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16 de fev. de 2011

Ficando com que é seu

Ele gritava, ela chorava. Assim passavam os dias. Quando abriam um tempo para respirar, se olhavam e não se reconheciam. Quando lhe perguntavam, por que ficava com ele, ela respondia, porque eu o amo, porque ele é assim e é preciso aceitar as pessoas como elas são.

Ele gritava, ela chorava. Assim passaram meses. Anos. Ela não era feliz. Tampouco ele. Um dia ele teve dor de garganta. Parou de falar. Ficou um dia sem gritar e ela achou bom. Dois dias no silêncio. Muito melhor. Três, quatro, cinco, seis. A dor não cessava. A garganta inflamada. O médico disse, poupe sua voz. Ele seguiu a recomendação, mas nem voz tinha mais.

Duas semanas se passaram e os gritos presos na garganta quiseram sair. Ela o irritava com sua mania de lixar as unhas em cima da mesa. Mas o grito não saiu. Ela e sua mania de comer biscoito enquanto zapeava a televisão também o irritava. Outra vez o grito não saiu. Ele engolia a raiva, a frustração de não poder dizer tudo que estava preso na sua garganta. A inflamação não passava. Um alívio, sim. Mas a voz não voltou.

Ela estava adorando a vida sem gritos, podia até ouvir o pulsar do seu próprio coração. Quanto tempo fazia que já não ouvia a voz do seu coração?

Chegou um tempo que os gritos sufocados na garganta começaram a sair pelos poros, pelas pontas dos dedos e ele bateu forte na mesa. Socou os travesseiros. Bateu forte na porta e, quando ela o confrontou nas suas verdades tortas, ele bateu forte nela e os gritos, todos os gritos ocultados na raiva do seu ser se transformaram num ato brutal.

Ele batia, ela chorava. Assim passaram os dias. Assim passaram meses. Anos. E quando perguntavam para ela, por que o aturava, ela respondia, porque eu o amo, porque ele é assim e é preciso aceitar as pessoas como elas são.

24 de jan. de 2011

Conto mínimo - Mulher pássaro

ilustração J.W.Smith


 

O menino lê, "ela banhou-se em mel e salpicou sementes pelo corpo.
Vieram os pássaros e pousaram nos seus ombros, braços, cabelos.
E eram tantos! Bateram asas e ela voou".

23 de dez. de 2010

Meu presente de Natal para você

Era noite da Natal. Os três andavam pela estrada vazia. O pai, a mãe e a filha. Caminhavam sem rumo, de mãos dadas. Não tinham casa, seu lugar era o mundo. Paravam aqui e acolá. Comiam o que era oferecido, o que a terra lhes dava. Os três andavam esperançosos, olhos no horizonte, atentos para o lar que a qualquer hora iriam encontrar.

O pai punha a menina na garupa e a mãe cantava uma melodia antiga que falava sobre a estrela de Natal. A menina quis a estrela como presente de Natal. O pai falou que ela podia pedir ao vento, já que eram amigos. Ele sempre aparecia nessas andanças e a menina se distraia do cansaço das pernas conversando com o vento, que respondia de pronto e animava a menina a continuar.

- Sua casa está logo ali, sua casa está logo ali – soprava ele.

Ou quem sabe pedir ao céu, continuou o pai. O céu tem muitas estrelas e pode lhe dar uma de presente. Logo em frente viram um casebre simples, com chaminé que soltava fumaça. Resolveram parar, quem sabe um copo de água.

- Sejam bem-vindos, sejam bem-vindos - exclamou a mulher da casa. O homem da casa ofereceu um banco para os três e o bebê, que brincava no chão de terra batida, sorriu e estendeu os braços para a menina.

Ela abaixou-se e passou a mão na cabeça careca do bebê. Ele era lindo, tinha bochechas gordas e ria. A menina acarinhou o bebê e ele deitou-se no colo dela. Um tempinho só, mas tão confortante. Uma eternidade. Os três cearam com os outros três. Comeram raízes brancas, frutos vermelhos, sementes marrons, pão quentinho e beberam chá de ervas perfumadas. Despediram-se desejando feliz Natal e tornaram a caminhar.

Logo adiante, a mãe lembrou-se de um bichinho de pano que fizera para a filha, quando tinha a idade do bebê. Carregava o objeto na trouxa. Voltaram para entregar o presente à criança, mas a casa não estava mais lá. Nenhum vestígio do fogo, nenhum vestígio dos três. No chão batido a menina reconheceu a marca da mãozinha do bebê e ao lado dela uma estrela brilhante, a mais linda que ela já viu.

19 de dez. de 2010

Aconteceu comigo no verão

Uma história de amor

Essa é uma história de amor que aconteceu no verão de 1992, em Caraíva, no Sul da Bahia.

Um mês no paraíso. No dia da chegada fomos jantar num dos dois restaurantes que havia por lá. Era noite de lua nova. Escuridão. O vilarejo não tinha luz elétrica. Voltando para casa no rastro da areia branca fomos surpreendidos por um bando de cães. Eram muitos. Latiam e nos ameaçavam. Continuamos a andar, lentamente, sem enfrentá-los e conseguimos chegar bem. Um deles se mostrou amigável. Abandonou o grupo e nos acompanhou.

Na manhã seguinte lá estava ele. Um vira-lata qualquer que passamos a chamar de Cachorro. Ele virou nosso escudeiro e companheiro de praia e caminhadas. Protegia-nos dos outros cachorros e das pessoas que ele não confiava. Após 20 dias fomos visitar a aldeia dos Pataxós. Cachorro foi atrás. Ao cruzarmos o portal da aldeia, um menino correu ao nosso encontro fazendo festa pro Cachorro. Ele era seu cachorro e tinha se perdido no vilarejo. Foi lindo de ver os dois. Cachorro balançava o rabo de felicidade. O indiozinho acarinhava o animal e logo tratou de prendê-lo.

Ao pegar a trilha de volta, após caminhar uns 15 minutos, ouvimos barulho de bicho correndo atrás de nós. Era ele, Cachorro, vindo em na nossa direção e o menino atrás, gritando para que ele parasse. Mas ele só parou ao nos encontrar. Veio se despedir e retornou para a aldeia junto com seu amiguinho, o menino Pataxó.


http://www.gazetadopovo.com.br/viverbem/conteudo.phtml?tl=1&id=1079093&tit=Aconteceu-comigo-no-verao

25 de fev. de 2010

Mínimo 5

imagem enéas lour
Ela esperou por ele, sentada na pedra, na encruzilhada. Veio o sol, veio a lua, veio a chuva, veio o vento. Seus pés enraizaram. Lenta metamorfose. Brotou uma flor azul.

19 de fev. de 2010

Mínimo 0

imagem: heliana grudzien
Ela banhou-se em mel e salpicou sementes pelo corpo. Os pássaros pousaram nos seus braços e cabelos, para se alimentar. E eram tantos. Bateram asas e ela voou.

A estrela de Belém

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