Mostrando postagens com marcador sentido. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador sentido. Mostrar todas as postagens
22 de out. de 2011
12 de out. de 2011
Ecos do Passaporte da Leitura
O menino trouxe flores, margaridas e outras, miúdas e lilases, embrulhadas numa folha de caderno, onde se lia, pra Cléo com um beijo. A menina, a gatinha branca. Os dois, entusiasmo e esperança. São os efeitos da literatura na alma da criança.
Isso aconteceu na 27º Feira do Livro de Caxias do Sul, no 7º Passaporte da Leitura, onde as escolas recebem livros do PPEL - Programa Permanente de Estímulo à Leitura, e olham para a obra do escritor com cuidado e inteligência. Um dos livros selecionados foi O Florista e a Gata.
Os maiores aproveitaram para refletir o trabalho infantil e concluíram, "criança não trabalha, criança dá trabalho". Se as repercussões da leitura tiveram esses desdobramentos é porque havia um mediador sensível e disponível para olhar a obra com carinho. Obrigada. Para mim, perceber que meu texto proporcionou essa deliciosa aventura, como eles a qualificaram, é o maior presente que posso receber no dia da criança.
22 de set. de 2011
O tempo da primavera em nós
Cuidar do jardim metaforiza o ato me cuidar, para fazer a primavera acontecer em mim. No meu inverno, tempo de recolhimento, calada eu gero, o que potencialmente já existe. Quando a primavera se aproxima, eu também devo limpar minhas sujeiras que impedem o livre respirar, cortar o galho que não tem mais seiva, me adubar com terra boa e nutrientes, renovar a consciência dos ciclos da natureza. Tudo nasce, cresce e morre. Até um pensamento, uma forma de se olhar.
Primavera é tempo de se florir, deixar surgir novas ideias, novas formas de se lidar com as coisas, de desapegar e permitir que o belo que nos habita se espalhe na superfície. Tempo de se maravilhar com a vida, que explode em cores e perfumes, se deixar tocar pelo sonho que origina o movimento para o novo. É tempo de ver as coisas com os olhos da alma, e se assombrar com o que poderá se enxergar.
29 de ago. de 2011
A memória e a história, tecendo sensibilidades
Fazia frio em Francisco Beltrão no dia da formação. O grupo dos professores de literatura se esquentava com chimarrão. Essa herança da cultura sulista está presente em várias cidades do interior do Paraná. Em vez de água se toma mate. Pois é, não há frio que resista ao mate... e uma roda de histórias.
A voz poética despertou a memória. A história de cada um reforça a identidade do sujeito narrador. Dela surgem vestígios de um passado distante, vozes ancestrais que um dia lhe contaram uma história.
A voz poética despertou a memória. A história de cada um reforça a identidade do sujeito narrador. Dela surgem vestígios de um passado distante, vozes ancestrais que um dia lhe contaram uma história.
Talvez o tataravô do tataravô a tenha ouvido e, nesse momento, vestígios genéticos se agitam no íntimo do seu ser, afirmando que aquela cena já foi sua. Logo depois, outra lembrança insiste em se tornar real. Alguém... Pai, mãe, avô, avó, quem? Quem ouviu essa história primeira, deitado na cama após o chá de capim-limão? Não importa, sem dúvida. Quando se acordam essas lembranças e se compartilha com os companheiros de roda, preserva-se não só a própria história, como se fortalece os laços que unem os sujeitos.
E foi assim, no dia chuvoso e frio. Saímos com a alma aquecida. O bom de lidar com a literatura é que o trabalho sempre tem gosto de diversão e arte.
12 de ago. de 2011
A narração oral como performance comunicacional
Contar histórias é uma arte rara, pois sua matéria prima é o imaterial, e o contador de histórias um artista que tece os fios invisíveis desta teia que é o contar. Ele é como um mágico, que faz aparecer o inexistente e nos convence que aquilo existe. Cria imagens no ar, materializa o verbo e transforma-se ele próprio nesta matéria fluida que é a palavra. Empresta seu corpo, sua voz e seus afetos ao texto que ele narra, e o texto deixa de ser signo para se tornar significado. Nos faz sonhar, porque consegue parar o tempo, nos apresentando um outro tempo.
Considerando os mais recentes estudos sobre oralidade, é consensual que a narração oral seja vista como representante de gêneros dramáticos contemporâneos. Ela vem marcada por atributos éticos e estéticos. Adquire um papel transgressor, crítico e político ao dar voz às minorias, recuperando a cidadania. Em alguns casos, o contador apropria-se da narração com o objetivo de despertar o riso, por meio do cômico que escorre das histórias apropriadamente escolhidas para esse fim; assume, dessa forma, uma objeção contra as forças opressoras.
A narração oral é política e transgressora quando agrega os ouvintes, seja na rua, na praça, e subverte o tempo linear, a pressa, quebra a resistência em ouvir a voz do outro, rompe as defesas do passante com a graça do contador, liberta o sujeito das normas e oferece indagações, questionamentos, alegria, riso, descontração, aproximação, harmonia, fraternidade.
Seus predicados estéticos se manifestam com o domínio do ritmo, a clareza das intenções e a capacidade de dar forma às palavras por meio de um corpo expressivo e expressão dos afetos. Isso lhe confere um espaço de reflexão nas recentes teorias literárias. Pode-se considerar aqui, que o texto transmitido oralmente se insere na categoria de performance, considerando performance, segundo E.Langdon, um ato de comunicação que se distingue de outros atos da fala principalmente por sua função expressiva ou poética. Isso faz da narração oral uma atividade artística, ainda que seja exercida fora dos domínios do palco tradicional. Que nosso palco para a fala bem dita seja o trabalho, a rua, a casa.
Esse texto faz parte do livro A arte de contar histórias no século XXI - tradição e ciberespaço.
9 de jul. de 2011
Jardim de Monet
Estive em férias por alguns dias, ainda que não fosse o período mais apropriado para me ausentar. Preferi mantê-las, porque elas estavam marcadas há meses e também, porque tenho me proposto a fazer acontecer esses intervalos de pausa, mesmo que seja durante períodos tumultuados. Olhar de fora esses momentos é um privilégio.
Decidi visitar o espaço onde Monet morou e criou sua obra. Com um entorno tão favorável a criação devia fluir harmonicamente. Os jardins de Monet são um modelo de diversidade. Tudo se mescla, cores, formas e perfumes. Eles foram construídos, pensados, traçados, mas as flores se misturam tão espontaneamente, que se chega a pensar que nasceram e cresceram sem a intervenção humana. As espécies interagem e se aceitam como são, algumas mais feias, outras mais bonitas. Da mais comum a mais sofisticada, elas mantêm sua personalidade.
Penso nas relações humanas e na dificuldade que temos de aceitar o feio, o torto, aquilo que segundo nossos critérios, não combina com as nossas boas qualidades. Rejeitamos o que não está completo, o que se choca com os padrões de bom comportamento. Aceitamos o que foi convencionado como desejável socialmente e nos inflamos de teorias para justificar e julgar o que não é do nosso agrado.
No jardim de Monet encontro o tom da reflexão. As flores tortas e já despetaladas também têm espaço por lá.
Decidi visitar o espaço onde Monet morou e criou sua obra. Com um entorno tão favorável a criação devia fluir harmonicamente. Os jardins de Monet são um modelo de diversidade. Tudo se mescla, cores, formas e perfumes. Eles foram construídos, pensados, traçados, mas as flores se misturam tão espontaneamente, que se chega a pensar que nasceram e cresceram sem a intervenção humana. As espécies interagem e se aceitam como são, algumas mais feias, outras mais bonitas. Da mais comum a mais sofisticada, elas mantêm sua personalidade.
Penso nas relações humanas e na dificuldade que temos de aceitar o feio, o torto, aquilo que segundo nossos critérios, não combina com as nossas boas qualidades. Rejeitamos o que não está completo, o que se choca com os padrões de bom comportamento. Aceitamos o que foi convencionado como desejável socialmente e nos inflamos de teorias para justificar e julgar o que não é do nosso agrado.
No jardim de Monet encontro o tom da reflexão. As flores tortas e já despetaladas também têm espaço por lá.
9 de jun. de 2011
Histórias para esquecer do frio
Num bilhete na cadeira se lê:
Comece fazendo o que é necessário. Depois o que é possível.
E de repente você estará fazendo o impossível.
Dito por São Francisco de Assis.
Espaço Paz e Bem.
Clique na Páginas ao lado e veja o que aprontamos
28 de mai. de 2011
A arte de cara nova
Eu insisti numa cara nova para o livro A arte de contar histórias no século XXI. Fui ouvida pela Vozes e o novo livro chegou. Na 3ª edição, ele ganhou um novo ar, mais conectado com o seu conteúdo, mais inspirador. A capa é um elemento importante para um livro; é sua apresentação; é quando ele diz alô para o leitor. Muitas vezes somos atraídos por uma capa. Só depois é que vamos ler as orelhas, folhear, e ler seu conteúdo. Eu gostei do resultado. E você?
16 de mai. de 2011
Entusiasmo e a condição de se manter dócil
Às vezes temos a impressão de estar no olho do furacão. As coisas acontecem vertiginosamente, sem nos dar tempo para elaborá-las. É fácil ser tomado pela cólera, perder o rumo, a cabeça, o humor. Na manhã de embarque para Poços de Caldas, rumo a Flipoços, descobri que estava sem a carteira de documentos, cartões... esses passaportes para o cotidiano. Claro, não embarquei. No primeiro momento veio um ”não acredito, não acredito”. Atenção, Cléo. Respirar, rir e solucionar, dizia a voz pacificadora. E lá vou eu, noutro voo, no final do dia, com mais algumas horas de estrada pela frente, dormir tarde, acordar cedo, cansaço, etc etc etc. Se não fosse a falta de atenção poderia ter feito o mesmo trajeto com mais tranquilidade, dizia a voz crítica e julgadora. Serena, serena, sugeria a voz do bem. E nesse impasse com as vozes internas, cheguei à cidade, até mais cedo do que previ. Cai num sono intenso.
No dia seguinte, a poucos momentos da abertura do evento, me dei conta que estava feliz por estar lá e falar aos professores sobre esse assunto que me encanta: oralidade e leitura literária. Mas, mais feliz ainda eu estava, por ter vivido os imprevistos do dia anterior com calma e por ter mantido a doçura comigo mesma. Naquele momento eu estava bem e alegre e era esse ânimo, essa energia que permearia minha fala. Assim foi. Deslizou.
Mais tarde, andando de volta ao hotel, cruzei com um professor que estava na palestra. Ele veio me cumprimentar e observou que meu entusiasmo foi contagiante. Sim, eu disse, acho importante estar neste estado de exaltação do espírito, por que isso implica em manter vivo o sopro criador, que nos faz cúmplices e participantes da vida. Entusiasmo é a força que me inspira, anima e me propulsiona a criar com amor. Isso quer dizer carregar Deus dentro de mim. Não dá para negar a dimensão do sagrado, nem mesmo numa fala científica. Creio que essa realidade deve ser vivida no dia-a-dia, não apenas nos templos. Sem ela a vida se torna árida e sem sentido.
Reafirmo em cada encontro literário, em cada discurso sobre os efeitos e afetos da leitura literária, a urgência em recuperar as dimensões não passíveis de experimentação, mas tão reais quanto distinguir um copo de água de um copo de vinho. Pneuma e psyché devem voltar a andar juntas com soma. Esse é o desafio da educação na contemporaneidade, integrar o que foi fragmentado e humanizar o ato de educar. Entusiasmar meus comparsas, esse é o tom.
Dias 4 e 5 de junho, workshop Contar e Encantar, em Curitiba.
No dia seguinte, a poucos momentos da abertura do evento, me dei conta que estava feliz por estar lá e falar aos professores sobre esse assunto que me encanta: oralidade e leitura literária. Mas, mais feliz ainda eu estava, por ter vivido os imprevistos do dia anterior com calma e por ter mantido a doçura comigo mesma. Naquele momento eu estava bem e alegre e era esse ânimo, essa energia que permearia minha fala. Assim foi. Deslizou.
Mais tarde, andando de volta ao hotel, cruzei com um professor que estava na palestra. Ele veio me cumprimentar e observou que meu entusiasmo foi contagiante. Sim, eu disse, acho importante estar neste estado de exaltação do espírito, por que isso implica em manter vivo o sopro criador, que nos faz cúmplices e participantes da vida. Entusiasmo é a força que me inspira, anima e me propulsiona a criar com amor. Isso quer dizer carregar Deus dentro de mim. Não dá para negar a dimensão do sagrado, nem mesmo numa fala científica. Creio que essa realidade deve ser vivida no dia-a-dia, não apenas nos templos. Sem ela a vida se torna árida e sem sentido.
Reafirmo em cada encontro literário, em cada discurso sobre os efeitos e afetos da leitura literária, a urgência em recuperar as dimensões não passíveis de experimentação, mas tão reais quanto distinguir um copo de água de um copo de vinho. Pneuma e psyché devem voltar a andar juntas com soma. Esse é o desafio da educação na contemporaneidade, integrar o que foi fragmentado e humanizar o ato de educar. Entusiasmar meus comparsas, esse é o tom.
Dias 4 e 5 de junho, workshop Contar e Encantar, em Curitiba.
9 de mai. de 2011
Flipoços 2011
O 1º Encontro da Educação, evento que aconteceu na VI Feira Nacional do Livro de Poços de Caldas, gerou algumas reflexões compartilhadas no Boletim de Maio. A grande alegria foi encontrar a Tatiana Belinky, homenageada da feira, estampada por todos os cantos.
Tatiana impulsionou minha carreira literária. No final dos anos 90 levei à sua casa um roteiro de peça para criança. Ela leu e proferiu, isso é um conto para crianças. Está praticamente pronto. Porque não pensa em publicar?
Levei a sério e anos mais tarde publicaria meu primeiro livro para crianças, Dorminhoco, que dedico a ela. Também levei a sério, quando ela disse que as historias são um treino par as emoções. Essa frase ficou ecoando dentro de mim e hoje, silenciosamente, agradeço Tatiana, porque cada vez que eu vou falar para um grupo de pessoas, sobre literatura, histórias escritas e narradas, ela surge na minha frente, com seu ar de pisciana dócil e sonhadora.
Tatiana faz parte desse pequeno universo de grandes pessoas que mudam a vida das outras. Ela mudou a minha, quando validou minha escritura e minha imaginação. Agora sou eu quem está aí, com essa tarefa de ler o outro e dizer, siga em frente.
Semana que vem estarei em Itaguaçu, nas montanhas do Espírito Santo. Todos os dias recebo dezenas de emails dos alunos, dizendo-se ansiosos pela minha presença. Que estão lendo meus livros, que gostam do que leem e que desejam que eu seja feliz na sua cidade. Eu serei, meus queridos. Com tanto carinho junto, como não seria?
A passagem por Poços foi rápida mais intensa. Os afetos que as pessoas lançam não se desfazem mais. Ao contrário, se materializam e deixam marcas no corpo, nos sentidos, no coração e no espírito. Poços de Caldas, eu volto para lá.
Tatiana impulsionou minha carreira literária. No final dos anos 90 levei à sua casa um roteiro de peça para criança. Ela leu e proferiu, isso é um conto para crianças. Está praticamente pronto. Porque não pensa em publicar?
Levei a sério e anos mais tarde publicaria meu primeiro livro para crianças, Dorminhoco, que dedico a ela. Também levei a sério, quando ela disse que as historias são um treino par as emoções. Essa frase ficou ecoando dentro de mim e hoje, silenciosamente, agradeço Tatiana, porque cada vez que eu vou falar para um grupo de pessoas, sobre literatura, histórias escritas e narradas, ela surge na minha frente, com seu ar de pisciana dócil e sonhadora.
Tatiana faz parte desse pequeno universo de grandes pessoas que mudam a vida das outras. Ela mudou a minha, quando validou minha escritura e minha imaginação. Agora sou eu quem está aí, com essa tarefa de ler o outro e dizer, siga em frente. Semana que vem estarei em Itaguaçu, nas montanhas do Espírito Santo. Todos os dias recebo dezenas de emails dos alunos, dizendo-se ansiosos pela minha presença. Que estão lendo meus livros, que gostam do que leem e que desejam que eu seja feliz na sua cidade. Eu serei, meus queridos. Com tanto carinho junto, como não seria?
A passagem por Poços foi rápida mais intensa. Os afetos que as pessoas lançam não se desfazem mais. Ao contrário, se materializam e deixam marcas no corpo, nos sentidos, no coração e no espírito. Poços de Caldas, eu volto para lá.
22 de abr. de 2011
Futebol, histórias e Páscoa
![]() |
| contos de Natal em Brusque, 2008 |
Quarta-feira, voltando de uma sessão de histórias, cruzamos com os torcedores do Atlético. Ao contrário do nosso passo, contemplativo e lento e do semblante quase em êxtase pelos afetos e efeitos da narrativa, os torcedores pisavam forte e suas caras contorcidas demonstravam insatisfação. Comentei com o narrador, como seria se esse mesmo público que vai aos estádios e participasse também das rodas de histórias.
A gente vai fazendo do jeito que sabe e acredita, sem esperar retornos. Apenas doamos aquilo que temos de melhor e deixamos a vida provocar as transformações. Apenas entregamos. Ah! Como é difícil a arte de entregar.
Que a Páscoa seja a renovação que a gente deseja pra nossa história e pra história do mundo.
16 de abr. de 2011
O eco das histórias (Boletim Abril)
Nas minhas andanças contando histórias chego também a lugares onde paira o signo da desarmonia, com barulho e gritos, tanto das crianças, como dos adultos que estão ali para orientá-las. Corre-corre e histeria disfarçada de educação. De cara penso, será que vou dar conta de narrar aqui? Inicio a sessão com uma rápida apresentação pessoal, no intuito de preparar o público para a escuta sensível, já que nesses espaços é necessário um tempo para que o silêncio se estabeleça para depois vingar o prazer e a entrega à batida leve e compassada das histórias. E assim se abre uma fenda para o maravilhamento no qual mergulhamos todos e 40 minutos de narrativa, se tornam incontáveis minutos de contentamento e comunhão com a fulgurância da ficção. Despeço-me do público e do espaço onde deixei as histórias. Ao virar as costas, novamente barulho e gritos. Uma pergunta ressoa no meu interior: como criar um movimento de sensibilização para a fruição literária e todos os desdobramentos que ela proporciona, se o ambiente em si deseduca e anda na contramão do que acabou de se propor, ou seja, um tempo de silêncio preenchido de sentidos, pela via da arte? Como andar pela dimensão da razão sensível (como quer Maffesoli) se os sujeitos responsáveis pelo ato de educar não seguem por essa via?
Ainda há muito que se fazer no campo da educação e a aprendizagem mais urgente, talvez seja caminhar com amorosidade, substituindo cara feia por sorriso, grito por canto, rigidez por acolhimento. Se o sujeito-educador não firma um acordo consigo próprio, de se educar, se flexibilizar e se transformar num sujeito mais humano, equilibrado e alegre, como dar conta de educar o outro?
A sociedade contemporânea sofre de muitos males. As pessoas andam sem brilho no olhar, tristes, intolerantes, azedas, cegas. Falta sentido para viver, dizem alguns. Por isso vale tudo, matar e morrer, dizem outros. E a tragédia, esmiuçada até as entranhas pelos meios de comunicação, acaba sendo o alimento para o monstro. E se produz ainda mais desesperança e desespero, que geram ainda mais desgraça, e mais tragédia, e mais divulgação da desgraça, e mais descrença, e mais tragédia, e mais... ufa!. Está formada a rede do desencantamento pela vida.
Ora, esse é o momento de desligar a TV, mudar o dial da rádio, o rumo da prosa e alimentar-se com aquilo que promove a esperança de um presente melhor, com o que traz leveza e alegria e recupera a confiança na vida. Aqui entram as histórias. Algumas têm o poder de aliviar as tensões do dia-a-dia, por nos levar para o mundo do faz de conta e do final feliz. Esse encontro com a fantasia restaura o gozo de viver.
Mas pra isso acontecer é importante que se respeite a força transformadora da história e se permita que ela ecoe no interior do ouvinte. É preciso aprender a ficar no silêncio e se permitir a ouvi-lo. Assim, vamos estabelecendo um outro signo, esse de harmonia e delicadeza. Vamos recuperando o sentido para vida, que nada mais é do que vivê-la bem.
13 de abr. de 2011
Histórias do leitor
Literatura só tem uma função, a de nos fazer sonhar. Mas é o sonho que cria a realidade. Uma pessoa me disse que tudo o que ela aprendeu deve aos livros. Estamos sempre aprendendo a ser, doando significados para aquilo que vivemos, num processo continuado de aprendizagens e a literatura se encarrega de nos auxiliar nessa caminhada.Ela nos pega pela mão e diz, venha, isso é o que eu tenho para lhe mostrar, e agora é com você, crie o sentido que melhor se encaixa para sua existência.
29 de mar. de 2011
318 anos - olhares para Curitiba - Curí - Tim
![]() |
| olhar de Cadi Busatto - kaingangs no século XXI |
Curí -Tim
Há muitos e muitos anos, essa terra, hoje chamada de Curitiba, foi habitada pelos Kaingang. Era uma terra fértil e disputada. Os pinhais se estendiam por toda parte. Na época das frutas apareciam caças e havia comida farta para os moradores.
O povo Kaingang vivia em harmonia e a natureza tudo lhe ofertava. Mas isso durou pouco. Logo, os portugueses que habitavam o litoral subiram a serra e começaram a disputar a terras, dificultando a vida do povo indígena, que resolveu se mudar para a região do Ivaí. Diante dos portugueses, o chefe Kaingang fincou no chão o seu bastão de chefe guerreiro e em sinal de paz exclamou:
- Curí-tim! que significa, vamos, depressa.
A vara fincada no chão brotou e floresceu. Os portugueses viram nisso um sinal de que ali brotaria uma grande cidade.O homem branco, que não conhecia a língua do povo Kaingang entendeu que Curí-Tim era o nome dado àquela terra.
Foi o povo Kaingang que deu nome a essa cidade, que a partir daí passou a se chamar Curitiba.
Lenda narrada Paulino Arakaxó, descendente do chefe indígena Kaingang, que cedeu aos portugueses o domínio da região onde se encontra a cidade de Curitiba.
17 de mar. de 2011
Andar no caminho de dentro (Boletim Março)
Minha relação com a terra é visceral. Sinto necessidade de ter os pés grudados no chão. Talvez por isso goste tanto de caminhar. Já saltei de paraquedas e mergulhei fundo no oceano. Mas o elemento que mais se aproxima da minha essência é a terra. Nela me reconheço e me encontro. Se não estou bem vou andar e logo, a terra-mãe traz a recuperação. Se estou bem vou andar e logo, ela promove a criação.
Para mim, o ato de andar está ligado ao conceito de peregrinação, enquanto metáfora do movimento de caminhar para dentro, em direção à alma. Quando caminho, não importa se no campo ou na cidade, na praia ou nas montanhas é para minha vida interior que estou caminhando. No silêncio do andar, entro num estado meditativo e contemplativo. Nele me reencontro, me regenero, restabeleço a ordem e me energizo.
Caminhar me leva àquele espaço entre mundos, onde me reconheço criadora e criativa. Nesse movimento ritmado e constante há uma alteração da consciência e dela surgem insights, brota a inspiração e a clareza. Quando acordo embaralhada pelas imagens noturnas, minha natureza pede o andar. A voz diz, agora levanta dessa cama e vai caminhar! Ouvir e respeitar essa voz sempre me conduz ao lugar certo.
Devagar, vou introjetando essa sabedoria e fazendo dela minha bússola. Reconhecer o que se aproxima da alma e promove o equilíbrio emocional é uma das tarefas do homem contemporâneo, já que se vive nesse rocambole de efeitos especiais, montado com o excesso de informações, superficialidade (e tragédias!). Se para isso o caminho é andar, que se ande.
15 de mar. de 2011
Entrevista Rádio UEL FM - 1ª parte
Modos de Vida desta terça-feira, dia 15, traz dois assuntos - uma conversa, por telefone,
com a escritora Cléo Busatto, que vive em Curitiba; e o som de um quarteto de jazz que nasce em Londrina: o Repentemudo.
Cléo Busatto teve dois livros selecionados para a feira internacional infanto-juvenil de Bolonha, na Itália, de 28 a 31 deste mês, e é uma vitrine internacional.
Na entrevista, ela conta o que significa ultrapassar fronteiras com sua literatura e como se nutre das histórias e afetos das pessoas para criar suas próprias narrativas.
O Modos de Vida é apresentado por Patricia Zanin.
http://www.uel.br/uelfm/audios/9850-Cleo_Busatto_e_jazz_com_Repentemudo_15-3.mp3
16 de fev. de 2011
Ficando com que é seu
Ele gritava, ela chorava. Assim passaram meses. Anos. Ela não era feliz. Tampouco ele. Um dia ele teve dor de garganta. Parou de falar. Ficou um dia sem gritar e ela achou bom. Dois dias no silêncio. Muito melhor. Três, quatro, cinco, seis. A dor não cessava. A garganta inflamada. O médico disse, poupe sua voz. Ele seguiu a recomendação, mas nem voz tinha mais.
Duas semanas se passaram e os gritos presos na garganta quiseram sair. Ela o irritava com sua mania de lixar as unhas em cima da mesa. Mas o grito não saiu. Ela e sua mania de comer biscoito enquanto zapeava a televisão também o irritava. Outra vez o grito não saiu. Ele engolia a raiva, a frustração de não poder dizer tudo que estava preso na sua garganta. A inflamação não passava. Um alívio, sim. Mas a voz não voltou.
Ela estava adorando a vida sem gritos, podia até ouvir o pulsar do seu próprio coração. Quanto tempo fazia que já não ouvia a voz do seu coração?
Chegou um tempo que os gritos sufocados na garganta começaram a sair pelos poros, pelas pontas dos dedos e ele bateu forte na mesa. Socou os travesseiros. Bateu forte na porta e, quando ela o confrontou nas suas verdades tortas, ele bateu forte nela e os gritos, todos os gritos ocultados na raiva do seu ser se transformaram num ato brutal.
Ele batia, ela chorava. Assim passaram os dias. Assim passaram meses. Anos. E quando perguntavam para ela, por que o aturava, ela respondia, porque eu o amo, porque ele é assim e é preciso aceitar as pessoas como elas são.
15 de jan. de 2011
Construindo minha sorte
Sempre considerei que o novo ano começa, quando a gente aniversaria. Tempo dos fins e dos começos. E isso aconteceu dia 05. Na passagem de 4 para 5, instante de reflexão. Limpei a casa de fora. Limpei a casa de dentro e me preparei para a virada de ciclo. Revi o que aprendi e o que insisti em não enxergar. Um aprendizado de grande valia é saber agradecer. E sou grata ao ano passado, porque ele me proporcionou bons presentes. Lancei livros, CDs, conheci gente linda nos quatro cantos do Brasil e me envolvi no sorriso das crianças. Contei história pra mais de mil. Mergulhei e me embalei na literatura. Recebi os melhores desejos e ouvi declarações infantis, que disseram mais que muita fala de gente grande cheia de saber.
Amei e fui amada. Bebi vinho com amigos e celebrei os 365 dias de surpresas e bem-aventurança. Olhei pra minha alma com mais atenção e carinho. Exerci a delicadeza e a flexibilidade. Revirei e limpei o porão. Curei dores antigas com afeto e chá quente. Soube aceitar a mão estendida, quando titubeei perante a vida. Andei no sol e mergulhei no mar. Senti o frio roçar meu rosto no alto das montanhas. Dancei pras deusas em noite de lua. Meditei. Orei. E ri e ri e ri. Também chorei e soube me acalentar pra acalmar. Olhei pra armadilhas que nos mantêm no estado de desânimo e desalento e disse pra elas que tinha coisa melhor a fazer. Fui corajosa. Olhei de frente pra sombra e tirei de lá coisas lindas, que estavam escondidas, perdidas. Ritualizei e sacralizei meu Eu. Me encontrei e gostei do que vi. Me amei e confirmei que a pessoa mais importante pra mim sou eu mesma e que só dessa forma posso amar o outro, estar com ele e lhe fazer bem.
E nesse 2011, eu prometo lhe oferecer as melhores histórias que eu conceber.
5 de jan. de 2011
Presente de aniversário - antes de tudo a minha boa companhia!
Sábado à tarde. Estou num ônibus. Calor e monotonia. Ele entra. Cabeleira branca e farta. Um livro nas mãos. Diz boa tarde em voz alta, para quem quiser ouvir. Olho de soslaio e respondo baixo, cabeça baixa - boa tarde.
- Não. Você não vai ter uma boa tarde, ele responde. Fico intrigada. O que ele vai me dizer agora? E já imagino um fanático religioso com um discurso pronto. Antes que eu pense em responder, ele me oferece seu desejo - você vai ter uma ótima tarde.
Senta ao meu lado, pergunta meu nome. Respondo. Animado, ele me interroga, olho no olho, só risos. - E o nome dele? questiona com sorriso maroto. De novo imagino uma resposta evangélica. Penso, lá vem um doutrinador de ônibus, que quer que eu responda, Deus!
Na dúvida pergunto - ele quem? - Ora, ele, o seu amor? - Ahhhh! suspiro aliviada - ele ainda não chegou. O homem dos cabelos brancos não se intimida, profetiza - ele chegará, meu amorzinho, chegará. Me diga...
Continua a olhar pra dentro de mim, carinhosamente, se fazendo próximo. - Qual o ser mais importante pra você? Continuo achando que a qualquer momento ele vai sacar a Bíblia e começar a pregação. Resolvo me antecipar e apontando com o dedo para o alto, respondo com a pergunta - o Pai?
Cabelos Brancos me surpreende. - Não, meu amorzinho! Você é que deve ser o ser mais importante pra você. Sabe aqueles dias que a gente está triste? Pegue seus problemas e tranque num cofre e se leve pra passear, ver vitrines. Vá a um bosque e pise na grama. Depois viaje até a Itália, comendo um espaguete all dente, com um copo de vinho.
E continuou afirmando que eu deveria ser a pessoa mais importante pra mim. Eu, ali, pequenina, olhos marejados, desacreditada, vazia. Cabelos Brancos fala de Gandhi, fraternidade, ser, fazer. - Livros fechados são nossos amigos esperando pra conversar conosco, confidencia. E canta para mim, com voz de tenor.
O ônibus segue seu trajeto. Já não é o mesmo.
E nesse meu aniversário reafirmo para mim, oferecendo à você este conto, que a pessoa mais importante para a gente somos nós mesmos.
- Não. Você não vai ter uma boa tarde, ele responde. Fico intrigada. O que ele vai me dizer agora? E já imagino um fanático religioso com um discurso pronto. Antes que eu pense em responder, ele me oferece seu desejo - você vai ter uma ótima tarde.
Senta ao meu lado, pergunta meu nome. Respondo. Animado, ele me interroga, olho no olho, só risos. - E o nome dele? questiona com sorriso maroto. De novo imagino uma resposta evangélica. Penso, lá vem um doutrinador de ônibus, que quer que eu responda, Deus!
Na dúvida pergunto - ele quem? - Ora, ele, o seu amor? - Ahhhh! suspiro aliviada - ele ainda não chegou. O homem dos cabelos brancos não se intimida, profetiza - ele chegará, meu amorzinho, chegará. Me diga...
Continua a olhar pra dentro de mim, carinhosamente, se fazendo próximo. - Qual o ser mais importante pra você? Continuo achando que a qualquer momento ele vai sacar a Bíblia e começar a pregação. Resolvo me antecipar e apontando com o dedo para o alto, respondo com a pergunta - o Pai?
Cabelos Brancos me surpreende. - Não, meu amorzinho! Você é que deve ser o ser mais importante pra você. Sabe aqueles dias que a gente está triste? Pegue seus problemas e tranque num cofre e se leve pra passear, ver vitrines. Vá a um bosque e pise na grama. Depois viaje até a Itália, comendo um espaguete all dente, com um copo de vinho.
E continuou afirmando que eu deveria ser a pessoa mais importante pra mim. Eu, ali, pequenina, olhos marejados, desacreditada, vazia. Cabelos Brancos fala de Gandhi, fraternidade, ser, fazer. - Livros fechados são nossos amigos esperando pra conversar conosco, confidencia. E canta para mim, com voz de tenor.
O ônibus segue seu trajeto. Já não é o mesmo.
E nesse meu aniversário reafirmo para mim, oferecendo à você este conto, que a pessoa mais importante para a gente somos nós mesmos.
31 de dez. de 2010
E no último post do ano só me resta agradecer
O ano de 2010 me proporcionou bons presentes. Lancei três livros e um DVD-ROM. Tive um conto republicado em revista e outros publicados em jornais. Conheci gente linda nos quatro cantos do Brasil. Encontrei uma legião de anjos na Bahia. Amorosidade em Minas. Acolhimento no Rio Grande do Sul. Fui envolvida pelo sorriso das crianças no Paraná, Bahia, Rio, São Paulo. Contei história pra mais de mil. Mergulhei e me embalei na literatura. Fiquei encantada com olhinhos brilhantes e descoberta por gente que eu nunca antes tinha visto. Recebi os melhores desejos e ouvi declarações infantis (nem tão infantis assim) que disseram mais que muita fala de gente grande cheia de saber.
Amei e fui amada. Bebi vinho com amigos e celebrei os 365 dias de surpresas e bem-aventurança. Olhei pra minha alma com mais atenção e carinho. Exerci a delicadeza e a flexibilidade. Curei dores antigas e limpei o porão. Soube aceitar a mão estendida, quando titubeei perante a vida. Andei no sol e mergulhei no mar. Senti o frio roçar meu rosto. Dancei pras deusas em noite de lua. E ri e ri e ri. Também chorei e soube me acalentar para acalmar. Olhei pra armadilhas que nos mantêm no estado de desanimo e desalento e disse que tinha coisa melhor pra fazer. Fui corajosa. Olhei de frente pra sombra e tirei de lá coisas lindas que estavam escondidas, perdidas. Ritualizei e sacralizei meu Eu. Me encontrei e gostei do que vi. Me amei.
E, ao findar das luzes desse ano, chega outro presente. Vem do Norte. Dois livros de poesia e uma carta escrita à mão, com recortes de revista comentando fatos. Coisa impensável nesses tempos. Quem hoje se dá ao trabalho de fazer um presente? Sua autora, sim. Conheço seu coração, mesmo nunca a ter visto. É Giselle Ribeiro, uma encantada de Belém. http://giselle-ribeiro-aprendiz-de-poeta.blogspot.com/
É com um poema do seu livro 69, eu encerro o ano. Fica como um brinde ao amor.
Tatuagem
Cola
em meu corpo
como tecido fino
ou veludo.
Quero
o afago da tua pele,
nossas roupas no varal...
e tudo o que nos revele.
Assinar:
Postagens (Atom)
-
Livro selecionado para o PLND 2013 - Obras complementares. Arte minha, da Claudia Ribeiro Mesquita, Graziela Costa Pinto e Flávio Fa...
-
Amigos, por uma bagatela de R$ 6,90 você leva para casa essa edição especial da revista Escola - Contos - uma seleção de 27 textos para le...
Arquivo do blog
Marcadores
- amor
- arte
- Brasil
- CD-ROM
- cidade
- conto mínimo
- criança
- Curitiba
- educação
- entrevista
- espetáculo
- florista
- formosos monstros
- gato
- inclusão digital
- internet
- leitor
- livro
- manifesto do contador de histórias
- memória
- mitologia
- mundo
- narração oral de histórias
- oralidade
- performance
- sagrado
- sentido
- sonho
- tempo
- transdisciplinaridade












