4 de mai. de 2013

Cléo Busatto fascina o público contando histórias na Feira do Livro

   A escritora Cléo Busatto prendeu a atenção do púbico que lotou a
           Sala Belém, em mais uma tração oferecida pela
Feira Pan-Amazônica do Livro


    O público infantil é o principal alvo do trabalho
desenvolvido pela escritora Cléo Busatto
     Uma das obras dos irmãos Grimm, o conto “Sete Corvos”,
foi a escolhida por Cléo Busatto para “Contar e Encantar" o público,
revelando os "pequenos segredos da narrativa”


   O conto “Sete Corvos”, dos Irmãos Grimm, foi escolhido para iniciar a palestra da escritora Cléo Busatto, na XVII Feira Pan-Amazônica do Livro, na terça-feira (30), sobre o tema “Cantar e Encantar – pequenos segredos da narrativa”. O público que esteve na Sala Belém, no Hangar Convenções e Feiras da Amazônia, assistiu a uma aula de contação de histórias, com uma das escritoras brasileiras mais especializadas no assunto.
   A arte de contar histórias e a literatura na sociedade contemporânea foram abordados pela escritora, que tem uma relação muito próxima com o público infantil. Ao longo de sua carreira, ela desenvolveu técnicas de narrativa que fascinam crianças, professores, bibliotecários e artistas.
   “Desde 2008 eu conheço a obra da Cléo. O jeito com que ela constroi e narra seus textos me fascina. Aprendi que ensinar algo pedagogicamente não tira a magia de uma boa história. Meus alunos serão beneficiados com esse aprendizado”, avaliou a professora Ana Selma Cunha.
   As histórias narradas por Cléo Busatto já foram ouvidas por mais de 65 mil pessoas, no Brasil e em outros países. A escritora também é Mestre em Teoria Literária, pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Segundo ela, a participação inédita na Feira do Livro foi muito proveitosa. “O encontro foi muito bom. É a primeira vez que venho a esse evento e estou encantada. O público de Belém é muito participativo e bastante diversificado, o que revela o poder que a contação de histórias possui”, disse Cléo Busatto.
   Durante a XVII Feira Pan-Amazônica do Livro, a escritora ainda apresentou seus contos no espetáculo “Histórias de Cléo", com sessão lotada, e autografou suas obras no Ponto do Autor.

24 de abr. de 2013

Fogo



                               
No início do mundo só havia uma fogueira por toda a terra conhecida pelos Kaingang. Pertencia a Minarã, mas ele não o dividia com ninguém. Um dia o guerreiro Fiietó transformou-se numa gralha branca e partiu em busca do fogo. Tinha um plano. Mergulharia no rio onde se banhava Iaraví, filha de Minarã e esperava ser salvo por ela. Foi bem isso que aconteceu. Ela recolheu o pássaro encharcado e colocou-o para secar junto ao fogo. Deslumbrado com o que viu, Fieetó pegou um tição com o bico e saiu voando. Carregava o fogo pros seus amigos Kaingang. Era um fogo pequeno, pequeno ainda, mas o suficiente para oferecer a eles, luz e calor... [1]

... e assim vai se desenrolando esta narrativa mítica que trata de um tema universal. A conquista do fogo. Este fato foi tão significativo para a humanidade que todos trataram de criar uma história. O fogo foi dotado de sentidos que ultrapassam a dimensão antropológica para adentrar no plano simbólico e nos trazer imagens memoráveis que remetem à iluminação, purificação, transformação e sabedoria.  Nessa perspectiva o fogo se apresenta como uma metáfora para a aquisição do conhecimento e para a ampliação da consciência individual.
Isso tem a ver com a educação. Educar é acender o fogo interior do educando e sensibilizá-lo para que ele o mantenha aceso. E somos nós, artistas e educadores, que devemos manter viva essa imagem, alimentando nosso fogo interno, condição essencial para inflar o fogo do outro e prepará-lo para a conquista de saberes.
Fogo interior é fogo sagrado que mora no coração, e saber comprometido com o coração se torna sabedoria, faz surgir possibilidades criativas e criadoras, gera uma educação orientada para a paz. Este é o verdadeiro poder, porque é orientado pelo conhecimento, que  se adquire lendo, por exemplo. Lendo a mim, ao outro, o que está em torno e lendo o texto. Este é o campo dos domínios da língua e Umberto Eco, escritor italiano, lembra-nos que a literatura mantém a língua em exercício.
Uma das funções da minha vida (casa 10 do zodíaco, o que se deixa para o mundo) é atuar com e para a leitura, principalmente a leitura literária. E vivo me deslumbrando com isso. Como diz a amiga leitora Giselle, você nasceu para brincar de ser vaga-lume e viver assim: acendendo e apagando na mente dos que te leem. Se pego emprestado essa imagem luzidia é porque ela me define. Olho para o conceito e digo a mim mesma, e não é que pode ser isso mesmo?




[1] História do livro Paiquerê, o paraíso dos Kaingang (editora SM), de Cléo Busatto.

22 de abr. de 2013

Escritora discute cenário da literatura infantil atual



                                                            Cléo esteve à frente do projeto De Caso com a Palavra em Ponta Grossa

JMNews.com.br / Urbe / Entrevista - Publicado em 21 de Abril de 2013, às 00h00min | Autor: Daniel Petroski, da redação,foto: Thiago Terada

Cléo Busato esteve em Ponta Grossa na sexta-feira em virtude do projeto ‘De Caso com a Palavra’. Escritora é conhecida no mundo todo por seu trabalho na área infantil e juvenil

É de autoria de Cléo Busatto o projeto ‘De Caso com a Palavra’, realizado em Ponta Grossa na última   sexta-feira.    O Fórum encerrou a  segunda  etapa  da  iniciativa  que  também   teve atividades em Maringá e Foz do Iguaçu.    Na cidade,   o evento   reuniu           representantes políticos locais e estaduais,   como o  Secretário  de  Estado  da  Cultura  do  Paraná,    Paulino Viapiana,  e  palestrantes  como  Carlos Daistchman,  Caio Riter,  Gika Girardello  e Cristóvão Tezza. Antes do evento, Cléo recebeu a equipe do Jornal da Manhã para um conversa em que explica os motivos da criação do  projeto e como  anda o cenário da produção infantil e juvenil atual.

Jornal da Manhã: Como é estar à frente do projeto ‘De Caso com a Palavra’?

Cléo: É uma loucura. Quando eu criei esse projeto, fiz por puro idealismo. Eu via que o Paraná estava querendo ser um Estado de leitores, com o governo querendo instalar uma biblioteca em cada cidade. Mas, pensei comigo: E aí? Vai ser só mais um depósito de livros? Acredito que só a biblioteca não resolve. Falo isso, porque existe um lado meu que é a Cléo arte-educadora. Eu venho de uma família de educadores. Comecei a ler com três anos e meio graças a minha mãe. Por isso, sempre possui esse olhar mais idealista. Pensei nesse projeto e ofereci para o diretor da Biblioteca Pública do Paraná e ele comentou que a proposta vinha de encontro com o Plano Estadual do Livro, Leitura e Literatura (Pelll), sugerido pela Secretaria de Estado da Cultura (Seec). A partir daí, foi uma série de sincronismos e encontros felizes. E quando me dei conta, vi que o projeto era muito maior do que aquilo que eu imaginava. Para ter ideia, tivemos 450 pessoas na primeira etapa. Sem Ponta Grossa, nas outras duas cidades que receberam a segunda parte do projeto já foram quase mil participantes. Desse total, foram realizados sessenta projetos, que reverteram em benefícios para aproximadamente sete mil pessoas.

Leia a matéria na integra no JM impresso.


14 de abr. de 2013

O Fio da História




        Dizem que no início do início, antes mesmo de o homem existir na terra, havia uma árvore gigantesca, bem no centro do mundo. Era tão alta que seus galhos sustentavam o céu. Ela era o eixo do universo. A árvore convivia com os três planos do cosmos. 

       Enquanto as raízes mergulhavam na escuridão das regiões subterrâneas da terra, seu tronco e os ramos mais baixos lançavam o olhar para os vales e campos verdejantes da superfície. Já os galhos superiores e sua copa erguiam-se nas alturas, em busca da luz. 
       A árvore agregava em si a presença dos quatro elementos. A terra alimentava suas raízes. A água circulava pela sua seiva. O ar nutria os ramos e folhas e o fogo oferecia-lhe o calor necessário para crescer. 
       Dizem também, que seu porte majestoso e vertical garantia a união de Urano (o céu), com Geia (a terra). Para muitos, ela era a Árvore da Vida, pois alimentava o mundo e abrigava a vida.

19 de mar. de 2013

Vida e Cidadania



Terça-feira, 19/03/2013
Pedestre por convicção, a escritora Cléo Busatto aposentou a carteira de motorista e hoje observa detalhes de Curitiba, 
Daniel Castellano/ Gazeta do Povo
Publicado em 19/03/2013 | FERNANDA TRISOTTO

Andar a pé por grandes cidades está em desuso
Maior utilização de carros e queda no número de pedestres nas grandes capitais faz a população ter relação superficial com o lugar onde vive.

Por uma confraria de caminhantes
Há alguns anos, a escritora Cléo Busatto aposentou sua carteira de motorista. Mas isso não a impede de circular livremente por Curitiba, caminhando. Depois da decisão, Cléo diz que não se estressa com o trânsito, colabora com o planeta, faz exercício e entende o ato de caminhar como “um deleite.” “Mesmo que eu tenha opção de ir para algum lugar de outra forma, prefiro andar porque assim eu vejo a cidade”, diz.

Para ela, caminhar pela cidade significa olhar aquilo que parece invisível. “Quem sabe que nas ruas do Centro antigo têm pitangueiras ou que a [Avenida] Visconde de Guarapuava tem goiabeiras carregadas?”, indaga. Apesar da opção por não ter carro, a escritora não é radical: quando precisa ir até um lugar mais longe, usa táxi e transporte coletivo.

Além de economizar, ela leva vantagem também na conexão com outras pessoas. “Há uma pré-disposição de quem está andando em te olhar. É como se você criasse uma confraria de pessoas que andam.”

Desculpas
A escritora acredita que as pessoas dão muitas desculpas para não usar outros tipos de meios de transporte que não o carro – chegar suado no destino é um deles. “Lógico que segurança é importante e Curitiba precisa, sim, olhar com atenção para essa questão, mas as pessoas são extremamente preguiçosas para andar”, argumenta.


http://www.gazetadopovo.com.br/vidaecidadania/conteudo.phtml?tl=1&id=1354892&tit=Andar-a-pe-por-grandes-cidades-esta-em-desuso

11 de mar. de 2013

O menino que limpava o mundo



O menino catava o lixo do mundo.
O menino puxava o carrinho.
O cachorro ia atrás.
Menino juntava garrafa de plástico. Cachorro, bola furada.
O menino não tinha pai, não tinha mãe, nem madrinha ele tinha.
Por isso se dizia afilhado da noite e do dia.
O menino andava sob o sol. O menino andava sob a lua.
O dia e a noite perguntaram ao menino:
- Quer andar na claridade ou na escuridão?
Ele respondeu, guloso:
- Ora na claridade, ora na escuridão.
O dia e a noite protegia o menino.
O menino catava carrinho quebrado largado no caminho.
Catava papelão e com ele fazia avião.
O menino e o cachorro passeavam pelas nuvens. O cachorro catava osso de bicho morto. Mas não dava pra comer. Então, entregava para a terra e ela devolvia margarida.
O menino e cachorro limpavam a sujeira do mundo.
O menino era pequeno. O cachorro era pequeno.
O carrinho era enorme.
O cachorro, ora passeava sobre o carrinho; ora puxava o carrinho com o menino dentro dele.  
Encontraram a ovelha com pé quebrado. Foi para o carrinho.
Encontraram a pomba de asa torta. Voou para o carrinho.
Cobra sem rabo. Subiu no carrinho.
O menino encontrou o relógio de um ponteiro só. Apontava o doze.
Para o menino, o cachorro, ovelha, pomba e a cobra sem rabo era sempre meio-dia.
Era sempre meia-noite naquele caminho sem fim.
Eles passeavam e limpavam o mundo.


Conto publicado na revista Crescer 232 Março 2013

6 de fev. de 2013

Desonra




Acabei de ler Desonra, de J.M.Coetzee. Li compulsivamente durante a última viagem. O autor construiu uma narrativa fluída, envolvente e os personagens são complexos, têm alma. Coetzee ganhou Nobel de literatura em 2003. Li no caminho que levava ao aeroporto; li na sala de espera me desviando dos lugares onde havia passageiros ruidosos; li durante o voo e li sob um calor infernal, digno do cenário do livro, no interminável trajeto até a minha casa. Hoje, após o café da manhã acabei o livro esperando que ele apontasse alguma mudança no curso da vida dos personagens.
O título original é Disgrace, mas para mim Desonra poderia se chamar Desolação, palavra que inclui o significado de desgraça, mas também carrega o sentido de solidão, abandono, infortúnio. Enquanto lia me dava conta que estava sendo tomada por uma sensação desagradável e subitamente, meu estado de espírito leve e alegre se tornou sombrio e angustiado. Não entendia o que se passava comigo, afinal, tinha feito uma boa viagem; o trabalho foi uma sucessão de sincronicidades felizes que o levarão a um bom desfecho. Ainda assim meu coração se comprimia a cada página que eu virava.
“Deve ser esse calor abafado e ardido que entra pelo vidro do carro. Estou à meia hora parada nesse congestionamento”, pensava. No dia seguinte percebi que a alteração do ânimo se deu por algo externo a mim, por uma ficção que não me pertencia, mas sim, a David Lurie e sua vida desgraçada, que ele mesmo escolheu e traçou, a cada frase que pronunciou, a cada princípio que defendeu. À sua filha Lucy e suas escolhas, sua teimosia em se manter numa terra de homens violentos, preconceituosos e incultos.
Aí estava a literatura me arrancando de uma vida segura e confortável para me lançar em algum lugar da África do Sul, onde impera a violência, ameaça, submissão. Ao me confrontar com essa realidade sou colocada do lado de fora da minha e passo a vê-la com olhos críticos. O que eu quero pra mim? Que escolhas fiz e faço pra minha vida? Qual a minha vontade e como construo essa vontade? Que princípios eu defendo e se defendo por que o faço? Como honrar o que sou e o que acredito? Faço o que é melhor pra mim ou aquilo que dizem que devo fazer, ainda que assim aja como os personagens do livro, que ficaram presos na armadilha da dominação de outros, seja pela chantagem ou pelo medo?
Esse é um dos efeitos da literatura, nos mostrar outras vidas para que a gente possa olhar pra nossa e decidir o que é melhor pra nós.

A estrela de Belém

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