9 de jul. de 2011

Jardim de Monet

Estive em férias por alguns dias, ainda que  não fosse o período mais apropriado para me ausentar. Preferi mantê-las, porque elas estavam marcadas há meses e também, porque tenho me proposto a fazer acontecer esses intervalos de pausa, mesmo que seja durante períodos tumultuados. Olhar de fora esses momentos é um privilégio.
Decidi visitar o espaço onde Monet morou e criou sua obra. Com um entorno tão favorável a criação devia fluir harmonicamente. Os jardins de Monet são um modelo de diversidade. Tudo se mescla, cores, formas e perfumes. Eles foram construídos, pensados, traçados, mas as flores se misturam tão espontaneamente, que se chega a pensar que nasceram e cresceram sem a intervenção humana. As espécies interagem e se aceitam como são, algumas mais feias, outras mais bonitas. Da mais comum a mais sofisticada, elas mantêm sua personalidade.
Penso nas relações humanas e na dificuldade que temos de aceitar o feio, o torto, aquilo que segundo nossos critérios, não combina com as nossas boas qualidades. Rejeitamos o que não está completo, o que se choca com os padrões de bom comportamento. Aceitamos o que foi convencionado como desejável socialmente e nos inflamos de teorias para justificar e julgar o que não é do nosso agrado.
No jardim de Monet encontro o tom da reflexão. As flores tortas e já despetaladas também têm espaço por lá.

23 de jun. de 2011

Workshop nas férias - Contar e Encantar

Que tal mergulhar na magia da arte de contar histórias?


O próximo workshop que irei ministrar será nos dias 23 de julho - sábado , das 9hs às 18hs e 24 de julho -  domingo, das 9hs às 13hs.


No programa irei abordar
 - a história como sujeito.
- a memória como espaço mítico.
- a técnica como caminho.
- o repertório como meio e
- a narração como um ato de entrega.


A inscrição dá direito ao livro Contar e encantar – pequenos segredos da narrativa, Editora Vozes.

14 de jun. de 2011

Desempacotar as emoções


Quando se está aberto para receber vem um presente atrás do outro. Maio foi o mês de Itaguaçu. Quinze dias na cidade de quinze mil habitantes, plantada no interior do Espírito Santo. Bendito Espírito Santo. O que coloca no meu caminho mil e quinhentas crianças encantadas, pequenas faíscas de luz pipocando em olhos multicoloridos? Quando estamos prontos, as coisas chegam redondinhas, saborosas, feito os quitutes da cidade. Ah, os pães de Itaguaçu... Só mesmo mãos generosas para sovar aquela maciez. E os presentes vêm na forma de fruta, doce, comida, sorrisos e abraços. A gente fica gorda de tanto afeto e o peito expande, quando se toma conhecimento dos significados que a Feira Literária lançou na cidade. Um menino diz que para ele, a feira despertou a beleza com o encantamento das apresentações e o sentimento espiritual. Ora, também fiz parte desse processo, que para essa criança se revelou no Belo e no Mistério e gerou sua fala inspirada, registrada num bilhete escrito a lápis e com letras tortas.

Depois, os presentes vieram do workshop de narração de histórias. Foram tantos. Uma participante diz, ela nos desempacotou. A menina de nove anos conta sua história com estrutura literária, e em seguida chora ao falar da saudade que sente do irmão, que morreu recentemente. Só dá mesmo para acolher e acalentar pela via do poético e do sensível. A história como sujeito. A memória como espaço mítico. A técnica como caminho. O repertório como meio. A narração como um ato de entrega. Foi por aí que a gente andou naquele final de semana friozinho e de céu azul.

Como dimensionar a forma com que nossa arte e expressão chegam até o outro? Como saber o que vamos provocar, quando desempacotamos emoções? Não sei. Sei apenas que é importante estar sempre como um grande coração, silencioso, escancarado, afável e receptivo. Aí não paramos de receber dádivas. E penso na formação do profissional da educação. Nas práticas e teorias, aprisionadas e empobrecidas, porque restritas a dualidade corpo/mente. E penso num processo por onde se pode transitar desse modelo binário de ver e atuar no mundo, para outro, circular e ampliado pelas múltiplas inteligências, pelas múltiplas dimensões, que abarca também o mítico e o sagrado no cotidiano. Dessa forma, dá para gente abrir as mãos e voltá-las para cima e aceitar o que vem do alto, ainda que isso nos provoque alguma dor. Mas só assim nos tornaremos mais inteiros e por fim mais felizes e gratos pelo que a vida nos dá.

9 de jun. de 2011

Histórias para esquecer do frio

 
Num bilhete na cadeira se lê:
Comece fazendo o que é necessário. Depois o que é possível. 
E de repente você estará fazendo o impossível.
Dito por São Francisco de Assis. 
Espaço Paz e Bem.

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28 de mai. de 2011

A arte de cara nova



Eu insisti numa cara nova para o livro A arte de contar histórias no século XXI.  Fui ouvida pela Vozes e o novo livro chegou. Na 3ª edição, ele ganhou um novo ar, mais conectado com o seu conteúdo, mais inspirador. A capa é um elemento importante para um livro; é sua apresentação; é quando ele diz alô para o leitor. Muitas vezes somos atraídos por uma capa. Só depois é que vamos ler as orelhas, folhear, e ler seu conteúdo. Eu gostei do resultado. E você?

16 de mai. de 2011

Entusiasmo e a condição de se manter dócil

Às vezes temos a impressão de estar no olho do furacão. As coisas acontecem vertiginosamente, sem nos dar tempo para elaborá-las. É fácil ser tomado pela cólera, perder o rumo, a cabeça, o humor. Na manhã de embarque para Poços de Caldas, rumo a Flipoços, descobri que estava sem a carteira de documentos, cartões... esses passaportes para o cotidiano. Claro, não embarquei. No primeiro momento veio um ”não acredito, não acredito”. Atenção, Cléo. Respirar, rir e solucionar, dizia a voz pacificadora. E lá vou eu, noutro voo, no final do dia, com mais algumas horas de estrada pela frente, dormir tarde, acordar cedo, cansaço, etc etc etc. Se não fosse a falta de atenção poderia ter feito o mesmo trajeto com mais tranquilidade, dizia a voz crítica e julgadora. Serena, serena, sugeria a voz do bem. E nesse impasse com as vozes internas, cheguei à cidade, até mais cedo do que previ. Cai num sono intenso.


No dia seguinte, a poucos momentos da abertura do evento, me dei conta que estava feliz por estar lá e falar aos professores sobre esse assunto que me encanta: oralidade e leitura literária. Mas, mais feliz ainda eu estava, por ter vivido os imprevistos do dia anterior com calma e por ter mantido a doçura comigo mesma. Naquele momento eu estava bem e alegre e era esse ânimo, essa energia que permearia minha fala. Assim foi. Deslizou.

Mais tarde, andando de volta ao hotel, cruzei com um professor que estava na palestra. Ele veio me cumprimentar e observou que meu entusiasmo foi contagiante. Sim, eu disse, acho importante estar neste estado de exaltação do espírito, por que isso implica em manter vivo o sopro criador, que nos faz cúmplices e participantes da vida. Entusiasmo é a força que me inspira, anima e me propulsiona a criar com amor. Isso quer dizer carregar Deus dentro de mim. Não dá para negar a dimensão do sagrado, nem mesmo numa fala científica. Creio que essa realidade deve ser vivida no dia-a-dia, não apenas nos templos. Sem ela a vida se torna árida e sem sentido.

Reafirmo em cada encontro literário, em cada discurso sobre os efeitos e afetos da leitura literária, a urgência em recuperar as dimensões não passíveis de experimentação, mas tão reais quanto distinguir um copo de água de um copo de vinho. Pneuma e psyché devem voltar a andar juntas com soma. Esse é o desafio da educação na contemporaneidade, integrar o que foi fragmentado e humanizar o ato de educar. Entusiasmar meus comparsas, esse é o tom.


Dias 4 e 5 de junho, workshop Contar e Encantar, em Curitiba.

9 de mai. de 2011

Flipoços 2011

O 1º Encontro da Educação, evento que aconteceu na VI Feira Nacional do Livro de Poços de Caldas, gerou algumas reflexões compartilhadas no Boletim de Maio. A grande alegria foi encontrar a Tatiana Belinky, homenageada da feira, estampada por todos os cantos.
Tatiana impulsionou minha carreira literária. No final dos anos 90 levei à sua casa um roteiro de peça para criança. Ela leu e proferiu, isso é um conto para crianças. Está praticamente pronto. Porque não pensa em publicar?
Levei a sério e anos mais tarde publicaria meu primeiro livro para crianças, Dorminhoco, que dedico a ela. Também levei a sério, quando ela disse que as historias são um treino par as emoções. Essa frase ficou ecoando dentro de mim e hoje, silenciosamente, agradeço Tatiana, porque cada vez que eu vou falar para um grupo de pessoas, sobre literatura, histórias escritas e narradas, ela surge na minha frente, com seu ar de pisciana dócil e sonhadora.
Tatiana faz parte desse pequeno universo de grandes pessoas que mudam a vida das outras. Ela mudou a  minha, quando validou minha escritura e minha imaginação. Agora sou eu quem está aí, com essa tarefa de ler o outro e dizer, siga em frente. 
Semana que vem estarei em Itaguaçu, nas montanhas do Espírito Santo. Todos os dias recebo dezenas de emails dos alunos, dizendo-se ansiosos pela minha presença. Que estão lendo meus livros, que gostam do que leem e que desejam que eu seja feliz na sua cidade. Eu serei, meus queridos. Com tanto carinho junto, como não seria? 
A passagem por Poços foi rápida mais intensa. Os afetos que as pessoas lançam não se desfazem mais. Ao contrário, se materializam e deixam marcas no corpo, nos sentidos, no coração e no espírito. Poços de Caldas, eu volto para lá.

A estrela de Belém

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