7 de dez. de 2010

A cara de Salvador é Ian.

Carequinha, bochechas generosas, sorriso fácil. Esse é Ian. Essa foi a cara de Salvador, dessa vez. Ele é a imagem que criei da formação do Proinfantil, Salvador, 2010. Ian é um bebê de seis meses, daqueles que logo se vai adjetivando como uma criança fácil. Dado e manso. Participativo e perceptivo. Amor à primeira vista, desde que o vi dormindo com a bunda voltada para o céu. Dali em diante foram apenas algumas horas juntos, mas com gosto de eternidade, partilhada com afeto e leveza. Ian pede cantando. Adorável.

Eu sei que nem todas as crianças são assim. Conheci bebês que choravam o tempo todo. No prédio onde moro, vive uma menina de três anos, que chora todas as noites, histericamente, das 21h às 23h. E sua mãe grita. E ela chora.

No encontro se discutiu a autonomia, desejos e descobertas das crianças. Eu propus a reflexão sobre as histórias na formação dos pequenos. Que histórias contar? Qual o sentido de contar histórias para crianças?

Depois dessa imersão é compreensível que meu foco recaia sobre os pequenos... e seus pais. Acredito que ao olhar os pais se entende os filhos. Nascemos molinhos e receptivos e vamos sendo moldados pelo outro, pelo meio. E o outro pode nos ver como sujeito ou como objeto. Esse olhar contribui para definir uma vida, mais, ou menos harmônica; mais, ou menos feliz. Não seria o caso de rever alguns tópicos do currículo do curso de Educação?

Sou grata pela acolhida da equipe FACED/UFBA. Pelo aconchego da Licinha; a alegria da Mary; o cuidado da Monica; a companhia da Karina e do Ian; a atenção carinhosa do Cleverson e à amorosidade de todos os participantes.

A delicadeza e o riso deixam uma marca indelével na alma das pessoas.



29 de nov. de 2010

Formosos Monstros - Octopés

Octopés adorável monstrinho da nossa terra. Seria um quadrúpede se não fosse as outras quatro patas que tem nas costas. Quando cansa de andar com suas quatro patas de baixo, dá um giro com a cabeça e se apoia no chão com as outras quatro, que estavam voltadas para cima. É ágil e seu salto pode alcançar três metros de altura.

Octopés é uma criatura pequena, do tamanho de um gato, com o corpo coberto de pelos vermelhos e brancos, que formam bolotas. Os olhos azuis são graciosos, quase dóceis. Tem uma boca que sempre ri e um rabo comprido que se dirige para o alto, em espiral. Poderia ser lindo e gracioso, não fosse seu hálito pestilento, que transforma as pessoas num montinho de pó.

Para neutralizar esse poder, só mesmo dando-lhe de comer um punhadinho de hortelã. Mas aí está o desafio: quem se arrisca a enfiar hortelã naquela bocarra fedorenta?

Octopés é minha criação e habita o Planalto Central do Brasil

13 de nov. de 2010

Cidade educadora, Sesc e Transdisciplinaridade

Gostaria de compartilhar algumas impressões sobre minhas andanças por espaços e cidades educadoras. Uma cidade educadora tem cidadão comprometido com o que faz. Têm sujeitos que se apropriam do objeto artístico, para se relacionar consigo mesmo, com o outro e com seu meio. Cidadão educador tem espírito transdisciplinar e transita livremente entre a arte e a ciência. Promove um saudável diálogo entre os diferentes níveis de realidade. Interage com eles, transforma e se transforma ampliando os níveis de compreensão. Um sujeito com atitude transD, inventa, se inventa, se reinventa, está em constante processo criativo e afetivo.
Olhares atentos percebem que o Sesc se avizinha do pensamento transD, à medida que proporciona à comunidade, uma pluralidade de manifestações culturais e facilita o trânsito entre os diferentes níveis de percepção. Sesc SP: Pinheiros e Santos. No primeiro, estive com espaço para promover os saberes da humanidade, por intermédio da tecnologia digital e pelo encantamento que as histórias do espetáculo de narração oral, Formosos Monstros, oferecem. O grau de concentração, busca do conhecimento e satisfação dos participantes no tempo presente, atesta o mergulho nas diferentes dimensões do sujeito.

Já no Sesc Santos, que numa parceria com a Secretaria de Educação, sediou o XXII Encontro de Educação Paulo Freire – Cidade Educadora: saberes em todos os cantos, a minha conversa foi com o professor. O silêncio na plateia era pleno de significados, algumas vezes rompidos pelo riso, outras pela contemplação..





















Posteriormente isso se traduziu em alguns presentes, como a revelação do projeto que a professora Claudia Marczak desenvolve com alunos de 9 e 10 anos. Um trabalho com mandalas “visando melhorar a capacidade de concentração, a resolução de conflitos e o contato com o belo”.
Luana e Gabriela
Mandala (que quer dizer círculo) é uma imagem que favorece a meditação e conduz à iluminação.

Camila
Enquanto representação simbólica da inteireza da psique (C. G. Jung), ela mantém e restabelece a ordem psíquica e proporciona o sentimento de que a vida reencontrou a sua ordem.

Thayná

Vinicius
Agradeço aos professore presentes, a Lygia Barbieri e equipe da SEFORM, a Marise e ao Alexandre, das unidades Sesc Santos e Pinheiros, por fazerem desses espaços, um lugar  para despertar os sentidos.

30 de out. de 2010

Um olhar transdisciplinar para a arte de contar histórias

Contar histórias é uma arte antiga, originária no imaginário de um povo e antecede a linguagem e a cognição. Considero aqui o papel do imaginário, pois ele se apresenta como condição para o conhecimento, unindo as diferentes dimensões da realidade e refletindo esse homem inteiro. Seguindo o raciocínio de que contar histórias precede a linguagem verbal, logo me vem à mente a imagem do homem pré-histórico, que ao pintar um bisão na parede da caverna, contava e deixava ao mundo a sua história. Sim, porque é possível contar histórias se apropriando de diversas linguagens, ou antes, diversos suportes. Assim, a literatura escrita ou falada narra uma história, bem como a música, a dança, o cinema, as artes visuais e as novas tecnologias digitais.
Porém, meu foco recai sobre a narração oral e o conto narrado. O contador de histórias surgiu da necessidade de perpetuar o imaginário individual ou coletivo e, nesse contexto desempenhou um papel especial. Ele é a ponte que liga o mundo de fora ao mundo de dentro. Em várias civilizações e tradições, o narrador é o mantenedor do sistema mítico e dos valores da sua comunidade, como também um instrumento que operacionaliza o acesso aos diferentes níveis de realidade.
Se o narrador é a ponte que liga um lado ao outro, o conto é o que escorre nesse vão. A história é a expressão do pensamento mítico do ser humano e uma via ao mundo imaginal, ou seja, “o mundo no qual se espiritualizam os corpos e se corporificam os espíritos”, segundo definição de H.Corbin. O contador de histórias liga as diferentes dimensões. Cria imagens no ar materializando o verbo e transformando-se ele próprio nesta matéria fluída que é a palavra. Empresta seu corpo, sua voz e seus afetos ao texto que ele narra e o texto deixa de ser signo, para se tornar significado. Ele nos faz sonhar, porque consegue parar o tempo apresentando um novo tempo, que se avizinha com o continuo aprender e tem como mediador kairós. Ao congelar cronos, essa dimensão passível de ser medida e seguida, abre-se para a dimensão de kairós, essa relacionada com a possibilidade de se estar presente no presente. Por essa via entra-se num estado de escuta flutuante. Esse conceito é uma alusão à atenção flutuante, de Freud. Por escuta flutuante entendo o se entregar ao que é narrado, sem avaliação e julgamentos, deixar-se levar por um estado de concentração, que liga o ouvinte ao emissor. Ao contrário da atenção flutuante que se opõe à contemplação, a metáfora da escuta flutuante só se completa numa perspicaz contemplação.
Para isso deve-se considerar a qualidade do conto narrado. Ao ouvir uma história atemporal, significativa, cuja arquitetura estruturou-se a partir de símbolos reconhecidos pelo nosso ser interno, somos sugados do nível prático e lançados na dimensão do sonho. Ali, podemos transcender os limites do nosso mundo pessoal fundado em dores e alegrias e nos introduzir na universalidade das vivências e dos sentimentos humanos. Por meio dessas histórias descobrimos que amor e egoísmo, angústia e contentamento, covardia e coragem, crueldade e compaixão, não são privilégios de uma época ou cultura, nem benção tampouco maldição. Elas nos recordam que a busca por uma vida de paz, livre de conflitos e sofrimentos, não é prerrogativa de poucos, mas se estende à condição humana. Essas histórias tem o poder de aproximar o que está longe e reintegrar o que está fragmentado. Histórias dessa natureza ativam o imaginário, provocam o devaneio, nos arrancam de um estado racional para nos aproximar de níveis mais refinados, como o plano do mistério e do sagrado.
Por meio dessas reflexões digo que contar histórias implica numa abordagem e numa atitude transdisciplinar, porque coloca o ouvinte em contato com diferentes níveis de realidades, a partir de onde são ativadas diferentes dimensões do nosso ser. Na dimensão do prático e gestual que se processa por meio dos sentidos, ouvimos, vemos e sentimos o narrador que com seu corpo, voz e afetos nos oferece sensações indescritíveis. Por meio dessa dimensão definimos se uma história é agradável ou não para nós. Mobilizamos também a dimensão lógica e epistêmica, orientada pelo pensamento que se encarrega de produzir conceitos, fazer leituras para a história ouvida. Teorizamos a prática do contador, buscamos uma hermenêutica que justifique a história e o imaginário do povo que deu origem ao conto. Contextualizamos e conceituamos esse conto.
Ao nos permitirmos àquela escuta flutuante ascenderemos à dimensão do mítico e do simbólico que é orientado pela percepção intuitiva. Experimentamos nossas representações e os sentidos que escorrem por elas, resignificamos nossa história a partir da história narrada e ampliamos nossa consciência superior. Ouvir uma história por meio dessa dimensão possibilita a criação de novas conexões com o nosso inteiror, tornando-nos mais despertos e possibilitando a subida a escalas superiores, em direção a dimensão do mistério, do indizível e inexplicável. Por meio desse nível, orientado pelo sagrado, cessam as diferenças ao unificar-se objeto e sujeito, pensamento à experiência, efetivo ao afetivo. Nessa religação entre o que estava fragmentado ocorre a transcendência, a restauração da inteireza do nosso ser e a vivência do pertencimento a algo maior.
Contar histórias ativa essas dimensões, esquecidas por não serem experienciadas e da qual fomos desconectamos, talvez sem saber, e lançados nas brumas do tempo com venda nos olhos. Essa vivência nos proporciona um contato com o vazio que tudo contém, com o silêncio que traz significações. Podemos dizer que ela nos coloca em contato com o Tao, Self, Deus. Seja qual for o conceito que atribuímos a ela, essa viagem interior nos religa ao todo e faz com que nos sintamos parte integrante do universo. Proporciona um alento para o espírito e traz uma confortável sensação de se estar em paz.
Ao refletir sobre esse aspecto da narração de histórias podemos ver o contador como uma espécie de xamã, que ao manipular forças invisíveis por meio do narrado, atua muito próximo da essência, onde tudo é imaterial e por meio do qual chegamos àquele canto da mente, onde tudo é silêncio, onde sou minha própria consciência. E o contador de histórias, ciente da sua função, ao lançar mão do seu corpo, voz, afetos, coração e significações pessoais, pode provocar poderosas alterações no seu ouvinte. Pode restaurar o riso esquecido, a autoestima perdida, a autoconfiança, fé e esperança na vida. Mas, se o contador não tiver sido tocado por essas luzes, se não fizer soar as histórias que podem nos conduzir a níveis superiores de consciência, sua narrativa será mais um passatempos, esvaziado de sentido, como os tantos entretenimentos oferecidos pela cultura dominante.
Então, que venham as boas histórias e um contador sensível e comprometido com ela. Que venham os contos, cantos e os encantos, para embalar nosso coração e restituir a esperança de que viver bem, sob quaisquer circunstâncias é possível para todos.

25 de out. de 2010

Eu e o personagem

      Num desses dias de primavera ensolarada de Salvador, minha anja-da-guarda baiana deixou  escorregar uma revelação pra lá de literária, “achei que Cléo Busatto não ficasse triste; que pra ela o sol não parasse de brilhar; que fosse como um dos seus personagens, quando batesse a tristeza pegava o sol e trazia sua luz pra nos fazer rir outra vez. Achei que Cléo Busatto fosse inabalável”.
       Pasma e boquiaberta diante dessa inesperada revelação nada angelical, reivindiquei minha condição de humana e mortal, passível de me jogar no chão e chorar todas as lágrimas, eu que agora nem mesmo podia ser uma personagem de mim mesma. E se naquele momento havia tristeza no peito, ela logo se transformaria numa passageira melancolia, que iria se dissolver num mergulho, quando eu caisse nas águas de Iemanjá. E ela, a anja, ainda completou “até a pouco tempo, Cléo Busatto pra mim era um livro”.
      Bom, querido leitor, estamos falando de uma conversa entre duas mulheres crescidas, esclarecidas, bem formadas (risos...), modernas, independentes, descoladas e lindas, que fazem escolhas e dão conta delas.      
     Mesmo assim, esse diálogo quase surreal, num domingo de sol de derreter os miolos da gente.
     Agora, imagina você, como é esse papo de personagem e gente de verdade, para a criança que ainda não consegue nem mesmo diferenciar a obra do criador; o escritor do escrito. Ser da condição humana passa longe do mundo dos personagens.
     Literatura não é vida de verdade e os personagens que lidam com os aspectos humanos, servem apenas pra mostrar o que nos diferencia uns dos outros e também, como eu posso me resignificar por meio da literatura, ou seja da fantasia.

8 de out. de 2010

Três momentos na Bienal do Paraná

No Circo das Letras com o Formosos Monstros. Curadoria do espaço e apresentação diária. A conversa com os pequenos gira sobre, monstro existe ou não existe? Com os maiores dá pra discutir o processo de feitura dos vídeos do CD-ROM. Muita atenção e surpresa ao saber que dá tanto trabalho.
A menininha pergunta "isso é prá chamar o unicórnio?" 
instrumento para atrair unicórnios
No Café Literário a conversa foi pequenos leitores, grandes leitores, com Rodrigo Lacerda e mediação do editor do Gaz+, Cristiano Freitas. Vivemos um momento especial na recepção do livro literário no Brasil. Nunca se falou tanto em leitura e do texto ficcional. Jovem lê. Lê aquilo com que se identifica.

Um grupo me cerca. Participantes de uma oficina literária da escola onde estudam. Muita pergunta e a certeza de que iriam levar novidades pra casa, minha mãe que se prepare para ouvir.
Fórum sobre qualidade na literatura para crianças e jovens. É importante ouvir o jovem, dialogar com ele, saber o que ele deseja ler. Impor uma leitura só mantêm as coisas como vem sendo há décadas. A escola precisa ficar atenta pra isso ou permanece no seu papel autoritário de dizer o que é bom pra mim.

E assim foi !

4 de out. de 2010

O florista e a gata no Sagrado

Ana Cristina, professora das crianças, revelou, estavam ansiosos. Aqui está o grupinho. Terceiro ano do Colégio Sagrado. Ora, ser leitor também é uma escolha. Alguns preferem jogar bola; outros ver filmes; outros ainda, ouvir música. Há os que preferem ler. Agora, cá pra nós, criança sensiblizada por uma boa história, que encontra um bom mediador pelo caminho, que convive com o livro, esse dificilmente vai deixar de ser leitor quando crescer.
 Mil perguntas, curiosidade. Revelo que só a idéia não faz um livro. Depois temos um trabalho intenso e minucioso pela frente, para dar forma a essa idéia. Falo da busca das palavras certas e uma aluna logo concorda, "precisa ver se não repete muito a mesma palavra, porque não fica bom". Usa a palavra gata como exemplo. Aliás, os gatos renderam um bom papo.
Ana Cristina puxa o fio, eu vou atrás. A conversa é sobre os sentidos da leitura literária. Conto minha história de leitora e o significado de uma história primeira, aquela que descobriu a Cléo escritora. E eles se põem a predicar. Uma beleza. 
"É como se a gente sentisse os sentimentos dos personagens e vivesse dentro da historia", conclui Lilibeth. "Quando a gente lê um livro parece que a gente está vendo o que acontece com a história", diz Rodrigo. "A gente sente as emoções, parece que está dentro do livro e sente aquilo que os personagens estão sentindo", acrescenta Pedro.
Sim, crianças, é tudo isso e muito mais. As histórias nos despertam, tocam aquele cantinho escondido do nosso ser e às vezes, depois dela, até trocamos lágrimas por sorrisos.
O meu beijo pra vocês. Obrigada Ana Cristina, Luiza e Sagrado. Até a próxima história.

A estrela de Belém

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