                      
Talvez o tataravô do tataravô a tenha ouvido e, nesse momento, vestígios genéticos se agitam no íntimo do seu ser, afirmando que aquela cena já foi sua. Logo depois, outra lembrança insiste em se tornar real. Alguém... Pai, mãe, avô, avó, quem? Quem ouviu essa história primeira, deitado na cama após o chá de capim-limão? Não importa, sem dúvida. Quando se acordam essas lembranças e se compartilha com os companheiros de roda, preserva-se não só a própria história, como se fortalece os laços que unem os sujeitos. 
E foi assim, no dia chuvoso e frio. Saímos com a alma aquecida. O bom de lidar com a literatura é que o trabalho sempre tem gosto de diversão e arte.

18 de jul. de 2011

O Fio da História - por uma educação pela paz

   Estar com um novo livro em mãos é sempre um prazer e uma grata sensação de ter conseguido materializar uma ideia. A produção literária é uma tarefa curiosa, porque pede um tempo para se construir por si só. Comigo acontece assim, eu vou reunindo as reflexões dentro de mim e depois largo, deixo que elas convivam, umas com as outras. Aí se dá uma produção subjetiva de refinada arquitetura e quando me dou conta, é só puxar o fio da história.
  Agora convido você a conhecê-lo. Com ele proponho novos olhares sobre oralidade e narração de histórias, através de quatro projetos que integram as linguagens oral, plástica, cênica e sonora. O livro é um registro de trabalhos desenvolvidos com a palavra falada, durante minha prática pedagógica.
   O livro é dividido em três capítulos. O primeiro, A memória e a história: fragmentos e encaixes apresenta o projeto Livro da Memória. O segundo, Puri, o sopro criador sugere a Roda da palavra e seus desdobramento. O elemento sensibilizador desse segmento é o mito de origem do povo Wapixana, A árvore de Tamoromu. No terceiro capítulo, A palavra revelada, indico duas atividades: construção do Livro-dobradura inspirado pelo conto, Mulher-Sol, homem-Lua. e Teatro de bonecos, onde oriento a adaptação para roteiro cênico do conto Cobra Norato, a construção e a manipulação dos bonecos.
   O livro apresenta projeto gráfico e ilustrações de Paulinho Maia. A editoração é da Arte & textos e a produção da CLB Produções. O projeto foi realizado com recursos da Lei de Incentivo da Prefeitura Municipal de Curitiba – Fundação Cultural de Curitiba. Contou com o incentivo da Volvo e Clinipam.


O lançamento em Curitiba será no dia 06 de agosto na Bisbilhoteca, Rua Carlos de Carvalho, 1166. Estarei lá para um bate-papo com o leitor às 11hs e 15hs. Espero você.

14 de jun. de 2011

Desempacotar as emoções


Quando se está aberto para receber vem um presente atrás do outro. Maio foi o mês de Itaguaçu. Quinze dias na cidade de quinze mil habitantes, plantada no interior do Espírito Santo. Bendito Espírito Santo. O que coloca no meu caminho mil e quinhentas crianças encantadas, pequenas faíscas de luz pipocando em olhos multicoloridos? Quando estamos prontos, as coisas chegam redondinhas, saborosas, feito os quitutes da cidade. Ah, os pães de Itaguaçu... Só mesmo mãos generosas para sovar aquela maciez. E os presentes vêm na forma de fruta, doce, comida, sorrisos e abraços. A gente fica gorda de tanto afeto e o peito expande, quando se toma conhecimento dos significados que a Feira Literária lançou na cidade. Um menino diz que para ele, a feira despertou a beleza com o encantamento das apresentações e o sentimento espiritual. Ora, também fiz parte desse processo, que para essa criança se revelou no Belo e no Mistério e gerou sua fala inspirada, registrada num bilhete escrito a lápis e com letras tortas.

Depois, os presentes vieram do workshop de narração de histórias. Foram tantos. Uma participante diz, ela nos desempacotou. A menina de nove anos conta sua história com estrutura literária, e em seguida chora ao falar da saudade que sente do irmão, que morreu recentemente. Só dá mesmo para acolher e acalentar pela via do poético e do sensível. A história como sujeito. A memória como espaço mítico. A técnica como caminho. O repertório como meio. A narração como um ato de entrega. Foi por aí que a gente andou naquele final de semana friozinho e de céu azul.

Como dimensionar a forma com que nossa arte e expressão chegam até o outro? Como saber o que vamos provocar, quando desempacotamos emoções? Não sei. Sei apenas que é importante estar sempre como um grande coração, silencioso, escancarado, afável e receptivo. Aí não paramos de receber dádivas. E penso na formação do profissional da educação. Nas práticas e teorias, aprisionadas e empobrecidas, porque restritas a dualidade corpo/mente. E penso num processo por onde se pode transitar desse modelo binário de ver e atuar no mundo, para outro, circular e ampliado pelas múltiplas inteligências, pelas múltiplas dimensões, que abarca também o mítico e o sagrado no cotidiano. Dessa forma, dá para gente abrir as mãos e voltá-las para cima e aceitar o que vem do alto, ainda que isso nos provoque alguma dor. Mas só assim nos tornaremos mais inteiros e por fim mais felizes e gratos pelo que a vida nos dá.

9 de jun. de 2011

Histórias para esquecer do frio

 
Num bilhete na cadeira se lê:
Comece fazendo o que é necessário. Depois o que é possível. 
E de repente você estará fazendo o impossível.
Dito por São Francisco de Assis. 
Espaço Paz e Bem.

Clique na Páginas ao lado e veja o que aprontamos

16 de mai. de 2011

Entusiasmo e a condição de se manter dócil

Às vezes temos a impressão de estar no olho do furacão. As coisas acontecem vertiginosamente, sem nos dar tempo para elaborá-las. É fácil ser tomado pela cólera, perder o rumo, a cabeça, o humor. Na manhã de embarque para Poços de Caldas, rumo a Flipoços, descobri que estava sem a carteira de documentos, cartões... esses passaportes para o cotidiano. Claro, não embarquei. No primeiro momento veio um ”não acredito, não acredito”. Atenção, Cléo. Respirar, rir e solucionar, dizia a voz pacificadora. E lá vou eu, noutro voo, no final do dia, com mais algumas horas de estrada pela frente, dormir tarde, acordar cedo, cansaço, etc etc etc. Se não fosse a falta de atenção poderia ter feito o mesmo trajeto com mais tranquilidade, dizia a voz crítica e julgadora. Serena, serena, sugeria a voz do bem. E nesse impasse com as vozes internas, cheguei à cidade, até mais cedo do que previ. Cai num sono intenso.


No dia seguinte, a poucos momentos da abertura do evento, me dei conta que estava feliz por estar lá e falar aos professores sobre esse assunto que me encanta: oralidade e leitura literária. Mas, mais feliz ainda eu estava, por ter vivido os imprevistos do dia anterior com calma e por ter mantido a doçura comigo mesma. Naquele momento eu estava bem e alegre e era esse ânimo, essa energia que permearia minha fala. Assim foi. Deslizou.

Mais tarde, andando de volta ao hotel, cruzei com um professor que estava na palestra. Ele veio me cumprimentar e observou que meu entusiasmo foi contagiante. Sim, eu disse, acho importante estar neste estado de exaltação do espírito, por que isso implica em manter vivo o sopro criador, que nos faz cúmplices e participantes da vida. Entusiasmo é a força que me inspira, anima e me propulsiona a criar com amor. Isso quer dizer carregar Deus dentro de mim. Não dá para negar a dimensão do sagrado, nem mesmo numa fala científica. Creio que essa realidade deve ser vivida no dia-a-dia, não apenas nos templos. Sem ela a vida se torna árida e sem sentido.

Reafirmo em cada encontro literário, em cada discurso sobre os efeitos e afetos da leitura literária, a urgência em recuperar as dimensões não passíveis de experimentação, mas tão reais quanto distinguir um copo de água de um copo de vinho. Pneuma e psyché devem voltar a andar juntas com soma. Esse é o desafio da educação na contemporaneidade, integrar o que foi fragmentado e humanizar o ato de educar. Entusiasmar meus comparsas, esse é o tom.


Dias 4 e 5 de junho, workshop Contar e Encantar, em Curitiba.

9 de mai. de 2011

Flipoços 2011

O 1º Encontro da Educação, evento que aconteceu na VI Feira Nacional do Livro de Poços de Caldas, gerou algumas reflexões compartilhadas no Boletim de Maio. A grande alegria foi encontrar a Tatiana Belinky, homenageada da feira, estampada por todos os cantos.
Tatiana impulsionou minha carreira literária. No final dos anos 90 levei à sua casa um roteiro de peça para criança. Ela leu e proferiu, isso é um conto para crianças. Está praticamente pronto. Porque não pensa em publicar?
Levei a sério e anos mais tarde publicaria meu primeiro livro para crianças, Dorminhoco, que dedico a ela. Também levei a sério, quando ela disse que as historias são um treino par as emoções. Essa frase ficou ecoando dentro de mim e hoje, silenciosamente, agradeço Tatiana, porque cada vez que eu vou falar para um grupo de pessoas, sobre literatura, histórias escritas e narradas, ela surge na minha frente, com seu ar de pisciana dócil e sonhadora.
Tatiana faz parte desse pequeno universo de grandes pessoas que mudam a vida das outras. Ela mudou a  minha, quando validou minha escritura e minha imaginação. Agora sou eu quem está aí, com essa tarefa de ler o outro e dizer, siga em frente. 
Semana que vem estarei em Itaguaçu, nas montanhas do Espírito Santo. Todos os dias recebo dezenas de emails dos alunos, dizendo-se ansiosos pela minha presença. Que estão lendo meus livros, que gostam do que leem e que desejam que eu seja feliz na sua cidade. Eu serei, meus queridos. Com tanto carinho junto, como não seria? 
A passagem por Poços foi rápida mais intensa. Os afetos que as pessoas lançam não se desfazem mais. Ao contrário, se materializam e deixam marcas no corpo, nos sentidos, no coração e no espírito. Poços de Caldas, eu volto para lá.

16 de abr. de 2011

O eco das histórias (Boletim Abril)

Nas minhas andanças contando histórias chego também a lugares onde paira o signo da desarmonia, com barulho e gritos, tanto das crianças, como dos adultos que estão ali para orientá-las. Corre-corre e histeria disfarçada de educação. De cara penso, será que vou dar conta de narrar aqui? Inicio a sessão com uma rápida apresentação pessoal, no intuito de preparar o público para a escuta sensível, já que nesses espaços é necessário um tempo para que o silêncio se estabeleça para depois vingar o prazer e a entrega à batida leve e compassada das histórias. E assim se abre uma fenda para o maravilhamento no qual mergulhamos todos e 40 minutos de narrativa, se tornam incontáveis minutos de contentamento e comunhão com a fulgurância da ficção.
    Despeço-me do público e do espaço onde deixei as histórias. Ao virar as costas, novamente barulho e gritos. Uma pergunta ressoa no meu interior: como criar um movimento de sensibilização para a fruição literária e todos os desdobramentos que ela proporciona, se o ambiente em si deseduca e anda na contramão do que acabou de se propor, ou seja, um tempo de silêncio preenchido de sentidos, pela via da arte? Como andar pela dimensão da razão sensível (como quer Maffesoli) se os sujeitos responsáveis pelo ato de educar não seguem por essa via?
    Ainda há muito que se fazer no campo da educação e a aprendizagem mais urgente, talvez seja caminhar com amorosidade, substituindo cara feia por sorriso, grito por canto, rigidez por acolhimento. Se o sujeito-educador não firma um acordo consigo próprio, de se educar, se flexibilizar e se transformar num sujeito mais humano, equilibrado e alegre, como dar conta de educar o outro?
    A sociedade contemporânea sofre de muitos males. As pessoas andam sem brilho no olhar, tristes, intolerantes, azedas, cegas. Falta sentido para viver, dizem alguns. Por isso vale tudo, matar e morrer, dizem outros. E a tragédia, esmiuçada até as entranhas pelos meios de comunicação, acaba sendo o alimento para o monstro. E se produz ainda mais desesperança e desespero, que geram ainda mais desgraça, e mais tragédia, e mais divulgação da desgraça, e mais descrença, e mais tragédia, e mais... ufa!. Está formada a rede do desencantamento pela vida.
    Ora, esse é o momento de desligar a TV, mudar o dial da rádio, o rumo da prosa e alimentar-se com aquilo que promove a esperança de um presente melhor, com o que traz leveza e alegria e recupera a confiança na vida. Aqui entram as histórias. Algumas têm o poder de aliviar as tensões do dia-a-dia, por nos levar para o mundo do faz de conta e do final feliz. Esse encontro com a fantasia restaura o gozo de viver.      
    Mas pra isso acontecer é importante que se respeite a força transformadora da história e se permita que ela ecoe no interior do ouvinte. É preciso aprender a ficar no silêncio e se permitir a ouvi-lo. Assim, vamos estabelecendo um outro signo, esse de harmonia e delicadeza. Vamos recuperando o sentido para vida, que nada mais é do que vivê-la bem.

13 de abr. de 2011

Histórias do leitor

Literatura só tem uma função, a de nos fazer sonhar. Mas é o sonho que cria a realidade. Uma pessoa me disse que tudo o que ela aprendeu deve aos livros. Estamos sempre aprendendo a ser, doando significados para aquilo que vivemos, num processo continuado de aprendizagens e a literatura se encarrega de nos auxiliar nessa caminhada.Ela nos pega pela mão e diz, venha, isso é o que eu tenho para lhe mostrar, e agora é com você, crie o sentido que melhor se encaixa para sua existência.

26 de dez. de 2010

Rede Criança e Paz

 Rede Criança e Paz é uma rede virtual dedicada a promover os direitos das crianças garantidos pelo artigo 227 da Constituição Federal. A rede é uma organização não estruturada hierarquicamente que visa conectar pessoas comprometidas com a proteção, cuidado e educação de crianças desde a gestação, e com a difusão da cultura de paz.
Tem como premissa que a primeira infância é fundamental para o desenvolvimento humano e que o que for feito em prol da criança nesta fase da vida, tem impacto em seu desenvolvimento e na situação social e econômica do país.
Missão: Ser um espaço para conexão e reflexão e ação coletiva sobre temas relacionados à primeira infância e cultura de paz.
Visão: Ser uma referência no processo de transformação qualitativa da realidade da Primeira Infância.

http://redecriancaepaz.ning.com/

13 de nov. de 2010

Cidade educadora, Sesc e Transdisciplinaridade

Gostaria de compartilhar algumas impressões sobre minhas andanças por espaços e cidades educadoras. Uma cidade educadora tem cidadão comprometido com o que faz. Têm sujeitos que se apropriam do objeto artístico, para se relacionar consigo mesmo, com o outro e com seu meio. Cidadão educador tem espírito transdisciplinar e transita livremente entre a arte e a ciência. Promove um saudável diálogo entre os diferentes níveis de realidade. Interage com eles, transforma e se transforma ampliando os níveis de compreensão. Um sujeito com atitude transD, inventa, se inventa, se reinventa, está em constante processo criativo e afetivo.
Olhares atentos percebem que o Sesc se avizinha do pensamento transD, à medida que proporciona à comunidade, uma pluralidade de manifestações culturais e facilita o trânsito entre os diferentes níveis de percepção. Sesc SP: Pinheiros e Santos. No primeiro, estive com espaço para promover os saberes da humanidade, por intermédio da tecnologia digital e pelo encantamento que as histórias do espetáculo de narração oral, Formosos Monstros, oferecem. O grau de concentração, busca do conhecimento e satisfação dos participantes no tempo presente, atesta o mergulho nas diferentes dimensões do sujeito.

Já no Sesc Santos, que numa parceria com a Secretaria de Educação, sediou o XXII Encontro de Educação Paulo Freire – Cidade Educadora: saberes em todos os cantos, a minha conversa foi com o professor. O silêncio na plateia era pleno de significados, algumas vezes rompidos pelo riso, outras pela contemplação..





















Posteriormente isso se traduziu em alguns presentes, como a revelação do projeto que a professora Claudia Marczak desenvolve com alunos de 9 e 10 anos. Um trabalho com mandalas “visando melhorar a capacidade de concentração, a resolução de conflitos e o contato com o belo”.
Luana e Gabriela
Mandala (que quer dizer círculo) é uma imagem que favorece a meditação e conduz à iluminação.

Camila
Enquanto representação simbólica da inteireza da psique (C. G. Jung), ela mantém e restabelece a ordem psíquica e proporciona o sentimento de que a vida reencontrou a sua ordem.

Thayná

Vinicius
Agradeço aos professore presentes, a Lygia Barbieri e equipe da SEFORM, a Marise e ao Alexandre, das unidades Sesc Santos e Pinheiros, por fazerem desses espaços, um lugar  para despertar os sentidos.

30 de out. de 2010

Um olhar transdisciplinar para a arte de contar histórias

Contar histórias é uma arte antiga, originária no imaginário de um povo e antecede a linguagem e a cognição. Considero aqui o papel do imaginário, pois ele se apresenta como condição para o conhecimento, unindo as diferentes dimensões da realidade e refletindo esse homem inteiro. Seguindo o raciocínio de que contar histórias precede a linguagem verbal, logo me vem à mente a imagem do homem pré-histórico, que ao pintar um bisão na parede da caverna, contava e deixava ao mundo a sua história. Sim, porque é possível contar histórias se apropriando de diversas linguagens, ou antes, diversos suportes. Assim, a literatura escrita ou falada narra uma história, bem como a música, a dança, o cinema, as artes visuais e as novas tecnologias digitais.
Porém, meu foco recai sobre a narração oral e o conto narrado. O contador de histórias surgiu da necessidade de perpetuar o imaginário individual ou coletivo e, nesse contexto desempenhou um papel especial. Ele é a ponte que liga o mundo de fora ao mundo de dentro. Em várias civilizações e tradições, o narrador é o mantenedor do sistema mítico e dos valores da sua comunidade, como também um instrumento que operacionaliza o acesso aos diferentes níveis de realidade.
Se o narrador é a ponte que liga um lado ao outro, o conto é o que escorre nesse vão. A história é a expressão do pensamento mítico do ser humano e uma via ao mundo imaginal, ou seja, “o mundo no qual se espiritualizam os corpos e se corporificam os espíritos”, segundo definição de H.Corbin. O contador de histórias liga as diferentes dimensões. Cria imagens no ar materializando o verbo e transformando-se ele próprio nesta matéria fluída que é a palavra. Empresta seu corpo, sua voz e seus afetos ao texto que ele narra e o texto deixa de ser signo, para se tornar significado. Ele nos faz sonhar, porque consegue parar o tempo apresentando um novo tempo, que se avizinha com o continuo aprender e tem como mediador kairós. Ao congelar cronos, essa dimensão passível de ser medida e seguida, abre-se para a dimensão de kairós, essa relacionada com a possibilidade de se estar presente no presente. Por essa via entra-se num estado de escuta flutuante. Esse conceito é uma alusão à atenção flutuante, de Freud. Por escuta flutuante entendo o se entregar ao que é narrado, sem avaliação e julgamentos, deixar-se levar por um estado de concentração, que liga o ouvinte ao emissor. Ao contrário da atenção flutuante que se opõe à contemplação, a metáfora da escuta flutuante só se completa numa perspicaz contemplação.
Para isso deve-se considerar a qualidade do conto narrado. Ao ouvir uma história atemporal, significativa, cuja arquitetura estruturou-se a partir de símbolos reconhecidos pelo nosso ser interno, somos sugados do nível prático e lançados na dimensão do sonho. Ali, podemos transcender os limites do nosso mundo pessoal fundado em dores e alegrias e nos introduzir na universalidade das vivências e dos sentimentos humanos. Por meio dessas histórias descobrimos que amor e egoísmo, angústia e contentamento, covardia e coragem, crueldade e compaixão, não são privilégios de uma época ou cultura, nem benção tampouco maldição. Elas nos recordam que a busca por uma vida de paz, livre de conflitos e sofrimentos, não é prerrogativa de poucos, mas se estende à condição humana. Essas histórias tem o poder de aproximar o que está longe e reintegrar o que está fragmentado. Histórias dessa natureza ativam o imaginário, provocam o devaneio, nos arrancam de um estado racional para nos aproximar de níveis mais refinados, como o plano do mistério e do sagrado.
Por meio dessas reflexões digo que contar histórias implica numa abordagem e numa atitude transdisciplinar, porque coloca o ouvinte em contato com diferentes níveis de realidades, a partir de onde são ativadas diferentes dimensões do nosso ser. Na dimensão do prático e gestual que se processa por meio dos sentidos, ouvimos, vemos e sentimos o narrador que com seu corpo, voz e afetos nos oferece sensações indescritíveis. Por meio dessa dimensão definimos se uma história é agradável ou não para nós. Mobilizamos também a dimensão lógica e epistêmica, orientada pelo pensamento que se encarrega de produzir conceitos, fazer leituras para a história ouvida. Teorizamos a prática do contador, buscamos uma hermenêutica que justifique a história e o imaginário do povo que deu origem ao conto. Contextualizamos e conceituamos esse conto.
Ao nos permitirmos àquela escuta flutuante ascenderemos à dimensão do mítico e do simbólico que é orientado pela percepção intuitiva. Experimentamos nossas representações e os sentidos que escorrem por elas, resignificamos nossa história a partir da história narrada e ampliamos nossa consciência superior. Ouvir uma história por meio dessa dimensão possibilita a criação de novas conexões com o nosso inteiror, tornando-nos mais despertos e possibilitando a subida a escalas superiores, em direção a dimensão do mistério, do indizível e inexplicável. Por meio desse nível, orientado pelo sagrado, cessam as diferenças ao unificar-se objeto e sujeito, pensamento à experiência, efetivo ao afetivo. Nessa religação entre o que estava fragmentado ocorre a transcendência, a restauração da inteireza do nosso ser e a vivência do pertencimento a algo maior.
Contar histórias ativa essas dimensões, esquecidas por não serem experienciadas e da qual fomos desconectamos, talvez sem saber, e lançados nas brumas do tempo com venda nos olhos. Essa vivência nos proporciona um contato com o vazio que tudo contém, com o silêncio que traz significações. Podemos dizer que ela nos coloca em contato com o Tao, Self, Deus. Seja qual for o conceito que atribuímos a ela, essa viagem interior nos religa ao todo e faz com que nos sintamos parte integrante do universo. Proporciona um alento para o espírito e traz uma confortável sensação de se estar em paz.
Ao refletir sobre esse aspecto da narração de histórias podemos ver o contador como uma espécie de xamã, que ao manipular forças invisíveis por meio do narrado, atua muito próximo da essência, onde tudo é imaterial e por meio do qual chegamos àquele canto da mente, onde tudo é silêncio, onde sou minha própria consciência. E o contador de histórias, ciente da sua função, ao lançar mão do seu corpo, voz, afetos, coração e significações pessoais, pode provocar poderosas alterações no seu ouvinte. Pode restaurar o riso esquecido, a autoestima perdida, a autoconfiança, fé e esperança na vida. Mas, se o contador não tiver sido tocado por essas luzes, se não fizer soar as histórias que podem nos conduzir a níveis superiores de consciência, sua narrativa será mais um passatempos, esvaziado de sentido, como os tantos entretenimentos oferecidos pela cultura dominante.
Então, que venham as boas histórias e um contador sensível e comprometido com ela. Que venham os contos, cantos e os encantos, para embalar nosso coração e restituir a esperança de que viver bem, sob quaisquer circunstâncias é possível para todos.

8 de out. de 2010

Três momentos na Bienal do Paraná

No Circo das Letras com o Formosos Monstros. Curadoria do espaço e apresentação diária. A conversa com os pequenos gira sobre, monstro existe ou não existe? Com os maiores dá pra discutir o processo de feitura dos vídeos do CD-ROM. Muita atenção e surpresa ao saber que dá tanto trabalho.
A menininha pergunta "isso é prá chamar o unicórnio?" 
instrumento para atrair unicórnios
No Café Literário a conversa foi pequenos leitores, grandes leitores, com Rodrigo Lacerda e mediação do editor do Gaz+, Cristiano Freitas. Vivemos um momento especial na recepção do livro literário no Brasil. Nunca se falou tanto em leitura e do texto ficcional. Jovem lê. Lê aquilo com que se identifica.

Um grupo me cerca. Participantes de uma oficina literária da escola onde estudam. Muita pergunta e a certeza de que iriam levar novidades pra casa, minha mãe que se prepare para ouvir.
Fórum sobre qualidade na literatura para crianças e jovens. É importante ouvir o jovem, dialogar com ele, saber o que ele deseja ler. Impor uma leitura só mantêm as coisas como vem sendo há décadas. A escola precisa ficar atenta pra isso ou permanece no seu papel autoritário de dizer o que é bom pra mim.

E assim foi !

4 de out. de 2010

O florista e a gata no Sagrado

Ana Cristina, professora das crianças, revelou, estavam ansiosos. Aqui está o grupinho. Terceiro ano do Colégio Sagrado. Ora, ser leitor também é uma escolha. Alguns preferem jogar bola; outros ver filmes; outros ainda, ouvir música. Há os que preferem ler. Agora, cá pra nós, criança sensiblizada por uma boa história, que encontra um bom mediador pelo caminho, que convive com o livro, esse dificilmente vai deixar de ser leitor quando crescer.
 Mil perguntas, curiosidade. Revelo que só a idéia não faz um livro. Depois temos um trabalho intenso e minucioso pela frente, para dar forma a essa idéia. Falo da busca das palavras certas e uma aluna logo concorda, "precisa ver se não repete muito a mesma palavra, porque não fica bom". Usa a palavra gata como exemplo. Aliás, os gatos renderam um bom papo.
Ana Cristina puxa o fio, eu vou atrás. A conversa é sobre os sentidos da leitura literária. Conto minha história de leitora e o significado de uma história primeira, aquela que descobriu a Cléo escritora. E eles se põem a predicar. Uma beleza. 
"É como se a gente sentisse os sentimentos dos personagens e vivesse dentro da historia", conclui Lilibeth. "Quando a gente lê um livro parece que a gente está vendo o que acontece com a história", diz Rodrigo. "A gente sente as emoções, parece que está dentro do livro e sente aquilo que os personagens estão sentindo", acrescenta Pedro.
Sim, crianças, é tudo isso e muito mais. As histórias nos despertam, tocam aquele cantinho escondido do nosso ser e às vezes, depois dela, até trocamos lágrimas por sorrisos.
O meu beijo pra vocês. Obrigada Ana Cristina, Luiza e Sagrado. Até a próxima história.

A estrela de Belém

Arquivo do blog