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2 de jun. de 2012

I Meeting Nacional de Educação Tecnologia


"Se a educação sozinha não pode transformar a sociedade, tampouco sem ela a sociedade muda (Paulo Freire, 2000). 
I Meeting Nacional de Educação é um evento que busca trazer à discussão temas de grande relevância, bem como, relembrar e aprofundar conhecimentos e ampliar a troca de experiências entre os congressistas das várias Instituições e níveis de ensino.
Entendemos a necessidade da transformação que no que tange à estruturação dos sistemas educativos e à construção de práticas educacionais que atendam à diversidade. Por meio dos diálogos com teorias científicas pertinentes, políticas públicas, práticas pedagógicas e pesquisas realizadas na área, para que possam contribuir para um aprofundamento sobre as relações entre inclusão e educação, igualdade e diferença, na sua complexidade e multidimensionalidade, e instrumentalizar os educadores para o exercício de seu papel como agentes da inclusão sociocultural."



21 de mai. de 2012

Desconstruindo o medo


  
   Certa vez fui a uma escola de educação infantil contar lendas brasileiras. Entre elas a história do Papa-Figo, monstrengo herdado da tradição oral africana, um devorador do fígado das crianças mentirosas. Com uma narração lúdica e bem humorada, o conto se encaixou entre outros mais conhecidos, como Caipora e Cobra Norato. No final da apresentação, algumas crianças exorcizaram o medo me enfrentando ao dizer:
   - O Papa-Figo vai comer o teu fígado. O Papa-Figo vai comer o teu fígado.
   Eu me diverti com a argúcia dos pequenos, afinal eu contei uma mentira para eles, Papo-Figo não existe. Ao voltar à escola, a diretora comentou que no dia seguinte, várias mães reclamaram do programa narrativo, pois seus filhos ficaram com medo e não quiseram dormir de luz apagada. Na época, dez anos atrás, discorri sobre a importância dos contos na formação da criança e as possibilidades que eles abrem para se lidar com os afetos.
   Os Irmãos Grimm têm um conto que aborda esse tema. Chama-se O rapaz que saiu em busca do medo. O personagem quer experimentar esta sensação de que todos falam, mas que ele não conhece. É assim que as histórias nos preparam para a vida e nos oferecem a possibilidade de reconhecer os sentimentos por meio da sua linguagem fantasiosa. Não identificar esta qualidade dos contos significa deixar escoar pelos dedos uma rica possibilidade de aprendizagem.
   Também sugeri a retomada do tema moldando em argila o monstro que coabitava a cama das crianças, para em seguida desconstruí-lo. Essa é uma abordagem para lidar com afetos difíceis. Assumir sua presença e o desconforto que eles provocam. Impedir que a criança conviva com o medo só irá inibi-la de descobrir a coragem, pois só saberemos de um ao experimentar o outro. Ao sufocar o medo e demais sentimentos dessa natureza, apenas lhes conferimos mais poder. Mais acertado seria aceitá-los como condição do momento, trazê-los para perto e sentir o que eles têm a dizer. E no tempo certo deixá-los ir, cientes de que não fazem mais sentido. Acolher a complexidade dos afetos humanos é se educar para ser livre e ampliar a consciência sobre si mesmo.

14 de nov. de 2011

Titicaca, um mestre


O Titicaca encanta e desconcerta. Viver sobre um chão de totora trançada sob um lago de 200 metros de profundidade não é pra qualquer espírito. É preciso desapego e amor pelas águas e por Mamma Kotta, a mamma del lago, a divindade que os protege, naquela imensidão de água doce. Os povos do lago sabem disso.
- Nossos avós já sabiam que há muitos mistérios em Uros e que não se pode viver ali. Por isso agradecemos a Mamma Kotta, pedimos proteção e permissão para viver nela. Temos muito respeito por Mamma Kotta.

Assim fala Rita, uma moça linda de olhos negros e brilhantes, sorriso aberto e com muitas histórias pra contar, tal como seus avós, os contadores de histórias do seu povo. Ela veio a mim como um presente da deusa. Rita é uma das moradoras das ilhas flutuantes de Uros. Na sua comunidade, Chantati, vivem seis famílias. Ela ocupa a função de regidora, a representante das mulheres de Uros.

Rita fala com entusiasmo da sua casa, as plataformas de junco do Titicaca, onde nasceu e pretende ficar. Como está acostumada com o pisar macio da esteira flutuante, andar na terra lhe cansa muito. Contou que numa ocasião foi visitar Taquile, outra ilha do lago, porém de terra e, que após atravessar dois montes já não tinha forças. Estranhou o lugar e tinha necessidade de ver a água de perto e tocar as totoras, o junco que lhes serve de chão, matéria prima da casa e dos barcos que os conduzem a outros sítios, nessa região inóspita e de ar rarefeito, a quase 4.000 metros acima do nível do mar. Saudade de tocar a totora, sua comida e combustível pro fogo.

- O lago nos dá força e energia. Eu não poderia viver na terra. Para mim é uma graça, meus pais terem me dado à luz em meio ao lago. É uma emoção única dormir e despertar com as aves, vendo as estrelas, o céu azul, acordar com o sol.  Para mim é o paraíso.

E as crianças? Elas brincam nesse pedacinho de chão dourado e quando se trata de estudar são iguais às outras crianças do mundo, deixam as tarefas escolares pra última hora e muitas vezes resolvem isso no caminho, ou seja, no barco que as leva até a escola, também no lago. Pequeninas e já enfrentado o Titicaca. Há que se ter coragem para vicejar no Titicaca. 

12 de out. de 2011

Ecos do Passaporte da Leitura



O menino trouxe flores, margaridas e outras, miúdas e lilases, embrulhadas numa folha de caderno, onde se lia, pra Cléo com um beijo. A menina, a gatinha branca. Os dois, entusiasmo e esperança. São os efeitos da literatura na alma da criança. 
Isso aconteceu na 27º Feira do Livro de Caxias do Sul, no 7º Passaporte da Leitura, onde as escolas recebem livros do PPEL - Programa Permanente de Estímulo à Leitura, e olham para a obra do escritor com cuidado e inteligência. Um dos livros selecionados foi O Florista e a Gata

Os maiores aproveitaram para refletir o trabalho infantil e concluíram, "criança não trabalha, criança dá trabalho". Se as repercussões da leitura tiveram esses desdobramentos é porque havia um mediador sensível e disponível para olhar a obra com carinho. Obrigada. Para mim, perceber que meu texto proporcionou essa deliciosa aventura, como eles a qualificaram, é o maior presente que posso receber no dia da criança.

29 de set. de 2011

Itapiranga e o rio - De caso com a letra I, parte 3

O município de Itapiranga fica no final de Santa Catarina, do ladinho da Argentina, na esquina do Rio Grande do Sul, ao lado do rio Uruguai. O Uruguai não é um rio qualquer. Tem alguma coisa de mítica boiando nele. Às margens do Uruguai, eu contei histórias de outros rios despertando nas pessoas o imaginário da água. Água evoca vida, purificação, regeneração. Os personagens enfeitiçados dos contos de fadas banham-se na água, e recuperam a forma inicial. Rio sugere a imagem da fertilidade e da fluidez. Se deixar levar. Foi uma passagem meteórica abaixo de chuva, mas o suficiente para ser tocada pelo rio e mexida pelas emoções despertadas pela água. Fico imaginando como deve ser estudar numa escola com uma vista como aquela. Falei sobre leituras e leitura literária, e como as histórias podem resignificar nossas vidas. Na plateia, seiscentos educadores que nem piscavam, feito criança sendo levada pela fantasia.
    Antes, eu é que fui seduzida pela apresentação artística dos pequenos. Uma turminha de três anos brincou de encenar a história da Branca de Neve e seus anões. Lá eram anões pra mais de dez. Deixaram-se levar pelo faz de conta, embalados e conduzidos pela narrativa envolvente da professora. Um encanto. São projetos dessa natureza, com profissionais assim comprometidos, que reafirmam que a educação ali vai bem.
O convite que partiu da Coordenação dos Cursos de Licenciatura, da Faculdade de Itapiranga possibilitou a continuação do me caso com a letra I.
 Depois de Itaguaçu e Ibirama, Itapiranga. Sempre que embarco para essas regiões distantes, me sinto uma caixeira das letras, como sugeriu um amigo, quando falei que parecíamos caixeiros-viajantes. Gosto desse movimento. Ainda que o cansaço se manifeste, por conta dos deslocamentos, inúmeras esperas nos aeroportos, trechos por terra, quando concluo o trabalho e acolho os retornos dos participantes, sinto-me recompensada.
Percebo-me útil e cumprindo meu papel social, afinal é isso que deixo para o mundo, é pra isso que estou aqui, pra compartilhar meus saberes, e o que volta pra mim dinamiza minha produção e compreensão de mundo, de vida e das relações. E a roda gira. Outra vez eu vou, doo alegria (e lembro-me das palavras de Bachelard, a imaginação trabalha mais onde vai uma alegria!), recebo amor, produzo novas histórias e me sinto bem.

25 de ago. de 2011

FELIT – 1ª Feira Literária de São Bernardo do Campo



Dia 04 de agosto estive na FELIT, a feira do livro infantil e juvenil de São Bernardo do Campo. Foi a primeira edição de um evento que promete. Em parceria com a FNLIJ, a Prefeitura Municipal e a Secretaria de Educação, investiram na formação literária dos pequenos.  A conscientização de que a leitura literária é um caminho seguro para a formação de sujeitos-cidadãos livres, criativos e criadores, levou o município a fazer um investimento significativo, onde o livro de baixa qualidade não teve vez. Sorte dos pequenos, que saíram de lá com seu exemplar de qualidade.
Existe critério para a escolha do livro literário, sim, e essa escolha é fundamental, quando se pensa em educar para o século XXI. Reafirmar os sentidos para uma existência plena, onde as diferentes dimensões do ser têm espaço garantido, onde as diferentes linguagens são asseguradas, pede a mediação da arte  literária. Ela é uma ponte segura para o acesso a esses níveis refinados de consciência. 
A Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil atua seguindo esses e outros princípios, que valorizam o livro literário, e reasseguram seu espaço no imaginário dos pequenos leitores.  E, ciente disso, organiza feiras que prioriza a inteligência das crianças e dos jovens e a qualidade do que apresenta. Ganha todo mundo. O público, o autor, a editora e as instituições envolvidas. 
Passavam por lá, aproximadamente 4.000 crianças por dia, e eu devo ter falado para umas 600 ou mais. Lindas, atentas e participantes. A gente sabe como é a dinâmica das feiras de livro. Tudo acontece simultaneamente, há barulho e muitos focos para distração, mas nada disso tirou a atenção dos pequeninos. Falei para os alunos da educação infantil. Li trechos dos meus livros, propus brincadeiras com a linguagem, e improvisações sonoras com as onomatopeias sugeridas pelo texto. Eles se divertiram e eu com eles. 
 Esse é um bom caminho para formar leitor, apresentando a literatura no seu suporte mais acessível, o livro. 
Leitor se forma lendo, nessa interação afetiva, entre o sujeito que lê, o sujeito que ouve e o sujeito livro. Quando os pequenos leitores se encontram com um mediador sensível e sensibilizado pelo texto literário, a leitura acontece de forma natural, agradável e envolvente. Quem disse que  criança não gosta de ler? Só quem nunca se encantou com um livro literário.   

19 de ago. de 2011

(De caso com a letra I, parte 2) Ibirama, ligada pelos bits

criança ouvindo história se larga no chão
Os caminhos que nos levam às pessoas e aos lugares são diversos. Nesse tempo de tecnologia digital somos encontrados e conectados por esse meio. As redes aproximam pessoas. Ter um blog ou um site no ar é se mostrar ao mundo. Há vantagens e desvantagens nesse universo. Depende de como nos apropriamos dele. Às vezes nos expõem perigosamente, outras favorece trocas de saberes e afetos.

Com Ibirama foi assim, um encontro virtual, que se iniciou por um email que dizia, Cléo, sou uma leitora e apreciadora do seu trabalho. Alimentado amorosamente através de outros emails, e quando a gente se deu conta, tínhamos encontro marcado. Quase um caso virtual, não fosse a materialização, após inúmeros acordos. E foi um caso de amor a três, eu, Neusa e Rosimeire, coordenadoras da NTE Ibirama, mulheres incansáveis, profissionais dedicadas e competentes. E gracinhas!  Meus casos são sempre bem escolhidos. 

Nosso encontro aconteceu em julho, na FLEITEC, 2ª Feira da Leitura e das Tecnologias, onde falei sobre essa pesquisa (?) brincadeira (?) investigação (?),  céus, que nome dou a essa curiosidade digital, que originou os CD-ROMs de narração de histórias nesse meio? O certo é que o resultado é mais do que uma mídia de histórias. É um software que apresenta múltiplas possibilidades para o professor trabalhar  a inclusão digital.

E, nesses eventos a gente amplia os casos, conhece pessoas, ouve histórias. Foi assim durante a viagem de ida, numa interminável espera pela liberação da rodovia, fechada por conta de um acidente. Mas, eu estava bem acompanhada e distraída pelas brincadeiras e bons  humores dos meus companheiros, os meninos da Secretaria da Educação, Luiz e Ricardo e a doce contadora Felícia. 

Com a cidade, o caso de amor ainda está se construindo. Marcamos um segundo encontro, na inauguração da tirolesa. Serei a segunda a descer. Ai terá se estabelecido outro caso de amor! 

14 de jun. de 2011

Desempacotar as emoções


Quando se está aberto para receber vem um presente atrás do outro. Maio foi o mês de Itaguaçu. Quinze dias na cidade de quinze mil habitantes, plantada no interior do Espírito Santo. Bendito Espírito Santo. O que coloca no meu caminho mil e quinhentas crianças encantadas, pequenas faíscas de luz pipocando em olhos multicoloridos? Quando estamos prontos, as coisas chegam redondinhas, saborosas, feito os quitutes da cidade. Ah, os pães de Itaguaçu... Só mesmo mãos generosas para sovar aquela maciez. E os presentes vêm na forma de fruta, doce, comida, sorrisos e abraços. A gente fica gorda de tanto afeto e o peito expande, quando se toma conhecimento dos significados que a Feira Literária lançou na cidade. Um menino diz que para ele, a feira despertou a beleza com o encantamento das apresentações e o sentimento espiritual. Ora, também fiz parte desse processo, que para essa criança se revelou no Belo e no Mistério e gerou sua fala inspirada, registrada num bilhete escrito a lápis e com letras tortas.

Depois, os presentes vieram do workshop de narração de histórias. Foram tantos. Uma participante diz, ela nos desempacotou. A menina de nove anos conta sua história com estrutura literária, e em seguida chora ao falar da saudade que sente do irmão, que morreu recentemente. Só dá mesmo para acolher e acalentar pela via do poético e do sensível. A história como sujeito. A memória como espaço mítico. A técnica como caminho. O repertório como meio. A narração como um ato de entrega. Foi por aí que a gente andou naquele final de semana friozinho e de céu azul.

Como dimensionar a forma com que nossa arte e expressão chegam até o outro? Como saber o que vamos provocar, quando desempacotamos emoções? Não sei. Sei apenas que é importante estar sempre como um grande coração, silencioso, escancarado, afável e receptivo. Aí não paramos de receber dádivas. E penso na formação do profissional da educação. Nas práticas e teorias, aprisionadas e empobrecidas, porque restritas a dualidade corpo/mente. E penso num processo por onde se pode transitar desse modelo binário de ver e atuar no mundo, para outro, circular e ampliado pelas múltiplas inteligências, pelas múltiplas dimensões, que abarca também o mítico e o sagrado no cotidiano. Dessa forma, dá para gente abrir as mãos e voltá-las para cima e aceitar o que vem do alto, ainda que isso nos provoque alguma dor. Mas só assim nos tornaremos mais inteiros e por fim mais felizes e gratos pelo que a vida nos dá.

22 de abr. de 2011

Futebol, histórias e Páscoa


contos de Natal em Brusque, 2008
Quarta-feira, voltando de uma sessão de histórias, cruzamos com os torcedores do Atlético. Ao contrário do nosso passo, contemplativo e lento e do semblante quase em êxtase pelos afetos e efeitos da narrativa, os torcedores pisavam forte e suas caras contorcidas demonstravam insatisfação. Comentei com o narrador, como seria se esse mesmo público que vai aos estádios e participasse também das rodas de histórias.
A gente vai fazendo do jeito que sabe e acredita, sem esperar retornos. Apenas doamos aquilo que temos de melhor e deixamos a vida provocar as transformações. Apenas entregamos. Ah! Como é difícil a arte de entregar.
Que a Páscoa seja a renovação que a gente deseja pra nossa história e pra história do mundo.

18 de abr. de 2011

Viva Lobato

                                                    O   orgulhoso
Monteiro Lobato

Era um jequitibá enorme, o maior da floresta. Mas orgulhoso e gabola. Fazia pouco das árvores menores e ria-se com desprezo das plantinhas humildes. Vendo a seus pés uma tabua, disse:
- Que triste vida levas, tão pequenina, sempre  à beira d´água, vivendo entre saracuras e rãs.. Qualquer ventinho te dobra. Um tisiu que pouse em tua haste já te verga que nem bodoque. Que diferença entre nós! A minha copada chega às nuvens e as minhas folhas tapam o sol. Quando ronca a tempestade, rio-me dos ventos e divirto-me cá do alto a ver os teus apuros.
- Muito obrigado! – respondeu a tabua ironicamente.  Mas fique sabendo que não me queixo e cá à beira d´água vou vivendo como posso. Se o vento me dobra, em compensação não me quebra e , cessado o temporal, ergo-me direitinha como antes. Você, entretanto ...
- Eu, o quê?
- Você, jequitibá, tem resistido aos vendavais de até aqui; mas resistirá sempre? Não revirará um dia de pernas para o ar!
- Rio-me dos ventos como me rio de ti - murmurou com ar de desprezo a orgulhosa árvore.
Meses depois, na estação das chuvas, sobreveio certa noite uma tremenda tempestade.  Raios riscavam um atrás do outro e o ribombo dos trovões estremecia a terra. O vento infernal foi destruindo tudo quanto se opunha à sua passagem.
A tabua, apavorada, fechou os olhos e curvou-se rente com o chão. E ficou assim encolhidinha
Até que o furor dos elementos se acalmasse e uma fresca  manhã de céu limpo sucedesse àquela noite de horrores. Ergueu, então, a haste flexível e  pode ver os estragos da tormenta. Inúmeras árvores por t erra, despedaçadas, e entre as vítimas  o jequitibá orgulhoso, com a raizama colossal à  mostra...

Quanto maior a altura, maior o tombo...

- Que é tabua, vovó? - perguntou Pedrinho.
- Ora meu filho! Então não sabe o que é tabua? –
- Sei  o que é tábua ...
- Pois  tabua é uma planta da família das tifáceas, muito comum aqui nos nossos brejos e de cujas folhas, compridas como espadas, a gente da roça faz esteiras.  
- Ah,  sei! É até uma planta muito importante, a mais importante de todas, porque a gente da roça só dorme em esteira. Mas eu não digo tabua, vovó, digo piri.
- Piri é planta parecida, meu filho, não é a mesma.
Emilia achou que a moralidade da fábula estava certa, mas...
- Mas o que, Emília?
- Mas entre ser tabua e ser jequitibá prefiro mil vezes ser jequitibá. Prefiro dez mil vezes!
- Por quê?
-Por que o jequitibá é lindo, é imponente, é majestoso, só cai com as grandes tempestades; e a taboa cai com qualquer foiçada dos que vão fazer esteiras. E depois que viram esteiras tem de passar as noites gemendo sob o peso dos que dormem em cima – gente feia e que não toma banho. Viva o jequitibá.
Dona Benta não teve o que dizer.

16 de abr. de 2011

O eco das histórias (Boletim Abril)

Nas minhas andanças contando histórias chego também a lugares onde paira o signo da desarmonia, com barulho e gritos, tanto das crianças, como dos adultos que estão ali para orientá-las. Corre-corre e histeria disfarçada de educação. De cara penso, será que vou dar conta de narrar aqui? Inicio a sessão com uma rápida apresentação pessoal, no intuito de preparar o público para a escuta sensível, já que nesses espaços é necessário um tempo para que o silêncio se estabeleça para depois vingar o prazer e a entrega à batida leve e compassada das histórias. E assim se abre uma fenda para o maravilhamento no qual mergulhamos todos e 40 minutos de narrativa, se tornam incontáveis minutos de contentamento e comunhão com a fulgurância da ficção.
    Despeço-me do público e do espaço onde deixei as histórias. Ao virar as costas, novamente barulho e gritos. Uma pergunta ressoa no meu interior: como criar um movimento de sensibilização para a fruição literária e todos os desdobramentos que ela proporciona, se o ambiente em si deseduca e anda na contramão do que acabou de se propor, ou seja, um tempo de silêncio preenchido de sentidos, pela via da arte? Como andar pela dimensão da razão sensível (como quer Maffesoli) se os sujeitos responsáveis pelo ato de educar não seguem por essa via?
    Ainda há muito que se fazer no campo da educação e a aprendizagem mais urgente, talvez seja caminhar com amorosidade, substituindo cara feia por sorriso, grito por canto, rigidez por acolhimento. Se o sujeito-educador não firma um acordo consigo próprio, de se educar, se flexibilizar e se transformar num sujeito mais humano, equilibrado e alegre, como dar conta de educar o outro?
    A sociedade contemporânea sofre de muitos males. As pessoas andam sem brilho no olhar, tristes, intolerantes, azedas, cegas. Falta sentido para viver, dizem alguns. Por isso vale tudo, matar e morrer, dizem outros. E a tragédia, esmiuçada até as entranhas pelos meios de comunicação, acaba sendo o alimento para o monstro. E se produz ainda mais desesperança e desespero, que geram ainda mais desgraça, e mais tragédia, e mais divulgação da desgraça, e mais descrença, e mais tragédia, e mais... ufa!. Está formada a rede do desencantamento pela vida.
    Ora, esse é o momento de desligar a TV, mudar o dial da rádio, o rumo da prosa e alimentar-se com aquilo que promove a esperança de um presente melhor, com o que traz leveza e alegria e recupera a confiança na vida. Aqui entram as histórias. Algumas têm o poder de aliviar as tensões do dia-a-dia, por nos levar para o mundo do faz de conta e do final feliz. Esse encontro com a fantasia restaura o gozo de viver.      
    Mas pra isso acontecer é importante que se respeite a força transformadora da história e se permita que ela ecoe no interior do ouvinte. É preciso aprender a ficar no silêncio e se permitir a ouvi-lo. Assim, vamos estabelecendo um outro signo, esse de harmonia e delicadeza. Vamos recuperando o sentido para vida, que nada mais é do que vivê-la bem.

15 de mar. de 2011

Entrevista Rádio UEL FM - 1ª parte

Modos de Vida desta terça-feira, dia 15, traz dois assuntos - uma conversa, por telefone,
com a escritora Cléo Busatto, que vive em Curitiba; e o som de um quarteto de jazz que nasce em Londrina: o Repentemudo.
Cléo Busatto teve dois livros selecionados para a feira internacional infanto-juvenil de Bolonha, na Itália, de 28 a 31 deste mês, e é uma vitrine internacional.
Na entrevista, ela conta o que significa ultrapassar fronteiras com sua literatura e como se nutre das histórias e afetos das pessoas para criar suas próprias narrativas.
O Modos de Vida é apresentado por Patricia Zanin.

http://www.uel.br/uelfm/audios/9850-Cleo_Busatto_e_jazz_com_Repentemudo_15-3.mp3

24 de fev. de 2011

Feira de Bolonha

 
                                                                  Duplamente feliz
                         
                         Meus livros

O Florista e a Gata (Biruta) 
 Histórias de quem conta Histórias (Cortez)
 selecionados pela FNLIJ para a
48º Feira de Bolonha 2011
focada em literatura infantil e juvenil.
A feira acontecerá em março.



9 de fev. de 2011

Brincando com o medo

Outro ponto alto no evento a Cortez. Apresentação do vídeo Lobisomem.
Ah, sim! Solicitado por um menino de cinco anos.
(CD-ROM Lendas Brasileiras).

8 de fev. de 2011

Divirtindo-se com a velha

Ponto alto no evento da Cortez.
A leitura com a participação da plateia, do livro Pedro e o Cruzeiro do Sul (SM).

8 de jan. de 2011

Leitor se forma lendo

No Caderno G Ideias, Gazeta do Povo, 8 de janeiro, artistas do Paraná discutem os rumos da cultura no próximo governo. Em tempos de fomento da leitura literária, um entrevistado diz que "é preciso evitar essas bienais de livro, que são caça-níqueis de empresas de fora do estado (...)", etc etc etc.
 
Não concordo com essa declaração. Considero-a xenofóbica e retrógrada. Ora, uma feira de livro serve justamente para o escritor se relacionar com seu leitor, veicular suas ideias, além de divulgar e vender seu livro. Esses espaços são necessários, ainda que venham na roupagem comercial. Não dá para dissociar cultura da dimensão econômica. Ela é apenas uma parte dessa cadeia de promoção do livro e da leitura. Temos mais é que ter uma, duas, dez feiras anuais, que promovam o livro e estimulem a sua circulação.

Essa visão provinciana mantém o livro na categoria de uma produção cultural elitista e privilégio de poucos, invés de vê-lo como um produto ao alcance de todos. Não dá para esquecer que as últimas pesquisas sobre leitura revelam que apenas metade dos brasileiros é leitor, considerando leitor o sujeito que leu ao menos um livro nos últimos três meses.

É importante que o livro – e aqui abro um parêntese para o livro literário – ocupe o imaginário das pessoas e passe a fazer parte do seu cotidiano, como faz a televisão, o rádio, o cinema. A Bienal do Livro do Paraná, em 2010, foi visitada por cerca de 10.000 crianças. Praticamente 90% delas vieram das escolas públicas e posso afirmar que 70% dessas crianças nunca tinha ido a um espaço de livros, seja uma feira ou até mesmo uma livraria.


Com certeza deve-se associar o livro à educação e criar mecanismos para sua fixação na comunidade. A política cultural deve prever ações nas bibliotecas e noutros espaços onde ele se encontra, como bate-papo com autores, círculos de leitura em voz alta (mediada por um adulto, quando se trata do público infantil), rodas de história e associar o livro à outras manifestações artísticas. Como também estabelecer ações que democratizem e facilitem sua aquisição, como o seu barateamento, a instituição de vale-livro. Aliás, o livro deveria fazer parte da cesta básica do brasileiro.

Afinal, só nos tornaremos um país de leitores se tivermos o livro em mãos, para ler. Leitor se forma lendo.

26 de dez. de 2010

Rede Criança e Paz

 Rede Criança e Paz é uma rede virtual dedicada a promover os direitos das crianças garantidos pelo artigo 227 da Constituição Federal. A rede é uma organização não estruturada hierarquicamente que visa conectar pessoas comprometidas com a proteção, cuidado e educação de crianças desde a gestação, e com a difusão da cultura de paz.
Tem como premissa que a primeira infância é fundamental para o desenvolvimento humano e que o que for feito em prol da criança nesta fase da vida, tem impacto em seu desenvolvimento e na situação social e econômica do país.
Missão: Ser um espaço para conexão e reflexão e ação coletiva sobre temas relacionados à primeira infância e cultura de paz.
Visão: Ser uma referência no processo de transformação qualitativa da realidade da Primeira Infância.

http://redecriancaepaz.ning.com/

23 de dez. de 2010

Meu presente de Natal para você

Era noite da Natal. Os três andavam pela estrada vazia. O pai, a mãe e a filha. Caminhavam sem rumo, de mãos dadas. Não tinham casa, seu lugar era o mundo. Paravam aqui e acolá. Comiam o que era oferecido, o que a terra lhes dava. Os três andavam esperançosos, olhos no horizonte, atentos para o lar que a qualquer hora iriam encontrar.

O pai punha a menina na garupa e a mãe cantava uma melodia antiga que falava sobre a estrela de Natal. A menina quis a estrela como presente de Natal. O pai falou que ela podia pedir ao vento, já que eram amigos. Ele sempre aparecia nessas andanças e a menina se distraia do cansaço das pernas conversando com o vento, que respondia de pronto e animava a menina a continuar.

- Sua casa está logo ali, sua casa está logo ali – soprava ele.

Ou quem sabe pedir ao céu, continuou o pai. O céu tem muitas estrelas e pode lhe dar uma de presente. Logo em frente viram um casebre simples, com chaminé que soltava fumaça. Resolveram parar, quem sabe um copo de água.

- Sejam bem-vindos, sejam bem-vindos - exclamou a mulher da casa. O homem da casa ofereceu um banco para os três e o bebê, que brincava no chão de terra batida, sorriu e estendeu os braços para a menina.

Ela abaixou-se e passou a mão na cabeça careca do bebê. Ele era lindo, tinha bochechas gordas e ria. A menina acarinhou o bebê e ele deitou-se no colo dela. Um tempinho só, mas tão confortante. Uma eternidade. Os três cearam com os outros três. Comeram raízes brancas, frutos vermelhos, sementes marrons, pão quentinho e beberam chá de ervas perfumadas. Despediram-se desejando feliz Natal e tornaram a caminhar.

Logo adiante, a mãe lembrou-se de um bichinho de pano que fizera para a filha, quando tinha a idade do bebê. Carregava o objeto na trouxa. Voltaram para entregar o presente à criança, mas a casa não estava mais lá. Nenhum vestígio do fogo, nenhum vestígio dos três. No chão batido a menina reconheceu a marca da mãozinha do bebê e ao lado dela uma estrela brilhante, a mais linda que ela já viu.

A estrela de Belém

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