21 de abr. de 2014

Histórias da Cléo 2

foto Cadi Busatto
Impressões no final do projeto
Histórias da Cléo completou 100 apresentações. Em torno de 5.000 crianças, ouviram a pergunta, para que serve a literatura, a ficção, as histórias de mentira, se não nos ensinam a construir casa, levantar pontes, costurar vestido, ou cozinhar feijão com arroz?
Algumas crianças apresentaram respostas prontas, produzidas pelo meio escolar. Disseram que elas servem, para a gente aprender a ler; para se instruir; para imaginar. Outros, ousados e criativos, foram além: elas servem para nos fazer sonhar; nos ensinam a descobrir o novo; servem para nos fazerem feliz, opinaram. Adorei.
Depois, eu lhes apresentei a minha opinião. Disse que as histórias nos sensibilizam e nos preparam para a vida, para sermos um bom construtor de casa e de pontes; uma boa cozinheira ou costureira.  Que as histórias nos tornam pessoas mais bonitas por dentro e, quem é bonito por dentro é bonito por fora. Adoraram.
Lancei a metáfora. Quando leio uma história, é como se colocasse um espelho à minha frente e visse refletida nele, não a minha imagem, mas a imagem do personagem. Este, é um sujeito ruim, preguiçoso e indolente, bruto, arrogante e mal-humorado. Olho e penso, eu é que não quero ser assim. Depois, leio outra história. Me encontro com outro personagem, esse um sujeito de bons princípios, honesto e corajoso, inteligente e solidário, generoso e amoroso, e digo, tá aí um cara com quem eu gostaria de parecer.
E assim, de história em história, de personagem em personagem, a gente vai escolhendo aquilo que é melhor para nós, o que nos faz bem e nos transforma naquilo
que a gente quer vir a ser.
Ao apresentar as vivências e histórias de vida de outros, a ficção ajuda a criança a construir o seu caminho, oferecendo a ela a possibilidade de reconhecimento do novo. E, ela que vive o tempo da descoberta, é favorecida por estas imagens que a literatura lhes oferece como presente.

10 de abr. de 2014

Histórias da Cléo

foto Cadi Busatto
Começo as intervenções do Histórias da Cléo. Na minha memória a imagem de cada rosto, cada gesto, cada cara de surpresa, medo, descoberta e encanto. 
Que invenção gostosa é Histórias da Cléo
Em cada apresentação eu encontro, com as crianças, uma nova intenção para o texto que escrevi. Suas expressões e impressões despertam simbologias que eu não me dava conta, 
ao ler o texto, silenciosamente, para mim.
Quando eu leio para elas e vejo suas reações, percebo sentidos e ritmos que já estavam lá, silenciosos, aguardando para serem desvelados. Isso está sendo muito bom. 
Estou adorando, crianças, adorando.

12 de fev. de 2014

Segredos e Encantos da Narração na Voz que cria imagens


Contar histórias é um ato que tem sua poesia, técnicas próprias, um jeito seu de ser e: fazer o tempo parar, envolver o espaço, abrir afetos, retraçar os contornos do mundo. Do mundo interior, mágico e imaginário, que todos nós possuímos. No entanto, o Fascínio por vezes nos escapa, cai em esquecimento... Atenta para as necessidades de cultivar o lúdico e as formas de encantamento, Cléo Busatto recupera fios e caminhos de sua experiência e entrega-se, generosamente, na escrita de Contar e encantar: pequenos segredos da narrativa (Vozes, 2003). Pequenos e valiosos.  

O livro é  aberto   com um    manifesto    do    contador  de histórias, uma verdadeira carta de intenções onde se antecipam os sentidos da paixão com que a autora enlaçou  seu ofício. Logo no capítulo   introdutório, Cléo Busatto fisga o leitor-professor (a quem o livro é primeiramente dedicado) em um ponto delicado de sua prática - nas confusões e diferenças por esclarecer entre o ato de ler em voz em alta e a técnica de contar histórias. Sim, são duas operações distintas e o que a arte -educadora mais quer é refrescar nossa memória, trazendo para a cena o contador arquetípico dos tempos antigos, o reencontro com a literatura oral e a arte de ouvir.
Com um texto ágil, que até mesmo parece que estamos a ouvir sua voz, a contadora de histórias e pesquisadora deslinda paisagens do saber popular, com leves apontamentos teóricos sobre os efeitos e as funções do encantamento. De um lado, a força capaz de estabelecer a coesão do grupo social; de outro, a fruição imaginativa e particular de cada pessoa que receberá a mesma história compartilhada na coletividade como se fosse única, apenas sua. Cléo Busatto investe uma viagem no tempo, recolhendo rápidas referências que vão de uma lasca de cerâmica grega, onde ainda podemos ver a face do temível Minotauro, até as imagens que se adivinham através das palavras, nos livros que a história da literatura tem guardado até nossos dias. Assim, vai mostrando com a Matriz Narrativa se multiplica nas diversas categorias de textos ou gêneros orais, como mitos, fábulas, lendas, histórias fantásticas, contos de fada, contos admonitórios -- cada um, cada um, com características próprias, mas guardando profundas raízes de parentesco.

São essas qualidades de homogeneidade e pluralidade que permitem às histórias da tradição oral conservarem o frescor, num ritmo de re-invenção constante. Morada simbólica dos sonhos humanos, nelas persistem um fundo comum que a todos convocam, trazendo essas narrativas, em igual proporção, a mirada particular das variadas culturas onde foram perpetuadas. Quando conseguimos provar de seus sabores, saberes e valores estéticos, éticos e práticos, compreendemos como a literatura oral traz, em sua essência, uma pedagogia para a sensibilidade, para a compreensão e respeito mútuo, para o silêncio de reflexão sobre as situações do cotidiano. Uma pedagogia que, se não é restritamente intencional em sua origem, será amplamente bem vinda no contexto escolar.Deste modo, a aprendizagem é compartilhada entre quem conta e quem ouve. Os segredos da narrativa integram a produção e a recepção, os conteúdos atitudinais e procedimentais. Afinal, ouvir é um fazer e fazer-se através da escuta da voz do outro, como quem conta se faz no mesmo processo de interação.

E para a interação fluir na flutuação da voz que alinhava o contato e o contexto, o contador de histórias deve conhecer e exercitar suas habilidades e a consciência sobre seus atos, sua arte de criar imagens no ar. Eis a chave de ouro. Como consegui-la e manipula-la? Exatamente, desta interrogação adiante, Cléo Busatto mostra a que veio, cumprindo as promessas registradas no percurso do livro, abrindo-se mais que generosa a todos. Exatamente assim, os pequenos segredos da narrativa tornam-se interessantes não apenas ao leitor-professor, mas a qualquer pessoa que deseja engajar-se no assunto ou tenha já iniciado um caminho solitário. Porque Cléo é solidária e didática, ao evidenciar os cuidados com a escolha do texto (o contador de histórias deve ser, acima de tudo, um bom leitor), com a história que se transformará em voz e gestos, em um galope sedutor como nos ensina um Calvino muito bem citado pela autora. Existem imagens verbais, imagens sonoras, imagens corporais... E nenhuma pode escapar à atenção.

Antes de oferecer as facilidades de um simples manual, Cléo Busatto é exigente com os futuros contadores de histórias sob sua tutela. Afinal, "narrar demanda trabalho investigativo, estudo e treino" -- em outras palavras, demanda um carinho imenso para que se consiga criar, por exemplo, a partir do texto e suas imagens, uma sedutora e sonora partitura para embalar o ouvinte... que também tem seus deveres! No entanto, enquanto ele os desconheça, caberá ao contador de histórias ensiná-lo. "Permitir qualquer comentário durante a narrativa significa romper com esta magia, com este fio invisível que lançamos ao dizer: "Era um vez..." Será muito difícil retomar a história e unir o cordão partido por um comentário fora de hora. Desconsidere a pergunta ou a observação com um olhar amoroso que significa: "Depois a gente conversa!"

Outros dois aspectos da riqueza de Contar e encantar, que ainda devemos destacar, são as possibilidades de trabalho que a autora oferece com a matéria da memória pessoal e, oportunamente, os limites que descreve entre o ato de contar e o ato de representar. Desvinculando a obrigação de ator profissional do papel do contador de histórias, além de diagnosticar problemas e preconceitos correntes, Cléo Busatto espeta e separa com argúcia a série de excessos e estereótipos teatrais, repetidos por contadores inexperientes quando interpolam caras-e-bocas-mais-cambalhotas em uma performance. Vale a pena lembrar que o encanto e a beleza se engrandecem na simplicidade.

Breves exercícios de concentração, orientações para conduta corporal e outros segredos encontram-se dispersos por entre os capítulos, convidando o leitor à ação. O livro se fecha com uma pequena antologia de oito narrativas orais muito agradáveis que nos permitem lembrar e estabelecer relações com outras histórias, viajar por outros textos-contextos... Na urgência de suscitar imagens e afetos, todo contador tem aqui um trabalho inspirado.

(publicado originalmente em dobrasdaleitura.com)
Peter O`Sagae: Mestre e Doutorando em Letras, pela Universidade São Paulo, e editor da revista eletrônica Dobras da Leitura, que em março de 2006 foi reconhecida como uma ação homologada pelo Plano Nacional do Livro e Leitura - PNLL, Eixo 3.3 - Valorização da Leitura e Comunicação.
Trabalha como leitor crítico na avaliação de originais para duas editoras em São Paulo e na orientação literária junto a escritores, além de prestar assessoria técnico-acadêmica em projetos na área do livro e leitura.

22 de jan. de 2014

Gratidão

á Mia pela sua docilidade
Noite. Ouvi barulho seco tamborilando na porta de vidro. Fui ver o que era. Dois fachos verdes fosforescentes. Apaguei as luzes da casa, abri as portas e recebi a visita de um vaga-lume. Presente de aniversário. Um dos mais significativos. O outro tem sido o silêncio.
Aqui o silêncio só não é mais abundante, por que sapos coaxam, grilos, pássaros e cigarras trilam, e as águas repercutem nas pedras do rio produzindo sons. E quando a chuva cai, sinfonia de pingos na folha da bananeira. Nem mesmo os cachorros ousam profanar a paz do morro encantado.
Dia de aniversário é tempo de recomeço. Logo cedo me preparei para o novo, numa ação tipicamente capricorniana: subir o morro. Estava uma lama só, e enquanto caminhava ia moldando no barro os passos que daria no ano. Andar atento para não escorregar; não pisar em falso; não me machucar, nem me atolar em poças de água barrenta. Observava o tempo de parar e olhar para trás, para ver o caminho lindo que eu trilhava. Descortinava-se no horizonte uma paisagem salpicada de lagoas, montanhas e dunas. O encantamento nutre.
Na clareira da mata, junto às cascatas, celebrei a divindade. Agradeci a mim por me dar atenção e amor; por me olhar com compaixão e carinho; por exercitar a delicadeza e a flexibilidade comigo mesma; por me permitir a prática da confiança e da entrega. No ano que passou andei no sol e mergulhei no mar. Senti o frio roçar meu rosto no alto das montanhas. Dancei em noite de lua. Meditei. Orei.  Criei. E ri, e ri, e ri.
Também chorei e soube me acalentar para acalmar. Agradeci pelas pessoas que encontrei no caminho, faróis me mostrando o rumo, e inclui o não julgamento como forma de olhar. O ciclo que fechei foi intenso, nada fácil. Ainda assim alegre. Tenho sido chamada pela minha natureza saturnal a promover significativas transformações emocionais. E estou dando conta.
Eu e toda a humanidade somos chamados a isso. O momento pede que se amplie a consciência pessoal com o intuito de auxiliar a transformação do gênero humano. Cada vez que nos resolvemos, tanto no aspecto físico, como emocional, mental e espiritual; que olhamos ao redor e agradecemos àquilo que nos é dado; quando aceitamos que a razão não é a senhora da casa e abrimos as portas para a intuição; quando nos encaramos de frente e nos assumimos plenamente, isentos do pensamento mágico de achar que algo de fora (seja religião, seita, filosofia, ideologia) irá resolver os nossos problemas; quando paramos de responsabilizar o outro pelo nosso infortúnio, estaremos ajudando na transformação da consciência coletiva (e isto sim, é verdadeiramente sagrado, filosófico e político). Toda a humanidade se beneficiará desta ação, e será grata.

21 de jan. de 2014

Papeando com Cléo Busatto

                                               http://blogbirutagaivota.wordpress.com/

Hoje vamos conhecer um pouquinho mais sobre uma graciosa autora. Cléo Busatto escreveu O Florista e a Gata, pela Editora Biruta. Ela descobriu sua paixão por brincar com as palavras com três anos e meio e não parou mais! Foi atriz, escreveu e dirigiu peças de teatro para crianças. Venham descobrir o que mais inspira Cléo e conhecer seu espírito de menina!


Quem é Cléo Busatto?
A mulher determinada, a  adolescente ousada e a menina curiosa. As três amorosas e generosas. Às vezes explosivas, porém pacíficas. Às vezes melancólicas, noutras confiantes. Por aí…
O melhor lugar para o surgimento de riscos e rabiscos é…?
Qualquer lugar. Quem determina é a inspiração. Geralmente ela me visita durante as caminhadas.  Hora do smartphone entrar em ação. Nele registro os riscos e rabiscos que podem vir a ser uma história.
O melhor amigo criado por você?
As personagens de dois livros que ainda não foram publicados e que revelam o espírito da adolescência.  Esta estação carrega descobertas do mundo interno, transgressões, enfrentamento dos limites, percepção das potencialidades. Com isso dá para criar personagens redondos, amplos, complexos. As duas têm essas características e estou encantada com elas.
Uma viagem inesquecível seria nas páginas de qual livro?
De algum livro que ainda não li. São vários que aguardam o momento de se revelarem para mim.
Qual é seu companheiro favorito de aventuras?
O smartphone. Com ele eu escrevo, ouço musica, registro o canto dos pássaros, fotografo.
Escrever um livro é…
… um contínuo processo de autoconhecimento.
…me tornar  intérprete daquilo que sinto, vejo, penso, intuo.
… dar conta do mistério que é a vida e me avizinhar da minha história.
… fazer uma viagem no tempo em busca de resíduos da minha história para criar uma outra.
Se não inventasse mundos e personagens, o que Cléo faria?
Inventaria mundos e personagens através do teatro, da dança ou da pintura. Não daria para ser de outro jeito. Eu vivo no mundo dos encantados e quando a normalidade me entedia crio outro mundo, onde a vida imaginada passa a ser mais interessante que a vida vivida. Mas tenho dois pés no chão. É o que materializa estas viagens.
Por que livros para os pequeninos?
Porque sou todas as estações e carrego uma pequenina alegre dentro de mim que é reavivada toda vez que escrevo para ela. O tempo de criança é de descobertas do entorno, liberdade,  maravilhamento, e eu preciso disso para viver bem.
Onde fica/o que você faz quando busca inspiração?
Eu não busco, ela me encontra, me toma por inteira, não importa onde eu esteja. Sinto o fogo criador querendo se manifestar e corro para registrar sua aparição.
A melhor página em branco é…
… aquela onde eu posso criar uma narrativa que o leitor começa a ler e não quer saber de parar.                                   
            

A estrela de Belém

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